Estudo revela como as mudanças climáticas também afetam a vegetação da Caatinga
Em um ambiente já marcado pela irregularidade das chuvas, tecnologias inovadoras são essenciais para avaliar como o bioma vai se adaptar às consequências do aquecimento global
Pesquisadores da UFC, Unesp e parceiros monitoraram a vegetação da Caatinga entre 2020 e 2024 para avaliar impactos climáticos. O estudo revelou que o Carrasco, em solos profundos, mantém folhas por mais tempo e tem dinâmica estável. Já a Caatinga Cristalina, em solos rasos, depende de chuvas imediatas e tem ciclo foliar reduzido se a estiagem se prolonga. Os dados alertam para riscos à produtividade e conservação do bioma diante do avanço das mudanças climáticas globais.
A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, um dos maiores ecossistemas secos da América do Sul e rico em biodiversidade. Apesar de ser associada à escassez de água e às longas estiagens, ela abriga inúmeros animais e plantas adaptados a um ambiente marcado pela irregularidade das chuvas. Compreender esses ciclos é essencial para avaliar como a Caatinga irá responder às mudanças climáticas que estão em curso.
Uma observação diária deste bioma por meio do monitoramento automatizado com câmeras digitais, realizada entre 2020 e 2024, deu origem ao artigo científico "Time-lapse digital cameras reveal contrasting environmental controls of leaf phenology in different Caatinga physiognomies" - em tradução livre, "Fotos digitais em time-lapse revelam controles ambientais contrastantes na fenologia foliar em diferentes fisionomias da Caatinga" - publicado em julho de 2026 no periódico International Journal of Biometeorology.
Este trabalho foi realizado por nós, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) e de outras instituições nacionais e internacionais. Juntos, acompanhamos o brotamento e a queda foliar de duas fitofisionomias (aparências de uma vegetação) do bioma.
O estudo comparou as fisionomias vegetais de duas áreas da Reserva Natural de Serra das Almas, no Ceará, separadas por apenas sete quilômetros de distância. A primeira, conhecida como Carrasco, situa-se em um planalto com altitude aproximada de 750 metros sobre solos arenosos e profundos. A segunda, a Caatinga Cristalina, está localizada em áreas de baixada, com altitude de não mais que 300 metros sobre solos argilosos rasos e pedregosos.
Para acompanhar as trocas foliares, nós utilizamos fenocâmeras (câmeras digitais programadas para fotografar repetidamente a mesma paisagem). A análise da coloração das imagens, permitiu identificar o início e o fim da produção foliar e calcular a duração da estação de crescimento. Estes dados, então, foram relacionados com a precipitação, a temperatura e o fotoperíodo.
No Carrasco, a dinâmica foliar provou ser mais estável e previsível. O carrasco apresentou respostas mais rápidas e intensas às chuvas, demonstrando maior capacidade de aproveitar a água disponível para produzir folhas. As plantas da região tendem a emitir folhas com a redução do estresse hidrotérmico, caracterizado pela combinação de altas temperaturas e ar seco, e respondem de forma secundária ao aumento da duração dos dias (fotoperíodo) no final da estação seca.
A vegetação do Carrasco permaneceu com suas árvores verdes por mais tempo, apresentando uma estação de crescimento médio de 261 dias e retendo as folhas por cerca de 20 dias a mais no final do período chuvoso em comparação com a Caatinga Cristalina. Esse comportamento pode estar relacionado à maior profundidade dos solos arenosos, que conseguem reter água em camadas inferiores por mais tempo.
A Caatinga Cristalina apresentou uma dinâmica foliar mais variável e fortemente associada à disponibilidade de água. Como os solos locais são rasos e perdem umidade com rapidez, a vegetação depende de pulsos imediatos e constantes de chuva para emergir e manter suas folhas.
Quando a estação chuvosa atrasa, a estação de crescimento da Caatinga Cristalina diminui drasticamente, reduzindo-se a apenas 180 dias e provocando a queda antecipada das folhas assim que o suprimento de água cessa. Essa diferença provavelmente está relacionada às características dos solos rasos e pedregosos, que armazenam pouca água e impõem condições ambientais mais restritivas.
Alterações na duração da estação de crescimento podem afetar a produtividade da vegetação, as trocas de carbono e água com a atmosfera e a disponibilidade de recursos para outros organismos. Os resultados fornecem um alerta crucial para a conservação da biodiversidade e o manejo da Caatinga em um cenário de mudanças climáticas globais.
O trabalho descrito neste artigo foi liderado por Antonia Mirelle Lopes Marques, orientada pelo professor Ítalo Antônio Cotta Coutinho, ambos da Universidade Federal do Ceará. Ele contou com a participação da professora Patricia Morellato, coautora do artigo, e da pesquisadora Bruna Alberton, ambas associadas ao CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima) e ao Instituto de Biociências da UNESP de Rio Claro, além da pesquisadora e do pesquisador associados ao CBioClima Desirée Marques Ramos e Kyle Graham Dexter.
Antonia Mirelle Lopes Marques recebe financiamento pela bolsa de doutorado da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP - BMD-0008-00190.01.09/24), bolsa de pesquisa do CNPq (Projeto Universal #407358/2023-4), e bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (FAPESP-NERC, #2015/50488-5; #2021/10639-5, #2022/02323-0 e #2022/07735-5).
Patrícia Morellato recebe financiamento da FAPESP (#2013/50155-0, #2015/50488-5, #2019/11835-2, #2021/0639-5, #2022/02323-0 e #2022/07735-5, CNPq, CAPES).
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