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Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

A desinformação cria bolhas, reforça crenças, intensifica a polarização política e retroalimenta intolerâncias. Seus conteúdos geram engajamento, ampliam a circulação de dados e alimentam a lógica de acumulação de capitais

2 abr 2026 - 08h48
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O Dia Internacional da Checagem de Fatos, neste 2 de abril, é mais uma oportunidade para qualificar a discussão sobre desinformação. Ela é uma marca do nosso tempo, assim como a premissa de que poderia ser combatida com mais informação. Essa ideia sustenta que ampliar o acesso a conteúdos neutralizaria as narrativas enganosas e seria suficiente para estimular práticas informacionais adequadas.

Mas informação e desinformação são produzidas e disseminadas no mesmo ecossistema informacional. Em uma era dominada pela circulação intensa de conteúdos, pelo negacionismo, pelo revisionismo e por plataformas que monetizam atenção e engajamento, somente ampliar o volume informacional não basta para reduzir o grau de desinformação.

É preciso investigar como a desinformação circula nas plataformas digitais e de que modo as práticas desinformacionais estão inscritas em um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização.

Mesmo sufocada pela desinformação, a sociedade trata a era digital e a informação como panaceias para os problemas produzidos nesse ambiente. A informação é entendida como solução em si mesma. Nesse enquadramento, a oposição entre informação e desinformação tende à simplificação: de um lado estaria a verdade; de outro, a mentira.

Dessa simplificação emerge uma leitura recorrente do problema: se a desinformação se espalha, o caminho seria ampliar a circulação de informação qualificada para contê-la. Foi nesse contexto que, durante a pandemia de Covid-19, ganhou força a noção de infodemia.

Hiperinformação e superdesinformação

Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia se difundiu como o excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulavam com velocidade pelas plataformas digitais. Cresceu a percepção de que a desinformação poderia ser enfrentada com mais informação. A experiência mostrou que, mesmo com a existência e disponibilização de muitas evidências científicas, conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação.

Ainda assim, a "sociedade da informação" oferece uma resposta centrada no indivíduo, privilegiando competências críticas e habilidades individuais para reconhecer narrativas falsas. Em vez de enfrentar as condições em que a desinformação circula, essa abordagem desloca para o sujeito a responsabilidade de distingui-la da informação. Como observa o pesquisador Rodrigo Moreno Marques (UFMG), o foco recai sobre as habilidades individuais, e não sobre o ambiente em que essas narrativas são produzidas, circulam e se fortalecem.

A desinformação não pode ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação. Trata-se de um fenômeno que estrutura estratégias de poder: em vez de circular espontaneamente, ela se articula com interesses econômicos e políticos, além de formas de organização da comunicação nas plataformas, como exemplificam as mobilizações da extrema direita no espaço digital.

Para compreender esse funcionamento, é preciso relacionar informação e desinformação à crítica da economia política. Conceitos como alienação e fetichismo, formulados pelo filósofo e economista alemão Karl Marx, ajudam a iluminar uma realidade em que narrativas operam como fatos e a circulação de conteúdos se articula a questões econômicas e sociais. Nesse quadro, o regime de informação/desinformação passa a tensionar a própria democracia.

Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Marx demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas. Essa discussão importa porque essas relações de exploração se reconfiguram no ambiente digital, em que essa tecnologia se tornou a "indústria-base" da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais.

Enquanto tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais, novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. Nesse contexto, o atual regime informacional precisa ser compreendido como parte do capitalismo para podermos falar de desinformação.

O novo regime de informação

O modo como a vida material e o trabalho são produzidos e organizados influencia a forma como pensamos e nos comunicamos. Em sociedades plataformizadas, em contínua expansão, as redes sociais e as big techs distribuem informação e influenciam a organização e produção da vida social, estruturada a partir de uma base econômica. As condições materiais de existência dão origem a uma superestrutura composta por dimensões sociais, políticas, culturais e intelectuais.

Assim, o conceito de alienação ajuda a entender efeitos da informação mediada pelas plataformas. Alienação ocorre quando deixamos de reconhecer ou controlar o produto de nosso trabalho. E isso se intensifica no ambiente das plataformas que retroalimenta a dinâmica de acumulação. Usuários produzem dados e conteúdos que alimentam sistemas econômicos sem que possam controlar o uso dessas informações.

Em A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e cineasta francês Guy Debord trata do indivíduo alienado pela sociedade moderna. Quanto mais o trabalhador (usuário) produz conteúdos e interações, menos vive essa experiência, se reconhecendo em imagens e narrativas dominantes, sem compreender sua posição no sistema. Quanto mais alienado do resultado de sua atividade, mais assume o papel de espectador.

Temos, portanto, a consolidação de um espetáculo alimentado por um estágio avançado de produção de mais-valor (o valor gerado pela atividade do trabalhador/usuário e apropriado economicamente pelas plataformas). Nessas condições, a participação é convertida em matéria-prima. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador/usuário, que ao mesmo tempo produz e consome, sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido.

Nesse ambiente, atividades antes ligadas ao convívio social e ao lazer passam a ser mediadas pelo consumo e pela visibilidade nas plataformas. O espetáculo descrito por Debord se atualiza: relações sociais são filtradas e organizadas por uma lógica mercantil que transforma experiências em produtos.

Informação e desinformação alienam e circulam nas redes como produtos do trabalho social. Essa produção favorece distorção, simplificação e manipulação de conteúdos. O resultado é um ambiente informacional que dificulta uma compreensão crítica da realidade.

Sob a lente da economia política

No novo regime de informação, mudam os meios e dispositivos e as plataformas se multiplicam, mas o capitalismo segue impondo as regras do jogo. Tecnologias ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos informacionais, enquanto as mesmas lógicas de acumulação continuam organizando a produção e circulação da informação.

O conceito marxiano de fetichismo da mercadoria ilumina a discussão. O fetiche ocorre quando objetos materiais passam a aparentar qualidades próprias que derivam de relações sociais - uma ilusão que nos faz aceitar a aparência de um fenômeno como se fosse sua essência. Esse mecanismo escamoteia relações sociais de dominação presentes na base do sistema, nos fazendo admitir como naturais as relações de exploração do capitalismo.

A "sociedade da informação" é tomada como dado inevitável da história, ainda que expresse interesses de classe e relações de poder. Sob as lentes da crítica da economia política, o debate não diz respeito apenas aos conteúdos gerados nas redes sociais, mas envolve também plataformas digitais, governança da internet e colonialismo digital.

Por isso menciono o conceito de fetiche da informação: é comum acreditar que o ato de se informar e/ou produzir conteúdos nas redes seja suficiente para influir na informação plataformizada. Essa percepção tende, no entanto, a ocultar as estruturas econômicas e tecnológicas que organizam, filtram e monetizam os fluxos de informação.

Nesse ambiente se multiplicam aparelhos ideológicos digitais que abusam de simplificações, omissões e uso seletivo de fontes. Esses aparelhos proliferam conteúdos falsos e oferecem produções que reinterpretam a história a partir da construção de um inimigo comum, que pode ser a "Esquerda". Ao simplificar processos complexos e distorcer fatos históricos, esses aparelhos também alimentam desconfianças nas instituições e comprometem a formação da opinião.

A desinformação cria bolhas informacionais, reforça crenças, intensifica a polarização política e retroalimenta intolerâncias. Conteúdos polarizadores e mobilizadores geram engajamentos, ampliam a circulação de dados e alimentam a lógica de acumulação de capitais. Nesse momento, o capital aumenta exponencialmente, enquanto somos substituídos por softwares, reorganizando relações de trabalho e ampliando desigualdades.

No livro Post-Truth, o filósofo da ciência estadunidense Lee McIntyre trata da pós-verdade, em que fatos são substituídos por narrativas e evidências pouco importam. É quando a aparência se impõe sobre a essência. O compromisso com a verdade não mais importa e a sociedade da hiperinformação revela sua contradição: quanto maior o volume e a velocidade da informação e da desinformação em circulação, maior o risco de perdermos a percepção da realidade em que estamos inseridos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Gilbergues Santos Soares não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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