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Expansão nuclear na África ganha impulso, mas também enfrenta obstáculos

29 mar 2026 - 14h20
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Países africanos vêm apostando em projetos de energia nuclear para ampliar oferta de energia e reduzir emissões, mas enfrentam desafios técnicos, financeiros, ambientais e de segurança.Provavelmente, nenhuma forma de tecnologia despertou tanto medo e entusiasmo quanto a energia nuclear.

Nos anos 1950, o uso pacífico da fissão nuclear floresceu, mas acidentes significativos em Three Mile Island (EUA, 1979), Chernobyl (União Soviética, 1986) e Fukushima (Japão, 2011) acabaram reduzindo o apoio à energia atômica.

No entanto, mais recentemente, a energia nuclear tem sido promovida como uma alternativa de baixo carbono aos combustíveis fósseis.

A África atualmente tem apenas uma usina nuclear, em Koeberg, perto da Cidade do Cabo, na África do Sul. Mas isso pode mudar em breve.

Ambições nucleares africanas

Em 2025, o jornalista sul-africano Tristen Taylor conduziu um estudo aprofundado sobre as ambições nucleares dos países africanos.

Seu relatório foi publicado pelo escritório na Cidade do Cabo da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde da Alemanha.

"Para todos os fornecedores e, em particular, para Coreia do Sul, China e Rússia, a África é um continente promissor ", disse Taylor à DW.

"É aqui que eles terão um possível mercado de crescimento. A questão é se os países africanos conseguirão se organizar para licitar, firmar contratos e ter os mecanismos financeiros em vigor", disse ele, acrescentando que a Agência Internacional de Energia Atômica ajuda os países nos preparativos necessários.

Segundo o relatório de Taylor, o Egito tem as melhores perspectivas de colocar um reator nuclear em operação. A corporação estatal russa de energia atômica, Rosatom, começou a construir uma usina em el Dabaa, na costa norte do Egito, em 2022.

As ambições atômicas de nações do Sahel como Níger, Mali e Burkina Faso permanecem irreais, disse Taylor, apesar de esses países terem assinado acordos com a Rosatom.

"Quando assinam um acordo nuclear com a Rússia, basicamente estão dizendo que a Rússia lhes dá apoio político", disse Taylor à DW, observando que os países "estão sempre assinando acordos nucleares".

"Eles realmente não significam muito isoladamente. Se houver, digamos, um longo período de acordos nucleares com alguma ação concreta, então é possível começar a dizer 'Ok, talvez algo esteja avançando'."

África do Sul: novos planos

A única usina nuclear da África fica perto da Cidade do Cabo. Os dois reatores de Koeberg entraram em operação em meados da década de 1980 com apoio de um consórcio francês durante o regime do Apartheid. Eles têm capacidade de pouco menos de 2.000 megawatts (MW) e produzem cerca de 4% da eletricidade consumida na África do Sul.

Em 2025, a licença de operação de Koeberg foi estendida por mais 20 anos, apesar das preocupações de ambientalistas sobre o Koeberg-2.

Francesca de Gasparis, do Instituto Ambiental das Comunidades Religiosas da África Austral (SAFCEI), disse que havia dúvidas sobre os padrões de segurança e a manutenção pela operadora Eskom, a controversa empresa estatal de energia da África do Sul.

"Quando olhamos para as melhores práticas de outros países, onde eles realmente levam a sério os riscos das usinas de energia nuclear, há a exigência de primeiro realizar os testes de manutenção necessários, garantir que os equipamentos de monitoramento estejam atualizados e assegurar que existam melhorias internacionais baseadas no que aprendemos com Fukushima e outros desastres", disse de Gasparis.

"Tudo isso deveria ter acontecido antes, para que o risco, o ônus, fosse colocado sobre o próprio produtor de energia", disse ela à DW.

Críticos dizem que isso não ocorreu em Koeberg. Enquanto isso, a Eskom está se preparando para construir uma instalação maior, de 4.000 MW, em Duynefontein, nas proximidades. De Gasparis criticou a falta de transparência e o uso do que ela classificou como dados desatualizados.

A Eskom não respondeu à DW sobre a segurança do reator até a publicação deste artigo.

Gana: risco duplo

Na África Ocidental, Gana tem buscado fornecedores da França, China, Coreia do Sul, Rússia ou Estados Unidos para desenvolver seus planos de energia nuclear. Alguns relatórios sugerem que a construção pode começar em 2027, mas detalhes sobre contratos não foram divulgados.

Paralelamente a uma usina convencional, Gana está explorando o uso de Pequenos Reatores Modulares (SMRs), que são significativamente menores, mais fáceis de operar e têm menos riscos de segurança.

Até agora, cada um dos mais de 650 reatores convencionais construídos no mundo é único e apresenta seus próprios riscos específicos.

Portanto, o preço por quilowatt-hora da energia nuclear é significativamente maior do que o de fontes renováveis — eólica, solar e hidrelétrica — que se tornaram muito acessíveis, segundo dados europeus. Os SMRs poderiam reduzir essa diferença por meio da produção em massa. Mas, até o momento, há apenas protótipos.

Quênia: cronograma ambicioso para energia nuclear

O presidente do Quênia, William Ruto, anunciou no fim de março que a construção de uma usina nuclear de 2.000 MW começaria em Siaya, às margens do Lago Vitória, perto da fronteira com Uganda. O projeto deve começar a produzir energia em 2034, embora atrasos e estouros de orçamento sejam comuns no setor.

Segundo o pesquisador Tristen Taylor, há desafios no caminho: no início de 2025, o gabinete do Quênia dissolveu a autoridade nuclear nacional, NuPEA, como parte de medidas mais amplas de austeridade. Mas essa decisão ainda não entrou em vigor porque nunca foi ratificada pelo Parlamento.

"Precisamos de um estudo abrangente para mostrar quais efeitos a usina nuclear teria sobre as comunidades pesqueiras que dependem do Lago Vitória, porque a pesca é sua principal fonte de renda", disse a ambientalista queniana Phyllis Omido à DW.

Ela afirmou temer os riscos à população do transporte de combustível nuclear pelo país.

Omido, que recebeu o Prêmio Right Livelihood em 2023, e o Centro de Justiça, Governança e Ação Ambiental (CJGEA), que ela cofundou, lutam há anos contra tentativas de construir uma usina nuclear perto da área costeira de Kilifi.

Temores sobre resíduos atômicos

Descobrir o que fazer com resíduos nucleares radioativos, que permanecem perigosos por milênios, ainda é uma grande preocupação para todos os países que utilizam energia nuclear.

"Somos contra qualquer coisa nuclear, a menos que nos deem uma solução concreta sobre como esses resíduos serão manejados", disse Omido à DW. "Enterrá-los em comunidades não é solução."

A África do Sul armazena seus resíduos nucleares em Vaalputs, uma região pouco povoada na província do Cabo Setentrional. Mas isso se aplica apenas a resíduos de baixo a médio nível de contaminação. O combustível nuclear altamente radioativo ainda é armazenado em Koeberg.

O governo planeja ter um repositório final em operação até 2065, uma meta sobre a qual ativistas são céticos.

"Não acho que exista uma solução fácil para resíduos de alto nível", disse de Gasparis, do SAFCEI, "e é exatamente por isso que não achamos que deveríamos planejar produzir muito mais e criar um problema ainda maior no futuro."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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