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Leão 14 deixa rumo teológico em aberto no 1º ano como papa

8 mai 2026 - 06h35
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Líder da Igreja Católica tem adotado publicamente um estilo diferente do antecessor Francisco. Início do pontificado teve pedidos de paz, conflito com Trump e atenção renovada à África.À primeira vista, o papa Leão 14 faz várias coisas diferentes do seu antecessor, Francisco. Ele usa vestimentas mais festivas e tradicionais. Além disso, voltou a morar no Palácio Apostólico, no alto da Praça São Pedro. E, ainda, passa períodos na residência de verão papal de Castel Gandolfo.

Papa Leão 14 sucedeu Francisco à frente do Vaticano em maio de 2025
Papa Leão 14 sucedeu Francisco à frente do Vaticano em maio de 2025
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas, no que diz respeito à orientação teológica e à linha de política eclesiástica, muitas perguntas não foram ainda respondidas no papado do americano Robert Prevost - eleito pelo conclave há um ano exato, em 8 de maio de 2025, como chefe da Igreja Católica.

Até agora, não há encíclica, ou grande documento doutrinário, assinado por Leão, ressalta o historiador da Igreja Jörg Ernesti, da Universidade de Augsburgo, na Alemanha, em entrevista à DW. Por isso, segue "em aberto para onde, teologicamente, caminha este papa". Para ele, o papa parece deliberadamente manter certa reserva.

"Paz desarmada" em turbulência geopolítica

As primeiras palavras pronunciadas por Leão, poucas horas após sua eleição, em 8 de maio de 2025, da sacada da Basílica de São Pedro, foram: "A paz esteja com todos vocês". Nenhum outro termo apareceu com tanta frequência nesse discurso quanto a palavra "paz".

Leão defendeu uma "paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante". Com isso, manteve-se amplamente na linha do antecessor, que se manifestou repetidas vezes sobre as guerras na Ucrânia e em Gaza.

Em particular, a política externa de viés militar do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confere relevância ao tema. O papado de Leão coincide com a intervenção americana na Venezuela, o aperto das ameaças contra Cuba e Groenlândia e, ainda, e a guerra contra o Irã.

Confronto aberto com Trump

Com o início do conflito no Oriente Médio, os dois americanos entraram em confronto aberto. O papa, lançando mão do seu discurso geralmente ponderado, e o presidente, do seu já conhecido tom agressivo.

O republicano ameaçou abertamente, após a Páscoa, a destruição do Irã. "Uma civilização inteira vai morrer esta noite", disse.

Quando o papa classificou essa advertência como "realmente inaceitável" e alertou para "fantasias de onipotência" que estariam se tornando "cada vez mais imprevisíveis e agressivas", Trump atacou o papa pessoalmente. Chamou-o de "politicamente muito à esquerda" e, em relação à política externa, de "terrível".

Talvez o chefe da Casa Branca subestime a importância da Venezuela, de Cuba e do Líbano para o Vaticano. Os três países têm forte tradição católica.

Ataque ao papa: "nem Hitler, nem Mussolini, nem Napoleão"

Para Ernesti, o ataque de Trump a Leão é sem precedentes. "Ninguém jamais se expressou de forma tão depreciativa sobre a pessoa de um papa. Hitler não fez isso, Mussolini não fez isso, Napoleão não fez isso." Também seria "completamente sem sentido" se indispor com uma autoridade moral como o papa.

O ataque do presidente dos EUA deu projeção mundial às declarações críticas do chefe da Igreja. Também pode ter contribuído o fato de que, em vários países do mundo ocidental — inclusive nos Estados Unidos —, reporta-se um novo interesse crescente por religião e Igreja.

Menos atenção recebeu uma controvérsia entre o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o papa. Em termos de conteúdo, porém, ela talvez fosse mais relevante para Leão do que as bravatas do presidente.

Vance, que só se converteu ao catolicismo em 2019 e costuma se inspirar em correntes teológicas reacionárias, advertiu o papa a ter cautela ao falar de teologia. O melhor seria "que o Vaticano permanecesse nas questões morais". Mais tarde, o vice adotou tom conciliador.

Atenção à África

Diferentemente de Francisco, até o momento não há indícios, nos discursos e declarações de Leão, de criticismo à Europa ou às Igrejas nos países europeus. O argentino por vezes escolheu palavras duras, afirmando que a Europa se tornara cansada e fechada.

Fica claro que sua atenção se volta especialmente para a África. Em abril de 2026, ele passou 11 dias em Algeria, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Foi mais tempo no continente do que Bento 16 passou em oito anos.

Há 150 anos, a África já está "no radar dos papas". Hoje, a Igreja no continente cresce, em média, 3% ao ano, enquanto se vê estagnada na Europa. "Os pesos dentro da Igreja Católica estão se deslocando", afirma Ernesti. Cada vez mais africanos trabalham no Vaticano.

Desde o confronto entre o presidente Trump e o papa, muitos observadores já não acreditam que Leão, nascido em Chicago, visite os Estados Unidos durante os anos de governo Trump.

Refugiados são tema central

Rumores de que o governo americano gostaria de ter o chefe da Igreja presente nas celebrações do 250º aniversário da Declaração de Independência dos EUA, em 4 de julho, parecem ter sido respondidos pelo Vaticano à sua maneira. Neste dia, Leão visitará Lampedusa.

A ilha mediterrânea é considerada local simbólico da fuga e do sofrimento de refugiados, especialmente desde o verão de 2013. Naquele ano, o papa Francisco fez uma visita, poucos meses após sua eleição, e lamentou as milhares de mortes de pessoas que se afogaram em travessias perigosas rumo à Europa.

Lampedusa também tem caráter programático para Leão. Ele igualmente enfatiza a situação de milhões de pessoas forçadas a fugir em todo o mundo.

Numa viagem à Espanha prevista para junho, o papa visitará duas das Ilhas Canárias, Gran Canaria e Tenerife. Ambas são ilhas turísticas populares, onde cada vez mais refugiados vindos da África chegam de barco.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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