Com o turismo, chegaram novas ideias: a igualdade entre pessoas, o amor livre, a liberdade sexual das mulheres

Exotismo para vender cerveja: Em 2009, a Brahma lançou um controvertido comercial de televisão que fazia alusão ao brichero como o “peruano que conquista o mundo”

O início

O bricherismo nasceu quando o mundo descobriu a cidade de Cusco graças à atividade turística. Nos anos 1970, Cusco era uma pequena cidade provincial, com uma sociedade fechada que separava claramente os mais ricos, a classe média e os índios, que viviam em estado de servidão.

O turismo revolucionou o modo de pensar do cusquenho – como é chamado o morador da cidade. Junto aos visitantes, chegaram novas ideias: a igualdade entre as pessoas, o amor livre e a liberdade sexual das mulheres.

Tito Roa, sócio principal da célebre discoteca Ukukus, conta que a primeira vez que escutou uma história sobre bricheros foi em 1982, aos 16 anos, quando vendia artesanato na Praça de Armas. “Os chamavam assim porque eles sempre falavam de suas ‘hembritas’ estrangeiras”, relembra.


Segundo Roa, que trabalha há 30 anos em um dos locais mais clássicos da noite cusquenha, os primeiros bricheros não tinham maior pretensão do que somente sair com gringas. “Nem sequer se vestiam com poncho, sombreiro e plumas. Ao princípio, todas eram histórias de amor, de grandes paixões”.

Com o incremento do turismo, os artesanatos também se espalharam por todos os cantos em Cusco. São eles que configuram a imagem do brichero atual e vestem o traje dos cusquenhos: poncho, chinelos, tiara.

Além de assumir a imagem, ele adotam o discurso mágico da cultura andina: falam de Apus, da Pachamama e da folha de coca (Apus são os espíritos dos antepassados. Pachamama é a deusa vinculada à terra. A folha de coca atua como ligação entre o mundo de dentro - de Apus e Pachamama - e o mundo de fora - dos homens).

Roa sustenta que são eles que trocaram o significado de brichear porque descobriram um objetivo para a terminação, que soa com bridge (eles veem o turista como uma ponte para um país estrangeiro e as estrangeiras podem ser o elo para um futuro melhor). Nessa época, o Peru vivia um de seus piores momentos ao enfrentar a inflação mais alta do planeta e um movimento terrorista que tirou a vida de mais de 69 mil pessoas.

O paradoxal em um país como o Peru, com baixos níveis de leitura, é que o brichero foi introduzido na imaginação popular por meio da literatura. Mario Guevara, um escritor cusquenho de 45 anos, que confessa ter sido um brichero, é o autor do famoso Caçador de Gringas, publicado em 1995. Bastou uma reportagem de televisão para que a notícia ganhasse grande repercussão. Desde então, foram escritos contos, novelas, poemas, reportagens e, inclusive, realizado o filme A Gringa, baseado no conto de Guevara.