Opinião: Lula luta contra o tempo enquanto Trump embaralha jogo de Bolsonaro
Por mais que 2025 tenha acabo de começar, para a política, já estamos no ano que vem.
“O que eu quero dizer para vocês é que 2026 já começou. Se não por nós, porque temos que trabalhar, pelos adversários a eleição do ano que vem já começou. É só ver o que vocês assistem na internet para vocês perceberem que eles já estão em campanha. E nós não podemos antecipar a campanha porque nós temos que trabalhar”, disse Lula (PT) durante reunião ministerial na segunda, 20.
É curioso perceber que a política tem seu tempo próprio. Lula dizia que 2024 seria o ano da colheita, mas sem entregar grandes feitos, adiou a previsão para este 2025, e agora pressiona ministros para que concluam suas marcas de gestão.
Essa pressa se justifica por uma melhora na popularidade e pelo próprio caminho das políticas públicas, recheado de burocracias, cronogramas legais, negociações, etc. Além do que, em anos eleitorais, o prazo para inauguração de obras é reduzido em quase seis meses, os ministros que vão concorrer precisam se desligar e abandonar o trabalho que faziam no governo, etc.
Aliás, que o tempo é relativo já sabemos desde os estudos sobre a Teoria da Relatividade do físico Albert Einstein, no início do Século XX. No entanto, na política, há outros fatores que aceleram a percepção de tempo.
O relógio de Lula começou a andar mais rápido em 2025, empurrado pelo aumento do preço dos alimentos. Assim como a gasolina e o gás de cozinha, o custo da comida na mesa está entre os itens mais sensíveis ao bolso e à popularidade de um governo.
Segundo o IBGE, o aumento dos alimentos em 2024 ficou na casa dos 8% - bem acima da média da inflação de 4,83%.
Acontece que não se planta e colhe arroz, nem se cria e abate o gado de um mês para o outro. Desde segunda, quando Lula cobrou ministros sobre o preço da comida “na mesa do trabalhador”, o alto escalão quebra a cabeça para encontrar uma solução.
Na tentativa de encontrar medidas, o governo se atrapalhou - mais uma vez - na comunicação. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse que seria feita uma “intervenção”. O termo escolhido sem mais esclarecimentos causou arrepios por supor que poderia significar congelamento de preços ou outras medidas artificiais.
O diagnóstico que o governo faz sobre esse aumento considera uma série de fatores: eventos climáticos extremos como a seca em diferentes regiões e enchentes no Rio Grande do Sul, aumento do dólar pressionando preços de insumos do setor agropecuário, o ciclo pecuário, com menos oferta de animais para o abate em 2024, e a economia aquecida que elevou o consumo.
O desafio está em encontrar o remédio. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu a regulamentação dos vales refeição e alimentação e considerou que o recuo do dólar pode ajudar. Solução mágica, tanto ele quanto os demais envolvidos na discussão, sabem que não existe.
Nesse bololô todo, poderia se imaginar que a oposição bolsonarista estaria voando em céu de brigadeiro, como fez na questão do Pix alguns dias atrás. Ocorre que, com o inelegível e investigado Jair Bolsonaro (PL) enrolado com a Justiça, o grande guia da extrema direita está mais próximo da prisão do que da urna.
A desorganização da extrema direita ficou evidente com a posse de Donald Trump. Diversos parlamentares correram aos Estados Unidos para posse do republicano. Algum deles teve lugar de honra durante a posse? Não. O esforço e oba oba dos brasileiros que tentaram mostrar alguma relevância e influência junto a um político que pensa primeiro no seu país são cômicas.
O que se viu foi muito parlamentar sob a neve, passando um frio danado na rua, transitando em jantares de segundo e terceiro escalão, fazendo “textões” e vídeos para se rebaterem e brigarem entre si. Falta coesão e uma liderança evidente por essa massa de eleitores. A oposição gasta mais tempo sendo oposição a si própria do que ao governo.
O próprio Trump, ao ser perguntado pela jornalista da TV Globo, Raquel Krähenbühl, disse que a relação com o Brasil é “excelente”. Ainda desdenhou do país dizendo que os brasileiros precisam muito mais dos Estados Unidos do que o inverso.
Uma frase que deveria soar como alerta para quem festeja a eleição do republicano, como os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e de Minas, Romeu Zema (Novo), que precisam lidar com interesses empresariais locais que podem ser impactados por políticas de Trump. São os casos de alguns produtores rurais paulistas, e de mineradoras e siderúrgicas mineiras, por exemplo.
Por mais que 2025 tenha acabo de começar, para a política, já estamos no ano que vem.
Bom fim de semana!
Este texto foi publicado originalmente na newsletter semanal Peneira Política, assinada por Guilherme Mazieiro.
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