"Estamos esquecidos em uma penitenciária", afirma condenada pelos atos de 8 de janeiro
Depois de cruzar a fronteira para a Argentina e ser detida, a paranaense Ana Paula de Souza afirma viver uma sensação de abandono. Ela está presa no complexo penitenciário de Ezeiza, em Buenos Aires, junto com outros quatro brasileiros, aguardando decisão sobre o pedido de extradição ao Brasil. A condenação está ligada aos ataques contra as sedes dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023.
Inicialmente, a audiência para tratar do caso seria realizada em 18 de junho pelo Tribunal Federal Criminal nº 3, mas foi adiada duas vezes e suspensa após recurso apresentado por um dos advogados dos detidos. "Estamos simplesmente abandonados, jogados às traças e ninguém se preocupa. A nossa vida não importa, a nossa família não importa, a nossa saúde não importa", afirmou à CNN.
Como foi a prisão?
A captura ocorreu após mandados emitidos pelo juiz federal Daniel Rafecas, atendendo a solicitação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). A ordem abrangia dezenas de condenados pelo 8/1 que haviam fugido para a Argentina.
Antes da prisão, Ana Paula de Souza havia pedido refúgio à Conare (Comissão Nacional para os Refugiados da Argentina). Ela acreditava que o processo a protegeria, mas acabou detida perto de sua residência. Diz suspeitar que a própria comissão tenha informado seu endereço às autoridades locais.
Segundo ela, a fuga do Brasil foi feita de ônibus, entrando na Argentina por Dionísio Cerqueira (SC), na divisa com Bernardo de Irigoyen.
Atualmente, está em uma ala compartilhada com duas outras detentas — uma acusada por tráfico e outra por sequestro seguido de morte. Afirma ter sido transferida para este espaço após uma crise de pânico. No local anterior, relata episódios de xenofobia, convivência com usuárias de drogas e até sabotagem de sua água potável.
Apesar das dificuldades, mantém a posição de que participou de uma "manifestação", negando apoio à depredação e invasão. Foi condenada a 14 anos por tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano ao patrimônio tombado e associação criminosa.
Sua advogada na Argentina, Carla Junqueira, considera a pena "equivocada" e diz que a cliente foi incluída em meio a uma multidão sem individualização das condutas.
Em relação ao governo argentino, Souza afirma: "Eu me sinto traída". Para ela, a gestão de Javier Milei age de forma incoerente, já que defende perseguidos políticos, mas mantém presos brasileiros que pediram refúgio.
O presidente argentino não se manifestou sobre o tema. Questionado em 2024, o porta-voz Manuel Adorni disse que cada pedido de asilo seria analisado individualmente pela Conare, formada por representantes de ministérios e organismos internacionais.
Souza também critica a falta de apoio de políticos brasileiros. Cita visitas esporádicas, como as de Magno Malta (PL-ES) e Damares Alves (Republicanos-DF), mas diz que o contato não teve continuidade. Afirma que todos os foragidos no país vivem com medo das ordens de extradição e que alguns já deixaram a Argentina para evitar a prisão.