Formação de profissionais dentro de territórios rurais, quilombolas e ribeirinhos pode mudar o futuro da saúde brasileira
Pela primeira vez no país, programas de formação de profissionais de saúde com ênfase nas populações do campo, da floresta e das águas se expandem e garantem a construção de um modelo de SUS junto aos territórios, seus povos, modos de vida e saberes
Historicamente centrado no modelo urbano e eurocêntrico, o SUS falha em atender plenamente populações rurais, quilombolas e ribeirinhas. Para mudar esse cenário, residências em saúde do campo vêm crescendo desde 2023, capacitando profissionais imersos nessas realidades locais. Apesar dos desafios de financiamento e sustentabilidade, a formação integrada aos territórios humaniza o cuidado, valoriza saberes tradicionais e aponta para um novo modelo descentralizado de saúde pública no Brasil.
Será que é realmente possível formar profissionais comprometidos com a saúde dos povos que sustentam este país? Povos quilombolas, camponeses, indígenas, ribeirinhos, assentados e tantos outros têm apontado o quanto o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é urbanocentrado e se sustenta a partir de bases técnicas, organizacionais e epistemológicas predominantemente eurocêntricas e voltada aos grandes centros urbanos. E, assim como ocorre no cuidado em saúde, a formação dos profissionais também segue, em grande medida, uma lógica europeia e urbana para um país que é predominante rural.
No livro Saúde, trabalho e subjetividade na atenção básica em saúde, da Universidade Federal de Pernambuco, os colegas Darlindo Ferreira de Lima, José Marcos da Silva e eu analisamos alguns desses desafios através falas de trabalhadores do SUS que estavam inseridos nessas realidades durante a Pandemia de COVID-19.
Elas apontam que, em diversos cenários, o modelo de atendimento, de acompanhamento, e de relação entre famílias e trabalhadores SUS, assim como a formação dos profissionais não considera as realidades desses territórios: "como a gente faz visita domiciliar em um raio de mais de 70 km com apenas um transporte para duas equipes de saúde?"; "perdi o atendimento porque a maré estava muito baixa para atravessar o rio"; "nesse território só tem casos de violência contra a mulher e uso abusivo de álcool, não dá para trabalhar aqui"; "a gente não tem dinheiro para o transporte e são 20 km até chegar à Unidade Básica de Saúde"; "os pontos de apoio não têm energia nem água. Como garantir um cuidado digno e humanizado desse jeito?"
Mas esse aparente descompasso pode se equilibrar com a formação de profissionais especializados em saúde do campo, da floresta e das águas. As primeiras experiências dessa formação, realizadas no interior de Pernambuco a partir de 2015, através de uma parceria entre a Universidade de Pernambuco (UPE) e os movimentos sociais populares, mostram a potência dessa perspectiva: os profissionais formados nesses programas se tornam especialistas em gente, em pisar no chão e compreender todos os desafios produzidos pela ausência do Estado por esses territórios e têm construído, ao longo dos anos, experiências e estratégias potentes de novos jeitos de fazer saúde.
Eles transformam a conversa entre trabalhadores e usuários em práticas de cuidado que acolhem, fortalecem vínculos e salvam vidas coletivamente, a partir de uma perspectiva multiprofissional, dialógica e popular. Constroem laços de confiança e produzem pertencimento junto ao povo, mobilizando lideranças comunitárias e reconhecendo a potência da organização coletiva nos territórios.
São profissionais que "dão um jeito", que fazem o SUS acontecer onde ele precisa chegar, enfrentando barreiras e construindo possibilidades. Fazem isso com inventividade, coragem e compromisso, articulando Secretaria de Saúde, associações de moradores, escolas, CRAS e outros atores do território para transformar necessidades em respostas concretas de cuidado.
Esses profissionais egressos nos mostram o quanto precisamos pensar e construir um novo modelo de SUS para esses povos. Hoje, mais do que nunca, é necessário refundar nossas bases pedagógicas e formar profissionais de saúde a partir dessas tantas realidades. É preciso pisar no chão de barro, no rio e na lama do mangue para compreender, vivenciar e construir um novo modo de ser especialista em saúde da família e comunidade.
Saúde coletiva e Retomada das Políticas de Equidade no SUS
A partir da retomada de um governo popular em 2023, esses mesmos especialistas em saúde do campo — formados pelos primeiros programas de residências do país com essa ênfase, no interior de Pernambuco — começam a incidir sobre as políticas públicas federais de saúde.
Surgem, a partir de processos de indução do Ministério da Saúde junto a movimentos sociais populares, diversas experiências de programas de Residência em Saúde da Família, Saúde Coletiva e Medicina de Família e Comunidade (MFC), com ênfases nas populações do campo, da floresta e das águas e em outras populações, em todas as regiões do país.
Até 2023, existiam no país apenas dois programas com ênfase na saúde das populações do campo, um em Pernambuco, coordenado pela Universidade de Pernambuco, e outro coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz, em Brasília.
Entre 2024 e 2026, esse número cresceu para mais de 14 programas multiprofissionais com ênfase na saúde das populações do campo, das florestas, das águas, saúde indígena e saúde da população negra e quilombola; somados aos programas de Medicina de Família e Comunidade (MFC) que criaram o ano adicional de residência (R3) com essas mesmas ênfases. Inauguram-se, nesse mesmo bojo, novos programas em várias regiões do país voltados à saúde indígena, à saúde da população negra, quilombola e de outras populações tradicionais.
Mas expandir tais programas é realmente responder a tais necessidades? O ineditismo dessas experiências, a potência de suas propostas político-pedagógicas, as relações construídas junto aos movimentos sociais populares e os desafios para sua consolidação e sustentabilidade constituem engrenagens complexas que também precisam de manutenção.
Esses programas, que foram criados a partir de 2024, precisam ser fortalecidos por meio da criação de redes colaborativas e interinstitucionais, de apostas pedagógicas construídas junto aos movimentos sociais populares, de articulações políticas e de compromisso ético com o movimento construído até aqui.
Alguns debates e reflexões precisam ser feitos: qual é o perfil profissional que estamos construindo? Como se dará a absorção desses egressos no mundo do trabalho? Como qualificar preceptores e o corpo docente das Instituições de Ensino Superior? E, sobretudo, como garantir financiamento suficiente para assegurar condições de logística, sustentabilidade e valorização pedagógica dessas experiências?
É necessário reconhecermos a potência desse processo e, ao mesmo tempo, compreendê-lo como um fato político-histórico no movimento de expansão e conformação de modelos formativos capazes de responder às necessidades das múltiplas diversidades pedagógicas, territoriais, culturais e sociais que atravessam o cuidado com os povos do campo, da floresta e das águas e com outras populações e grupos historicamente invisibilizados pelo estado brasileiro.
Talvez esteja justamente aí uma das possibilidades de mudar o futuro da saúde brasileira: formar não apenas profissionais para chegar aos territórios, mas profissionais que aprendam e construam um modelo de SUS com os territórios, com seus povos, seus modos de vida, seus saberes e suas formas de produzir cuidado.
Há lugares em que o SUS não pode simplesmente chegar pronto. Ele precisa ser construído junto. Na estrada de barro, no rio, na floresta, no distrito rural, no quilombo, na aldeia, na comunidade. Com os pés no chão e com gente que saiba, antes de tudo, ser especialista em gente.
Alexsandro de Melo Laurindo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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