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Guerra e autoritarismo minam liberdade de imprensa no mundo

30 abr 2026 - 05h51
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Com três em cada quatro países classificados como "problemáticos" ou em situação pior, panorama global é sombrio para o jornalismo independente - com poucos países contrariando essa tendência.A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e de forma independente está sob ameaça em todo o mundo, segundo o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, divulgado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Em mais da metade dos 180 países monitorados pela RSF, cenário da liberdade de imprensa é "difícil" ou "muito grave"
Em mais da metade dos 180 países monitorados pela RSF, cenário da liberdade de imprensa é "difícil" ou "muito grave"
Foto: DW / Deutsche Welle

A ONG, que monitora anualmente a situação do jornalismo global desde 2002, define liberdade de imprensa como "a capacidade de jornalistas, como indivíduos ou coletivamente, de selecionar, produzir e disseminar notícias para o interesse público, de forma independente de interferências políticas, econômicas, legais e sociais, e na ausência de ameaças à sua segurança física e mental".

Atualmente, a RSF classifica o ambiente da liberdade de imprensa como "problemático" ou em situação pior em cerca de 75% dos países. Em mais da metade deles, as condições para o trabalho da mídia vão de "difíceis" a "muito graves", segundo a organização.

Em 2013, menos de um terço dos países era classificado como tendo condições "difíceis" ou "muito difíceis", enquanto 71% figuravam como "problemáticos" ou em situação pior.

O Brasil ficou entre os países que mostraram sinais de melhora ou relativa estabilidade, passando da 63ª posição em 2025 para o 52º lugar no ranking deste ano, embora ainda seja classificado como "problemático".

Apesar da tendência global de queda, a situação da liberdade de imprensa varia conforme a região. Em geral, os países mais livres, incluindo os quatro primeiros colocados do ranking - Noruega, Estônia, Holanda e Dinamarca -, estão na Europa, enquanto jornalistas em partes da África e da Ásia enfrentam condições mais duras.

As discrepâncias dentro de uma mesma região também podem ser marcantes. Na Europa, por exemplo, há uma divisão clara entre o sul e o leste, onde os desafios à liberdade de imprensa são maiores, e o norte e o oeste, cujos países, em geral, aparecem classificados como de situação "satisfatória" a "boa". De forma semelhante, jornalistas do norte da África tendem a ser menos livres do que colegas do sul do continente.

Polônia e Eslováquia seguem caminhos distintos

Outro exemplo de divisão regional pode ser encontrado no coração da Europa: a imprensa na Polônia tornou-se mais livre, enquanto na vizinha Eslováquia cresceu a hostilidade contra os meios de comunicação. Ambos os países ainda são classificados como de situação "satisfatória", mas caminham em direções claramente opostas.

De acordo com a RSF, o ponto de virada na Polônia foi a mudança de governo. Após o partido Lei e Justiça (PiS), contrário ao aborto e aos direitos LGBTQ+ e defensor de políticas antimigração, ter sido afastado do poder no fim de 2023, o novo governo reduziu ataques verbais e ações judiciais contra a imprensa.

Uma eleição naquele mesmo ano também marcou uma guinada na Eslováquia. Depois de anos na oposição, Robert Fico iniciou, em 2023, seu quarto mandato como primeiro-ministro. "Ele tem uma longa carreira, e sempre foi parte de sua narrativa tratar jornalistas como inimigos", afirmou Lukas Diko, editor-chefe do Investigative Center of Jan Kuciak (ICJK), organização jornalística independente que leva o nome de um repórter assassinado durante o terceiro mandato de Fico.

Kuciak investigava ligações entre grupos do crime organizado e empresas na Eslováquia conectadas a integrantes do partido governista de Fico. Embora o assassinato do jornalista tenha desencadeado uma onda de protestos anticorrupção que contribuíram para a queda do governo em 2018, Diko afirmou que os ataques à imprensa se intensificaram desde o retorno de Fico ao poder. "Não há regras", disse.

Segundo Diko, o medo causado pelo assassinato do jovem jornalista, somado à retórica hostil de autoridades, afastou pessoas da carreira jornalística. "Não são muitos os jovens que querem se tornar jornalistas hoje", afirmou. "O assassinato de Kuciak ainda é algo que diz a eles para não fazer isso - e eles tampouco querem ser atacados verbalmente todo dia."

Ataques à imprensa como estratégia política

A Argentina é outro país que caiu vertiginosamente no ranking. Campanhas de difamação contra a imprensa promovidas pelo presidente Javier Milei, cujas políticas de ultradireita priorizam as liberdades financeiras acima de outras, criaram um clima hostil para jornalistas. Ele frequentemente usa as redes sociais para atacar críticos e afirma que jornalistas "não são odiados o suficiente".

"Quando Milei insulta um jornalista, ele não faz isso como Milei, o economista, ou Milei, um cidadão comum", disse Fernando Stanich, presidente do Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea), uma organização que defende a liberdade de imprensa e promove o jornalismo de qualidade na Argentina. "Ele faz isso como o principal representante do Estado argentino."

Segundo Stanich, governos argentinos anteriores também foram hostis à imprensa - a peronista Cristina Kirchner, por exemplo, entrou em confronto com a mídia durante sua presidência, entre 2007 e 2015. Mas, de acordo com monitoramentos do Fopea, o atual nível de ataques verbais contra jornalistas é inédito.

Assim como Milei, na Argentina, e Fico, na Eslováquia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insulta e ameaça a imprensa desde sua primeira campanha eleitoral, em 2016. Coincidentemente, os EUA também registraram uma queda significativa em sua posição no ranking mundial de liberdade de imprensa, ao lado de outros países cujos líderes seguem a mesma cartilha, como El Salvador.

Argentina, Eslováquia e Estados Unidos mostram como países considerados relativamente estáveis e democráticos podem se tornar rapidamente hostis aos jornalistas. Já em Eritreia, China, Coreia do Norte e Irã, a imprensa nunca foi livre, uma vez que esses países são governados há décadas por regimes autoritários que silenciam o jornalismo independente.

O relatório da RSF aponta conflitos armados como a "razão primária para o declínio da liberdade de expressão", por exemplo no Iraque, Sudão, Sudão do Sul e Iêmen. Na guerra em Gaza, a entidade contabiliza mais de 220 jornalistas mortos por ataques israelenses, dos quais ao menos 70 em serviço, desde que Israel foi alvo de ataques terroristas liderados pelo Hamas em outubro de 2023.

Construindo redes para enfrentar ameaças

Vera Slavtcheva-Petkova, professora do Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, afirma que as ameaças sociais à liberdade de imprensa se enquadram em três grandes categorias. O uso de estruturas políticas para intimidar ou prejudicar jornalistas - incluindo ataques verbais de autoridades públicas, ameaças de violência e prisão - é o indicador mais evidente de declínio da liberdade de imprensa.

Os outros métodos para reprimir a imprensa passam pela perseguição de jornalistas por gênero, raça ou orientação sexual, e pressões econômicas sobre um mercado de trabalho precarizado na mídia.

Segundo Slavtcheva-Petkova, jornalistas podem enfrentar esses desafios ao se unir e ao colaborar com organizações que compartilham seus valores, como ativistas de direitos humanos e acadêmicos.

"Saber que existe alguém em quem você pode confiar para obter apoio é muito importante", disse. "Quando jornalistas não têm isso, quando não sabem a quem recorrer por ajuda, acabam sentindo que aquilo que estão vivendo pode até ser culpa deles."

Com a maioria dos jornalistas no mundo trabalhando hoje em condições que são, no mínimo, problemáticas, como demonstra o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, essas redes tendem a se tornar ainda mais importantes nos próximos anos, tanto dentro dos países quanto internacionalmente.

No geral, 17 países melhoraram seus índices de liberdade de imprensa entre 2013 e 2026, enquanto 163 apresentaram piora.

A África do Sul é um exemplo de país em que essas estratégias parecem estar funcionando. No ranking da RSF, o país se destaca em relação aos vizinhos regionais. Desde 2013, mantém a classificação "satisfatória", o que resultou em uma subida constante no ranking à medida que outras nações perderam posições.

Glenda Daniels, jornalista e professora de estudos de mídia na Universidade de Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, afirma que uma sociedade civil forte ajudou a África do Sul a manter esse status, mesmo com o declínio global da liberdade de imprensa. Apesar de desafios comuns a jornalistas em todo o mundo - incluindo preconceitos e ameaças contra mulheres na mídia e um mercado de trabalho em retração -, Daniels diz que redes sólidas ajudaram a preservar a liberdade de imprensa no país.

Ela própria atua como secretária-geral do South African National Editors' Forum (Sanef), entidade que defende o direito de jornalistas exercerem sua profissão. "O Sanef é barulhento e faz ruído", afirmou. "Faz diferença ter uma abordagem forte da sociedade civil, com advocacy e ativismo."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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