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Estudo analisa como a lealdade política a Bolsonaro afastou brasileiros da vacina contra a COVID

Eleitores que declararam só votar em Bolsonaro, rejeitando outros candidatos, mesmo os alinhados à direita, apresentaram uma taxa de vacinação de 65%. Entre aqueles dispostos a considerar outras opções dentro do campo conservador, a taxa de vacinação subia para 71%

5 mai 2026 - 10h39
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O que mais pesou na decisão de milhões de brasileiros de recusar a vacina contra a Covid-19 não foi a religião ou a falta de acesso à educação: foi a política. Mais especificamente, a lealdade ao então presidente Jair Bolsonaro.

É o que mostra a análise dos dados de mais de 2 mil brasileiros entrevistados em 2021, no auge da campanha de vacinação na pandemia. A análise foi publicada em artigo na revista Vaccine: X, sob o título "The influence of partisanship on the roots of anti-vaccine atitudes in the context of the Covid-19 pandemic" ('A influência do partidarismo político na raís das atitudes anti-vacinação no contexto da pandemia de Covid-19').

Eleitores que declararam só votar em Bolsonaro, rejeitando outros candidatos, mesmo os alinhados à direita, apresentaram uma taxa de vacinação de 65%. Entre aqueles dispostos a considerar outras opções dentro do campo conservador, a taxa de vacinação subia para 71%. Ou seja, quanto maior o grau de fidelidade ao líder político, menor foi a adesão vacinal.

Nossa pesquisa, publicada na revista científica Vaccine: X (Elsevier), foi a primeira a aplicar técnicas de machine learning (ou aprendizado de máquina, quando o computador aprende padrões por meio de dados) para investigar as raízes políticas da hesitação vacinal no Brasil. Nessa abordagem, o modelo é alimentado com dados previamente classificados (neste caso, pessoas que aceitaram ou recusaram a vacina) e aprende a reconhecer os padrões que distinguem cada grupo para aplicá-los a novos casos.

Ecossistema de crenças falsas

A partir dessa estratégia, identificamos um ecossistema interconectado de crenças falsas. Quem acreditava na eficácia do chamado "kit Covid" (conjunto de medicamentos sem comprovação científica contra o coronavírus, promovido pelo governo federal à época) também tendia a acreditar que a vacina alterava o DNA, implantava microchips ou causava doenças graves como câncer e HIV.

Esse padrão sugere que as pessoas não rejeitavam a vacina por avaliarem evidências científicas de forma independente. A indicação é de que elas formavam atitudes com base em intuição e lealdade política e, depois, buscavam argumentos para justificá-las.

O modelo também traçou um perfil sociodemográfico de quem rejeitou a vacina. Entre os grupos com maior resistência, os evangélicos se destacaram: cerca de 40% declararam recusa ou hesitação, a maior taxa entre qualquer segmento religioso analisado. Foi quase o dobro da taxa registrada entre católicos (22%) e um pouco superior à de ateus (36%) e agnósticos (34%). A faixa etária mais jovem, de 16 a 28 anos, também apresentou resistência elevada (36%). A adesão cresceu de forma consistente com a idade, chegando ao menor nível de recusa (23%) entre os maiores de 54 anos.

A relação com escolaridade e renda seguiu uma lógica semelhante, mas com uma ressalva importante. Quem tinha apenas o ensino fundamental registrou recusa de cerca de 32%, enquanto entre universitários o índice caía para 22%. Pessoas analfabetas, no entanto, apresentaram uma das menores taxas de recusa do estudo (21%), o que pode ser atribuído às visitas regulares de agentes comunitários de saúde.

Na dimensão econômica, a recusa foi mais intensa entre os de menor renda (em torno de 30% para quem ganhava até um salário mínimo), mas sem grandes variações ao longo da escala: mesmo entre os de renda mais alta, a hesitação ficou próxima de 23%. Isso reforça que fatores socioeconômicos, embora presentes, não explicam sozinhos o fenômeno.

A principal implicação do estudo é para as campanhas de vacinação: se a recusa vacinal tem raízes políticas, as estratégias de comunicação precisam levar tal questão em conta. Isso não implica no abandono da ciência como argumento, mas, sim, reconhecer que, em contextos de forte polarização, a informação sozinha não é suficiente. É preciso entender os canais por onde a desinformação circula e desenvolver abordagens que considerem o viés político como uma variável de destaque.

Metodologia universal

A metodologia que desenvolvemos foi disponibilizada publicamente, permitindo que pesquisadores de outros países apliquem técnicas similares em seus próprios contextos, já que a hesitação vacinal com motivação política não é um fenômeno exclusivo do Brasil.

Por fim, não foi possível apontar se o conservadorismo por si só seria um fator relevante caso Bolsonaro não tivesse adotado uma postura explicitamente antivacina. Também não conseguimos determinar a direção da causalidade: as pessoas se tornaram antivacina por apoiar Bolsonaro, ou passaram a apoiá-lo justamente por compartilharem dessas posições?

Responder a isso exige novas pesquisas. Mas uma coisa ficou clara: em momentos de crise sanitária, a política pode se tornar um obstáculo tão grande quanto a falta de informação - e talvez até maior.

O artigo é assinado pelos pesquisadores Sylvia Iasulaitis (Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, líder do núcleo de pesquisa Interfaces), Alan Demetrius Baria Valejo (Departamento de Computação da UFSCar e vice-líder do Interfaces) e Leonardo Ribeiro dos Santos (Departamento de Estatística da Unicamp, integrante do Interfaces).

Este artigo contou com a co-autoria de Leonardo Ribeiro dos Santos, graduado em Estatística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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