Feito para eliminar o erro humano na arbitragem, o VAR continua criando confusão. Por quê?
A polêmica em torno do sistema de arbitragem de alta tecnologia da Copa do Mundo mostra que o esporte ainda é mais uma arte do que uma ciência
Alguns dos maiores nomes do futebol mundial entrarão em campo hoje e amanhã para as semifinais da Copa do Mundo. Mas, para muitos torcedores, nos jogos das quartas-de-final, semana psssada, as atuações heroicas de jogadores como Lionel Messi, Kylian Mbappé e Erling Haaland foram ofuscadas pelas ações de um personagem surpreendente: o árbitro.
Duas decisões polêmicas mancharam a vitória da Inglaterra por 2 a 1 sobre a Noruega: uma que anulou um gol norueguês devido a uma falta anterior, e outra que validou um gol inglês apesar de uma aparente colisão entre a bola e um cabo aéreo. Da mesma forma, a vitória da Argentina sobre a Suíça não pareceu mais estar em dúvida depois que o árbitro mostrou um segundo cartão amarelo que encerrou a partida para o atacante suíço Breel Embolo.
No centro dessas três decisões polêmicas estavam tecnologias criadas justamente para eliminar decisões polêmicas. A Fifa citou o dispositivo "snicko", que detecta contato e está acoplado à bola, como motivo para validar o gol da Inglaterra, e as outras duas decisões se basearam no pouco apreciado Árbitro Assistente de Vídeo (VAR), um painel de árbitros fora de campo capaz de assistir a replays e aconselhar o árbitro em campo.
Essas foram apenas as mais recentes de uma série de controversas decisões do VAR nesta Copa do Mundo. Então, por que um sistema de alta tecnologia projetado para reduzir injustiças e erros na arbitragem acabou gerando ainda mais das mesmas controvérsias que deveria ter eliminado?
Fatos são importantes, mas julgamento também
O futebol é um esporte dinâmico e complexo, cujas regras foram desenvolvidas ao longo de mais de 160 anos.
A tecnologia pode ajudar os árbitros a resolver algumas questões factuais, como se a bola cruzou a linha do gol ou qual jogador tocou na bola por último antes de ela sair de jogo.
Mas muitas decisões envolvendo faltas, pênaltis e toques de mão se resumem a questões de julgamento e de como aplicar as regras. Muitas vezes, mesmo os especialistas mais bem informados discordam sobre qual é a decisão correta.
Algumas controvérsias dizem respeito a margens de milímetros reveladas pelos replays; outras em que até o VAR pareceu não ter percebido uma falta clara; e outras em que uma decisão tecnicamente correta parece, mesmo assim, injusta.
O VAR pode reproduzir evidências para reavaliar decisões e revisá-las. Em teoria, isso deveria ajudar a reduzir os erros.
Mas apesar de as revisões agora contarem com mais evidências para se basear, o processo real de tomada de decisão é considerado por muitos como altamente inconsistente.
Em parte, isso se deve ao fato de que o árbitro em campo tem discricionariedade sobre o grau de rigor na aplicação de certas regras, como, por exemplo, até que ponto o contato entre jogadores pode ser considerado uma falta. De acordo com Pierluigi Collina, chefe de árbitros da Fifa, o VAR precisa se ajustar à forma como a partida está sendo apitada. Se o árbitro permitir contato forte em campo, o VAR deve se ajustar de acordo, e encontrar o equilíbrio ideal para garantir a consistência é um desafio.
As questões centrais permanecem
É improvável que mais tecnologia e mais intervenção resolvam algumas das questões centrais.
Uma partida disputada em fevereiro entre a Juventus e o Inter de Milão, na Série A italiana, ilustra o problema. Um jogador da Juventus teve um contato mínimo com um jogador do Inter, que exagerou o contato e caiu.
O árbitro mostrou um cartão amarelo — aplicado por falta grave — ao jogador da Juventus. Era o segundo cartão amarelo do jogador, o que significava que ele seria expulso de campo pelo restante da partida.
Uma oportunidade perfeita para uma revisão do VAR esclarecer a situação, você poderia pensar. No entanto, as regras do VAR impediam que ele fosse usado para intervir em situações de segundo cartão amarelo.
Quando a regra foi alterada posteriormente, nem todos ficaram satisfeitos - incluindo o chefe dos árbitros da liga italiana, Gianluca Rocchi, que alertou contra o "maior uso da tecnologia". Ao mesmo tempo, ele disse que tais incidentes não ocorriam quando "os jogadores se concentravam em jogar futebol e, portanto, facilitavam a vida do árbitro".
Mais tecnologia, mais exigências
Mesmo quando o sistema funciona, ele pode não aumentar a confiança dos torcedores no sistema.
Em uma partida da Copa do Mundo em junho entre Catar e Suíça, uma decisão crucial sobre um pênalti pareceu depender de uma marcação de impedimento, que é exatamente o tipo de situação para a qual o VAR foi criado.
Normalmente, após uma revisão do VAR, é exibido um infográfico detalhando o resultado - mas, nesse caso, nada foi mostrado e o pênalti foi marcado.
Torcedores e comentaristas ficaram insatisfeitos com a falta de informação, afirmando que isso gerou desconfiança na tecnologia. Posteriormente, a Fifa afirmou que a análise do VAR foi realizada com sucesso, mas que um problema técnico impediu que o infográfico fosse exibido.
Portanto, mesmo quando a justiça é feita, ela também precisa ser vista como tal. Quanto mais avançada a tecnologia se torna, mais a margem de erro diminui e mais o público exige transparência - e, ao mesmo tempo, as oportunidades de falha só tendem a aumentar.
Mesmo quando a tecnologia funciona, ela pode transformar o futebol em um jogo de milímetros, em casos em que a posição dos dedos dos pés de um jogador pode determinar uma marcação de impedimento capaz de mudar o rumo da partida.
Esse método pode parecer factual e objetivo, mas corre o risco de eliminar justamente a emoção que atrai os torcedores ao jogo. Além disso, pressupõe que as medições sejam perfeitamente precisas e exatas, sem erros.
Problemas muito além do campo
O sistema VAR também enfrentou problemas fora de campo. Um árbitro do VAR foi flagrado acessando sites de apostas durante o trabalho em uma partida. Outro foi suspenso por manipulação de resultados. Um administrador da arbitragem está sendo investigado por influenciar indevidamente as análises do VAR.
E, em um patamar muito acima do campo, a própria Fifa foi criticada por suspender a punição imposta a um jogador norte-americano sem uma explicação clara e após uma intervenção do presidente dos EUA, Donald Trump. Isso pode ter aberto as portas para uma interferência política mais ampla, e já vimos outros países solicitarem tratamento semelhante.
Talvez fosse inútil esperar que um sistema tecnológico pudesse pôr fim a disputas fundamentalmente humanas em torno de um esporte que sempre foi mais arte do que ciência.
Enquanto isso, milhões de dólares foram investidos na tecnologia e nas operações do VAR. Agora, isso significa que os erros vêm acompanhados de uma conta altíssima, o que os torna menos aceitáveis. E esse mesmo investimento significa que é muito provável que o VAR tenha vindo para ficar - gostemos ou não.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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