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Guilherme Mazieiro

Opinião: A tática do centrão para entrar no governo Lula

Caso Lula (PT) atendesse a toda barganha, teria feito praticamente duas trocas de comando por semana. Soaria como crise.

14 jul 2023 - 12h35
(atualizado às 12h40)
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Lula no Palácio do Planalto
Lula no Palácio do Planalto
Foto: Divulgação/Presidência da República / Cláudio Kbene

Quase todo dia, manchetes com informações em off (quando as fontes pedem para não ser identificadas pelos jornalistas) noticiam que o “centrão mira tal e tal ministério”. É assim que os políticos testam a aceitação de suas ideias por outras autoridades e pressionam o Planalto por mais recursos e cargos em troca de apoio nas votações do governo.

A especulação via noticiário não é novidade na política brasileira. O que ocorre atualmente, é que os órfãos do orçamento secreto em vez de oferecerem propostas para integrar o governo, pressionam a qualquer custo. Fazem um movimento coordenado para inundar os jornais com diversos pedidos, se valendo de argumentos difusos e machistas para tentar derrubar autoridades e emplacar aliados que muitas vezes nem entendem do ministério que vão comandar.

A partir dos incansáveis pedidos feitos em “offs” pelo União Brasil, PP e Republicanos na imprensa, soubemos, que no último mês, o centrão pleiteou o controle dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Esporte, Desenvolvimento Social, Saúde, mais a Caixa, Embratur, Correios e Funasa. Caso Lula (PT) atendesse a toda barganha, teria feito praticamente duas trocas de comando por semana. Soaria como crise.

Nos pedidos, a bancada dos insaciáveis, comandada por homens, justifica que eles ajudariam o governo caso tomassem o comando das pastas que estão nas mãos de mulheres como Saúde (Nísia Trindade), Caixa (Rita Serrano), Esportes (Ana Moser) e Turismo (Daniela Carneiro). Isso porque a substituição resolveria a “inabilidade” delas no trato político, já que “não entendem a dinâmica da liberação de emendas e recursos”, etc. É uma tentativa tosca de tentar vender machismo como se fosse um argumento razoável.

Essa estratégia do centrão rendeu muita emenda e trouxe vitórias nas pautas econômicas do governo. Mas por enquanto, apenas uma troca de ministério.

Nesta quinta, 13, Lula selou com o União Brasil a saída da ministra do Turismo para nomeação de Celso Sabino (União Brasil-PA), que nunca foi entusiasta do setor ou do tema. Note que o partido comanda outras duas pastas: Integração Nacional, com Waldez Goés, que apesar de ser do PDT foi indicado na cota do União Brasil; e Comunicações, com Juscelino Filho. Mas o alvo da bancada era Daniela Carneiro, que em abril alegou assédio por parte da cúpula do partido e pediu na Justiça a desfiliação.

Onde o espaço barganhado é ocupado por homens, os argumentos do centrão mudam e não buscam desmerecer o trabalho: “são petistas” e por isso é uma substituição menos dolorosa, como o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e os presidentes da Embratur, Marcelo Freixo, e dos Correios, Fabiano Silva; ou “é alguém da cota de Lula”, como o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB).

Nas pastas que abrigam programas-chave do governo como Saúde (Mais Médicos) e Desenvolvimento Social (Bolsa Família), Lula pôs fim a qualquer esperança do centrão. Disse que Nísia fica até quando “eu quiser”; e que o Ministério do Desenvolvimento Social “é meu”.

A defesa deste último ministério foi feita nesta semana, em entrevista à Record TV, na qual Lula distribuiu recados: “não é o partido que quer vir para o governo que pede ministério, é o governo que oferece ministério”. Mais enfático, o presidente criticou os jornalistas, dizendo que por conta do recesso do Congresso, a imprensa coloca a “imaginação fértil para funcionar” e “todo dia cai alguém”.

Lula arrematou a entrevista dizendo que “[a mudança nos ministérios] só vai acontecer quando eu quiser. O conselho que dou é o seguinte: fique de olho no que vou fazer e só vou fazer depois de julho, quando o Congresso voltar a funcionar”. Ainda há jogo pela frente.

Foi mais na raça do que na técnica, mas o governo conseguiu suportar as caneladas e a pressão do centrão para chegar ao final do primeiro tempo de 2023 com alguma vantagem. Com o jogo paralisado, Lula botou a bola debaixo do braço e embarcará neste fim de semana para Bruxelas. O time seguirá com Nísia e Wellington Dias como titulares. Já as mudanças para o segundo tempo de 2023, só saberemos na volta do intervalo.

Bom fim de semana!

Este texto foi publicado originalmente na newsletter semanal Peneira Política, assinada por Guilherme Mazieiro. Assine aqui e receba os próximos conteúdos.

Fonte: Guilherme Mazieiro Guilherme Mazieiro é repórter e cobre política em Brasília (DF). Já trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, EPTV/Globo Campinas, UOL e The Intercept Brasil. Formado em jornalismo na Puc-Campinas, com especialização em Gestão Pública e Governo na Unicamp. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra. 
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