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EUA impõem nova tarifa de 25% a produtos do Brasil por "práticas desleais"

16 jul 2026 - 06h52
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Washington confirma sanção após investigação apontar "práticas desleais" em Pix, etanol, propriedade intelectual e desmatamento. Governo Lula ameaça com retaliação.O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) confirmou na noite desta quarta-feira (15/07) que o país irá taxar produtos brasileiros em até 25% como punição ao que considera "práticas comerciais desleais" do Brasil.

Representante comercial americano diz que segue aberto para negociações, mas que não houve acordo com governo brasileiro
Representante comercial americano diz que segue aberto para negociações, mas que não houve acordo com governo brasileiro
Foto: DW / Deutsche Welle

A medida, que entra em vigor em 22 de julho, encerra uma investigação aberta há um ano sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, criada para responder a medidas econômicas "irrazoáveis ou discriminatórias" de governos estrangeiros que restrinjam o comércio americano.

No comunicado, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, acusa o Brasil de "punir empresas de tecnologia dos Estados Unidos por se recusarem a censurar discursos políticos, retroceder na aplicação de medidas anticorrupção e permitir que agricultores brasileiros explorem áreas ilegalmente desmatadas para obter vantagem sobre agricultores americanos".

A investigação também avança sobre "atos onerosos" relacionados ao serviço de pagamentos eletrônicos Pix, tarifas preferenciais, regras de propriedade intelectual aplicadas pelo governo brasileiro e o acesso ao mercado de etanol.

A imposição das tarifas já havia sido proposta pelo USTR no começo de junho, dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro ao presidente americano Donald Trump, e agora recebeu o aval da Casa Branca.

O escritório americano diz ter ouvido 360 contribuições e 77 testemunhas em audiências públicas e afirma que "extensas negociações com o Brasil ao longo do último ano" não resolveram as questões levantadas por Washington.

A taxa vale para todos os produtos brasileiros, com exceção de 2.100 itens isentos devido à importância para a economia americana. Entre eles estão carne bovina, café, diversas frutas e verduras, laticínios, instrumentos médicos, plásticos e borracha, além de minerais e metais como carvão, cobalto, níquel e alumínio.

Desde o início de junho, produtos como café solúvel, mel, alguns medicamentos e derivados de ferro e aço também entraram na lista de isenções. Com isso, esses itens seguem submetidos apenas às tarifas já existentes.

Já entre os principais itens taxados estão etanol, produtos industriais processados e bens de capital.

Agora, alguns produtos brasileiros agora sofrem acúmulo tarifário. Ao menos um quarto deles já estava submetido ao tarifaço global de 10% imposto por Trump, enquanto outros enfrentam taxas específicas para os setores de aço e alumínio que chegam a 29%.

Pix e etanol no centro da discussão

Os EUA afirmaram que tais medidas brasileiras afetam de forma discriminatória empresas americanas ao criar concorrência desleal. Os principais pontos em disputa são o acesso ao mercado de etanol e o modelo de pagamentos Pix.

O órgão afirmou que o Brasil "interrompeu o tratamento tarifário equilibrado anteriormente aplicado ao etanol dos EUA" e abandou a reciprocidade às tarifas preferenciais concedidas pelos americanos ao etanol brasileiro. Também afirma que Brasília privilegia México e Índia em acordos bilaterais.

Já as críticas ao Pix se concentram no fato de o sistema ser gratuito e administrado pelo Banco Central. "O papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas", escreveu o USTR.

Para o escritório, decisões do STF sobre remoção de conteúdos nas redes sociais, suspensão de contas de residentes nos EUA e multas a empresas que não cumprem essas ordens também seriam prejudiciais.

No campo da pirataria, Washington acusou o país de negar proteções adequadas e efetivas à propriedade intelectual. Disse ainda que o desmatamento no Brasil dificulta que a indústria madeireira americana concorra de forma justa nos mercados globais.

Governo brasileiro ameaça retaliar

O USTR afirmou estar aberto a continuar negociando com o governo brasileiro e retirar as sanções caso o Brasil abandone as práticas apontadas, algo que o Planalto vem recusando desde julho do ano passado.

Nas redes sociais, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de negociar em má-fé. "Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ao longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso", escreveu.

Em nota publicada nesta quarta-feira, o Planalto repudiou as afirmações, disse que a balança comercial é favorável aos EUA e que não reconhece a legitimidade das investigações.

Sobre o Pix, a regulação de plataformas digitais e o desmatamento, o governo afirmou ter apresentado evidências para refutar as alegações. "Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço."

"O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC", disse o governo brasileiro.

Sancionada por Lula em abril, a Lei da Reciprocidade Comercial autoriza o governo a adotar medidas retaliatórias contra países e blocos que imponham barreiras unilaterais aos produtos brasileiros no mercado global.

À TV Globo, uma autoridade do órgão americano afirmou que o escritório não espera que haja retaliação, mas que está pronto para contrapor eventuais medidas do governo brasileiro.

Um ano de tarifas de Trump

A investigação comercial contra o Brasil foi aberta em 15 de julho de 2025, por ordem de Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

À época, a pressão de Trump contra autoridades e produtos brasileiros atingia seu auge, inflada por sua solidariedade ao ex-presidente Jair Bolsonaro, então réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes contra a democracia.

Três semanas depois, Washington impôs paralelamente uma tarifa de 50% a produtos brasileiros. Mais tarde, aplicou sanções contra ministros do STF e membros do gabinete de Lula.

A decisão gerou disputas internas entre apoiadores de Bolsonaro e reaproximou Lula dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, que instaram o governo a defender a soberania nacional.

O vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro das Relações Exteriores foram escalados para destravar o imbróglio com os representantes comerciais americanos.

Em carta enviada em agosto a Washington, ambos defenderam o Pix e rejeitaram a ideia de que decisões judiciais brasileiras tenham imposto medidas discriminatórias.

Ao longo do segundo semestre, Trump arrefeceu sua retórica e flexibilizou barreiras tarifárias contra o Brasil, além de retirar sanções contra algumas autoridades. Em diversos encontros com Lula, elogiou o brasileiro e disse ter tido ótimas conversas sobre a questão comercial. As tarifas de 50% foram retiradas, mas a investigação comercial prosseguiu.

Em junho deste ano, porém, dias após a visita de Flávio Bolsonaro a Trump, o USTR recomendou em definitivo a taxação de produtos brasileiros em 25%.

Em meio à campanha eleitoral no Brasil, membros do governo brasileiro acusaram o senador de pressionar Trump a taxar o Brasil.

Apesar de Rubio criticar Lula diretamente, o que foi visto como sinal do peso político da decisão, representantes do USTR rejeitaram nesta quarta-feira que a decisão seja motivada por divergências com o petista.

gq/as (OTS)

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