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Japão tenta combater "mortes solitárias" entre idosos

17 mai 2026 - 11h55
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Mais de 70 mil idosos japoneses morreram completamente sozinhos no ano passado - e mais de 20 mil foram encontrados mais de 8 dias depois. Governo e ONGs tentam lidar com "epidemia de solidão" no país.O Japão enfrenta uma crescente no número das chamadas "mortes solitárias", uma referência àqueles que morrem em isolamento. A questão se tornou tão comum na sociedade moderna do país que ganhou até um termo próprio, "kodokushi", e já representa quase 5% do total de mortes no Japão.

Dados divulgados pelo governo e pela polícia no final de abril mostram que 76.941 pessoas morreram desta forma em todo o país no ano fiscal de 2025, que se encerrou em 31 de março de 2026. Isso representa 921 casos a mais do que no ano anterior.

De forma mais grave, as autoridades estimam que 22.222 dessas mortes também se enquadrem como "koritsushi", ou seja, quando o corpo da pessoa não é encontrado por pelo menos oito dias após o óbito. Em 7.148 casos, cerca de 9% do total, o corpo só foi descoberto após mais de um mês.

Os idosos representam a maioria dessas mortes solitárias, embora as estatísticas incluam 57 adolescentes e 753 pessoas na faixa dos 20 anos. O aumento tem alimentado o debate sobre solidão e isolamento no Japão contemporâneo.

"A sociedade japonesa mudou muito em um curto espaço de tempo", afirma Izumi Tsuji, professor de sociologia na Universidade Chuo, em Tóquio.

"Há muitos fatores envolvidos, mas acredito que o principal foi o fim do modelo tradicional de família nuclear e a transição para uma sociedade mais individualista, em que as pessoas vivem sozinhas", disse à DW.

Isolamento nos complexos residenciais

Há pelo menos três décadas, o Japão vem registrando uma queda na população rural, à medida que jovens deixam vilarejos e pequenas cidades em busca de melhores oportunidades educacionais e, posteriormente, de emprego.

As comunidades que ficaram para trás agora têm poucos moradores jovens. Os idosos estão cada vez mais isolados, e muitos acabam morrendo sozinhos.

"Quando eu era criança, cresci em uma casa com meus pais e dois dos meus avós", conta Tsuji. "E era perfeitamente normal viver em um lar com várias gerações da família. Isso foi há apenas algumas décadas, mas esse tipo de arranjo hoje é raro e praticamente inexistente nas cidades."

Tsuji explica que a vida nas grandes cidades japonesas tem suas próprias questões, já que, geralmente, as pessoas se mudam para edifícios altos em complexos residenciais e, no melhor dos casos, mantêm uma relação superficial com os vizinhos.

"Os japoneses não costumavam viver em prédios altos", reitera. "Vivíamos em comunidades onde as casas tinham áreas abertas ao redor, onde todas as crianças brincavam juntas e você conversava com os vizinhos todos os dias. Você conhecia essas pessoas e, se alguém precisasse de algo, sempre tinha algum tipo de apoio disponível."

Iniciativas para combater reclusão de idosos

Tsuji afirma que a conexão humana é essencial para a saúde mental. "Agora, quem vive em um bloco de apartamentos está fechado e isolado", disse. "Não acho que os seres humanos foram feitos para viver assim. Precisamos de relações com as pessoas ao nosso redor, de conversar e interagir."

O professor propõe uma solução radical. Ele defende a demolição de grandes conjuntos residenciais para que as pessoas retornem a formas de convivência comunitária mais próximas. Embora essa ideia seja difícil de implementar, as autoridades japonesas reconhecem que o "kodokushi" é um problema que precisa ser enfrentado com urgência, sobretudo à medida que a população do país segue envelhecendo.

Em 2021, o governo criou o cargo de ministro da Solidão e do Isolamento, com o intuito de combater a relativamente alta taxa de suicídio no país e problemas de saúde mental entre crianças e adultos.

Em abril de 2024, entrou em vigor a Lei de Avanço a Medidas para Combater a Solidão e o Isolamento, que incentiva governos locais a criarem estruturas especializadas, com equipes treinadas para entrar em contato com pessoas que vivem sozinhas e ajudá-las a se sentirem parte da comunidade. Um dos pontos centrais da legislação é romper o estigma em torno do problema e incentivar idosos a aceitarem ajuda, mesmo que desejem manter a independência.

A campanha levou à criação de associações de moradores que acompanham vizinhos em situação de vulnerabilidade, além de eventos para socialização de idosos, cafés voltados a pessoas com demência ou outras condições relacionadas à idade, assim como ONGs especializadas e organizações de assistência social.

Esperança após o desastre

Uma dessas iniciativas surgiu após o desastre natural de 2011, que devastou grandes áreas da costa norte do Japão.

Em 11 de março daquele ano, a cidade costeira de Ishinomaki foi atingida pelo maior terremoto já registrado no país, seguido por uma série de tsunamis que também afetaram a usina nuclear de Fukushima. O tremor e as inundações destruíram grande parte da cidade. Milhares de pessoas morreram, empresas e casas foram arrasadas, e grande parte da infraestrutura local, incluindo os sistemas de transporte, simplesmente desapareceu.

No mês seguinte, Katsuyuki Ito começou a oferecer ajuda para idosos, levando-os de carro até bancos, hospitais, a prefeitura e os poucos supermercados que restaram. A iniciativa voluntária em Ishinomaki se transformou posteriormente na ONG Rera.

"Hoje temos seis veículos e uma equipe de oito voluntários", conta Kei Ueno, de 50 anos, que se mudou para Ishinomaki pouco depois do desastre.

"A maioria das pessoas que ajudamos é idosa ou tem alguma deficiência e precisa de apoio para se locomover", relata. "Para muitos deles, a família morreu, então são obrigados a viver sozinhos e têm pouco contato com outras pessoas na maior parte do tempo."

"A pessoa mais velha que estamos ajudando tem 94 anos, e frequentemente ouvimos que o melhor momento do dia dela é quando os voluntários da Rera vêm buscá-la", afirma Kei.

"Então a gente ajuda levando-os para os lugares onde eles precisam ir, mas eu acho que é mais do que isso", acrescenta. "Essas pessoas são idosas e estão sozinhas, então a companhia e a conversa que oferecemos são tão importantes quanto o transporte."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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