Estratégias para o diálogo entre pais e filhos em meio a era digital
O aumento documentado de casos de angústia juvenil e a manifestação de comportamentos autolesivos impulsionam a urgência em se debater quais elementos são, de fato, o suporte da saúde emocional dentro de casa
Em um período onde dispositivos eletrônicos, telas e uma ampla variedade de conteúdos digitais competem intensamente pela atenção emocional no ambiente familiar, um número significativo de pais e responsáveis busca formas de amparar seus filhos frente a sentimentos que, por vezes, permanecem sem clara expressão.
O aumento documentado de casos de angústia juvenil e a manifestação de comportamentos autolesivos impulsionam a urgência em se debater quais elementos são, de fato, o suporte da saúde emocional dentro de casa. Nesse contexto, a ênfase recai sobre a necessidade de vínculos fortes, a prática da escuta ativa e a efetiva presença afetiva.
A mentora em inteligência emocional e especialista em relacionamentos familiares, Núria Santos, oferece uma perspectiva sobre o tema. Segundo Santos, a tecnologia em si não é a fonte do problema, mas sim o que não é comunicado na relação entre pais e filhos. A especialista define o silêncio como o fator de risco predominante. Ela argumenta que, na ausência de um espaço seguro onde o jovem possa expressar a dor, a busca por qualquer tipo de escuta ocorre em outros ambientes, mesmo que estes se revelem prejudiciais.
Santos observa que uma percepção comum entre muitos pais e responsáveis é a de que precisam apresentar todas as respostas para as indagações dos filhos. No entanto, o que a maior parte dos adolescentes demanda é a oportunidade de ser ouvido sem ser submetido a julgamento. A especialista destaca que o diálogo eficaz não exige perfeição, mas sim disponibilidade. A diferença entre um jovem que se fecha e um jovem que se abre, conforme Santos, pode ser iniciada por uma conversa baseada na premissa de escuta e acolhimento.
Frente às novas incertezas emocionais que caracterizam a geração atual, a especialista defende a necessidade de que as famílias adotem um modelo de comunicação diferenciado. Este modelo deve ser pautado em maior empatia, evidenciar interesse genuíno e ser menos reativo às questões apresentadas. O foco da ação não está no controle do que é consumido pelos filhos, mas na construção de confiança que lhes permita procurar ajuda quando uma situação se apresenta adversa. A proteção verdadeira, conclui a especialista, reside no fortalecimento do vínculo, e não primariamente na vigilância.
Núria Santos apresenta três diretrizes práticas que podem favorecer a reaproximação de pais e filhos:
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Estabelecimento de Momentos de Conexão Livre de Telas: A criação de rotinas simples, como compartilhar refeições, realizar caminhadas curtas ou conversar antes do repouso noturno, contribui para a reconstrução da intimidade. O contato visual direto, segundo a especialista, é um catalisador para o retorno da confiança.
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Validação dos Sentimentos, Mesmo que Incompreendidos: Se o jovem comunica tristeza, angústia ou sobrecarga, a primeira resposta não deve ser de correção. A recomendação é a validação do estado emocional ("Eu entendo que isso está difícil para você"). A validação atua como facilitadora do diálogo, enquanto o julgamento o restringe.
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Normalização da Busca por Auxílio como Sinal de Força: É essencial transmitir aos jovens que pedir apoio é um processo natural, o que ajuda a mitigar o isolamento emocional. Famílias que promovem a normalização do pedido de ajuda fortalecem os vínculos e impactam positivamente a vida dos indivíduos.
A especialista reitera que a garantia da segurança emocional não depende da perfeição familiar. O que se exige é a presença, o interesse e a abertura ao diálogo. Nesse cenário, a escuta deixa de ser uma obrigação e se torna um ato inerente de cuidado.