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Houthis colocam em xeque posição do Hezbollah no "Eixo da Resistência"

19 set 2026 - 14h31
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Resumo
Com avanços no Mar Vermelho e ações militares inéditas, os houthis ganham protagonismo no "Eixo da Resistência" pró-Irã, superando a influência histórica do enfraquecido Hezbollah. Além de ameaçar rotas de petróleo e pressionar Arábia Saudita e Israel, o grupo rebelde iemenita opera com maior autonomia e radicalismo que seus aliados libaneses, tornando-se uma força estratégica mais imprevisível, perigosa e difícil de conter na arena geopolítica do Oriente Médio.

Grupo rebelde do Iêmen ganha destaque no conflito entre Irã e Estados Unidos ao avançar pela costa iemenita e ocupar ilhas no Mar Vermelho.Após os acontecimentos recentes no Iêmen, um pequeno grupo marchou por uma rua do Iraque carregando cartazes quase idênticos aos que haviam sido vistos não muito tempo antes mais ao sul.

Os cartazes diziam "morte à América" e continham insultos à Arábia Saudita e a Israel, com slogans muito semelhantes aos usados pelo grupo rebelde houthi no Iêmen. Os homens que aparecem no vídeo gravado no Iraque são integrantes de um dos grupos paramilitares xiitas do país.

Tanto os paramilitares iraquianos quanto os houthis no Iêmen fazem parte do chamado "Eixo da Resistência" no Oriente Médio, composto por grupos apoiados pelo Teerã e contrários a Israel e aos EUA, como o Hamas e o Hezbollah, além do próprio Irã.

Depois que os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o Irã no fim de fevereiro, integrantes do "Eixo da Resistência" responderam atacando alvos associados aos EUA ou a Israel. Mas, até recentemente, o grupo houthi havia permanecido mais ou menos à margem do conflito.

A recente campanha militar do grupo, que resultou na ampliação do controle dos houthis sobre a costa iemenita e várias ilhas do Mar Vermelho, porém, "cria condições para estabelecer uma área marítima controlada pelo Eixo da Resistência como parte de um esforço para exercer controle sobre as exportações regionais de petróleo", afirma um artigo da semana passada do centro de pesquisas americano Instituto para Estudos da Guerra.

O Irã e os Estados Unidos disputam atualmente o controle do Estreito de Ormuz, outra importante rota marítima para exportações de petróleo.

No Irã, jornais alinhados à ala mais dura do regime publicaram artigos elogiando os avanços territoriais dos houthis. Esses avanços "aumentaram significativamente a importância de Sanaa [a capital do Iêmen, sob controle houthi] como um polo da resistência na guerra regional em curso", escreveu o jornal Kayhan, um dos mais conservadores do país.

O "novo Hezbollah"?

Os houthis derrubaram nesta semana um caça saudita F-15 usando um míssil que teria sido modificado por eles próprios. A façanha é inédita. O Hezbollah conseguiu abater grandes drones israelenses e atacar caças, mas nunca atingiu nenhum deles.

Os houthis estariam ocupando o lugar do Hezbollah como a força potencialmente mais importante e talvez até mais perigosa do "Eixo da Resistência"?

"Os houthis se tornaram mais valiosos do que o Hezbollah jamais poderia ter sido", afirma Farea al-Muslimi, pesquisador especializado no Iêmen do centro de estudos Chatham House, no Reino Unido. "É claro que o Hezbollah tinha décadas de experiência e ajudou a desenvolver a capacidade dos houthis ao longo dos anos. Mas os houthis agora já os superaram."

Os houthis estão "desempenhando cada vez mais uma função estratégica semelhante para o Irã [à exercida pelo Hezbollah] e, em alguns aspectos, até mais útil", afirma Andreas Krieg, professor da Escola de Estudos de Segurança do King's College em Londres.

"O Hezbollah proporcionava a Teerã um mecanismo de dissuasão contra Israel a partir do Líbano. Os houthis dão ao Irã influência sobre a Arábia Saudita, Israel e as rotas globais de navegação", acrescentou. "Por isso, acredito que sua importância estratégica para Teerã aumentou fortemente à medida que o Hezbollah passou a enfrentar pressões muito maiores."

Al-Muslimi observa que líderes houthis, incluindo o atual chefe Abdul Malik al-Houthi, eram admiradores fervorosos do líder do Hezbollah Hassan Nasrallah, morto por Israel em 2024 e considerado um herói por seu papel na retirada israelense do sul do Líbano em 2000. "É possível perceber que ele até tenta imitar Nasrallah em seus discursos. E agora Abdul Malik al-Houthi tem mais influência do que Nasrallah jamais teve."

Segundo ele, Nasrallah já foi visto como o principal articulador do "Eixo da Resistência", atuando como elo entre diferentes facções e transmitindo orientações a combatentes apoiados pelo Irã no Líbano, Iêmen e Síria.

Al-Muslimi acredita que Al-Houthi esteja assumindo esse papel atualmente, apontando que um recente ataque a oleodutos sauditas partiu, na verdade, de integrantes iraquianos do eixo.

Representante do Irã ou aliado?

Ao contrário do que ocorre com o Hezbollah, ainda existe divergência sobre o grau exato de controle que o Irã exerce sobre os houthis.

Uma análise da cobertura de imprensa realizada pelo site iraquiano Amwaj mostrou que, enquanto a mídia iraniana tratava os avanços houthis como uma vitória do "Eixo da Resistência" liderado pelo Irã, os canais controlados pelos houthis se concentravam em sua própria luta contra a Arábia Saudita, que mantém um bloqueio sobre os territórios sob controle do grupo.

Krieg acredita que a maior diferença entre os houthis e o Hezbollah seja a autonomia. "Os houthis têm sua própria liderança, ideologia, base de apoio interna e projeto territorial", ressaltou. "Teerã pode capacitá-los, armá-los e se beneficiar de suas ações, mas não consegue necessariamente ligá-los e desligá-los quando quiser."

Outros observadores destacam que, no passado, os houthis avançaram com determinados planos militares apesar das objeções do Irã. Teerã também negou envolvimento com essa campanha mais recente.

Mas al-Muslimi não tem tanta certeza. Segundo ele, nos últimos dois anos, os houthis se aproximaram muito mais do Irã. Há relatos frequentes de envio de armamentos sofisticados iranianos ao grupo. Em julho, fontes dentro do Irã disseram à agência de notícias Reuters que a liderança iraniana discutiu com os houthis a possibilidade de bloquear o estreito de Bab el-Mandeb.

"Embora os líderes houthis apresentem suas ações em termos locais, seu alinhamento com Teerã parece ter se fortalecido", escreveu Allison Minor, ex-vice-enviada especial dos EUA para o Iêmen, na revista Foreign Affairs na semana passada.

Os houthis podem ser derrotados?

Sobre um ponto há consenso: será difícil conter os houthis. Campanhas militares anteriores conduzidas pela Arábia Saudita, pelos Estados Unidos e por outros países fracassaram. Sanções e pressão econômica também costumam ter pouco efeito, pois o grupo não opera dentro do sistema financeiro internacional.

Os houthis adotam uma "lógica de soma zero", explica al-Muslimi. Eles arrecadam impostos, mas não pagam salários nem oferecem serviços públicos; tudo é direcionado para o esforço de guerra. O fundador do movimento defendia que as sociedades muçulmanas contemporâneas eram excessivamente "brandas" e que pobreza e sofrimento constituem uma prova divina.

Isso é muito diferente do Hezbollah. O grupo libanês possui também um braço político e oferece serviços de assistência social. Além disso, precisa equilibrar cuidadosamente seu relacionamento com outros grupos da sociedade libanesa.

Os houthis não enfrentam nenhuma dessas limitações. "Eles não se importam se os israelenses bombardearem o aeroporto ou se os EUA bombardearem um hospital", afirma al-Muslimi. "Na verdade, isso lhes serve muito bem porque sua ideologia gira em torno do martírio e do sacrifício."

Isso, acrescenta o especialista, torna o grupo potencialmente mais perigoso do que o Hezbollah, especialmente para os civis iemenitas. "Eles representam uma grande ameaça internacional", concorda, "mas são também a maior ameaça já vista, na história do Iêmen, à ideia de república e cidadania."

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