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Negação da ditadura alimenta avanço da extrema direita, alerta autora de livro sobre a tortura

Num contexto internacional marcado pelo avanço de movimentos de extrema direita e pela circulação massiva de desinformação, revisitar a história tornou-se também uma forma de compreender os desafios do presente. É o que propõe a jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon em "A tortura como arma de guerra: da Argélia ao Brasil", lançado recentemente em francês pela editora L'Harmattan.

16 set 2026 - 12h42
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Resumo
No lançamento francês de seu livro sobre a tortura, a autora Leneide alerta que a negação dos crimes da ditadura brasileira e a impunidade gerada pela Lei da Anistia alimentam o avanço da extrema direita. Ao traçar paralelos com a repressão francesa na Argélia, ela defende a urgência de um dever de memória e critica a falta de reconhecimento oficial do Estado brasileiro sobre mortos e desaparecidos, lacuna que favorece a reescrita da história e a relativização da violência estatal no presente.

Publicado no Brasil há dez anos e posteriormente traduzido na Argélia, o livro "La torture comme arme de guerre, de l'Algérie au Brésil" chega ao público francês num momento em que as disputas em torno da memória histórica, do autoritarismo e da democracia voltam a ocupar lugar central no debate público.

A jornalista e escritora carioca Leneide Duarte-Plon na RFI.
A jornalista e escritora carioca Leneide Duarte-Plon na RFI.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

Em Paris, onde participa de uma sessão de autógrafos e de um debate com os historiadores Maud Chirio e Rodrigo Nabuco de Araujo, Leneide revisita as conexões entre a repressão francesa na Guerra da Argélia e a ditadura brasileira, estabelecendo pontes entre os sistemas repressivos do passado e os desafios políticos do presente.

Em entrevista à RFI, Leneide detalha como a chamada teoria do "inimigo interno", formulada no contexto das guerras coloniais francesas, ajudou a moldar as estratégias repressivas adotadas pelas ditaduras sul-americanas, especialmente no Brasil. Segundo ela, a novidade dessa doutrina era identificar a ameaça não como um exército estrangeiro, mas como um adversário que estaria "dentro do país", disfarçado entre professores, estudantes, sindicalistas, religiosos ou intelectuais.

A autora também reflete sobre os efeitos duradouros da Lei da Anistia brasileira. Para ela, a negociação que permitiu o retorno dos exilados ao país teve como contrapartida a impunidade dos agentes da repressão. "Nenhum torturador foi para a prisão, nenhum torturador esteve no banco dos réus", afirma.

Na avaliação de Leneide, essa ausência de responsabilização ajudou a criar um ambiente em que setores da extrema direita ainda conseguem negar ou relativizar os crimes cometidos pela ditadura.

Dever de memória

Ao abordar as disputas em torno da memória histórica, a escritora sustenta que "é importante para a extrema direita reescrever a história e apagar a história", minimizando a violência de Estado e o legado da tortura. Em sua avaliação, o desconhecimento desse passado pelas novas gerações torna ainda mais urgente o que ela define como um "dever de memória".

Comparando o caso brasileiro com iniciativas de reconhecimento promovidas pelo Estado francês, Leneide cita um episódio que a marcou profundamente: a visita do presidente Emmanuel Macron, em 2018, à viúva do matemático e militante anticolonialista Maurice Audin, preso, torturado e morto por militares franceses durante a Guerra da Argélia. Na ocasião, Macron reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado francês pelo desaparecimento e pela morte de Audin, encerrando décadas de silêncio institucional.

Para a jornalista, aquele gesto teve um valor histórico que ultrapassa as fronteiras francesas. "Isso foi talvez o maior momento do governo Macron", afirma. "Ele fez uma coisa que nem o presidente François Hollande, de esquerda, teve a coragem de fazer." Na avaliação de Leneide, o reconhecimento dos crimes cometidos pelo Estado é um passo essencial para a construção da memória democrática.

A autora lamenta que o Brasil nunca tenha realizado um movimento semelhante em relação aos crimes da ditadura militar. "Isso deveria ter sido imitado no Brasil pelos militares: reconhecer torturas, reconhecer execuções sumárias e reconhecer desaparecidos", diz.

"Até hoje tem uma lista enorme de desaparecidos no Brasil. Isso não foi feito por nós."

Para ela, a dificuldade em enfrentar esse passado ajuda a explicar por que ainda há espaço para a negação ou a relativização das violações cometidas durante o regime militar. "Quanto menos a gente contar essa realidade, melhor para a extrema direita", resume.

Debate reúne especialistas

O debate que acompanha nesta quarta-feira (16) o lançamento francês da obra reúne pesquisadores cujos trabalhos dialogam diretamente com as questões levantadas por Leneide.

Maud Chirio, autora com Mariana Joffily do livro "Torturadores", investigou o perfil dos agentes da repressão e os mecanismos institucionais que sustentaram a prática sistemática da tortura durante a ditadura brasileira.

Rodrigo Nabuco de Araujo, por sua vez, estudou a transferência para o Brasil das doutrinas francesas de guerra contrarrevolucionária e tem se dedicado mais recentemente à análise das direitas e extremas direitas contemporâneas, explorando as relações entre conservadorismo, anticomunismo, democracia e autoritarismo.

Juntas, essas pesquisas ajudam a iluminar os vínculos entre os sistemas repressivos do passado e os debates atuais sobre memória, radicalização política e democracia.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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