"Tive a experiência mais kafkiana da minha vida"
Terça-feira, 9 de abril de 2002
Ontem pela manhã, fui resolver as últimas pendências de banco. Aproveitei e dei uma passada na RBS para dar um abraço nos ex-colegas. Dali, fui almoçar com o meu tio - aquele da Internet. Depois do almoço, eu tive a experiência mais kafkiana da minha vida. Senti-me um personagem do Buñuel em um filme surrealista.
Eu fui à Receita Federal, entregar a minha declaração de saída definitiva do país. Assim, meu CPF fica congelado e não preciso me preocupar com declaração de renda ou isento. Por isso, há algumas semanas, peguei o formulário adequado. É praticamente uma declaração de Imposto de Renda reduzida. Quando cheguei no saguão do "chocolatão" (apelido do prédio da Receita Federal em Porto Alegre), a fila das informações se perdia na distância. Enquanto eu esperava resignado nessa fila, notei que no fundo, ao lado direito da entrada, havia uma verdadeira antevisão do Inferno: a fila descrevia uma espiral que se perdia nas entranhas do prédio. O zumzum de vozes e humores que vinha de lá lembrava a sinfonia mal-acabada que só uma fila de repartição pública é capaz de repetir. Óbvio que me mandaram para essa fila. Cento e poucas pessoas depois e quase toda a minha paciência, finalmente cheguei no guichê de atendimento. Entreguei o formulário preenchido e pedi a certidão de negativa de pendências com a Receita.
Como num conto de Kafka, a moça do guichê me olhou e disse:
- Esse formulário está velho.
- Mas eu peguei aqui há umas semanas...
- Pois é, mas a alíquota mudou. Vais ter de preencher tudo de novo.
- ???
- Mas não te preocupa, podes passar direto aqui, sem entrar na fila. Deixa o número do teu CPF que vou pegando a negativa.
Depois de espernear bastante, não tive outra solução que preencher tudo de novo, com as novas alíquotas, recalculando tudo outra vez. Quando voltei ao guichê - depois de ter de convencer o guarda que eu não era um furão de fila -, a moça aceitou o meu formulário e me disse:
- Tua negativa não saiu...
- Como assim!? O que houve?
- Aqui diz que em 1998 tu não declarastes imposto.
- Claro que declarei! Isso aí tá errado.
- Olha só, eu não tenho como ver aqui. Então, pega essa senha aqui e vai na sobreloja e espera. Lá em cima eles vão poder resolver teu problema.
Nesse momento, notei que essa fila toda era apenas para pegar senha. Havia outras filas para quem seria atendido. Com o papelucho na mão, subi as escadas e dei de cara com uma sala imensa, cheia de cadeiras em frente a uma televisão. Cada senha que era chamada, a TV emitia aquele simpático som do Windows de chegada de mail.
Mais algumas horas e fui chamado. Quando expliquei o que era, a moça puxou meu histórico na tela do computador e foi logo dizendo:
- Ih, até já sei o que foi. Em 1998, tu declarastes isento, mas o rendimento anual passou da cota de isenção. Esse problema acontece seguido...
- Mas eu era isento em 1998.
- Eu sei. Mas o teu empregador fez o favor de declarar o teu 13º como renda. Por isso, tu declaraste isento, mas o sistema identificou o excesso. Nem te preocupa, já estou tirando a tua negativa.
Depois disso, voltei ao Centro. Passei por uma farmácia para comprar remédio para dor de cabeça, termômetro, essas coisas. Enquanto eu comprava uma cartelinha de paracetamol, os funcionários da loja simplesmente baixaram a cortina de ferro e começou a correria e confusão. Resumo da história: mais um assalto em Porto Alegre. Menos mal que os assaltantes não estavam armados e foram dominados. Enquanto esperavam a Brigada Militar, eu tive de convencer o dono da farmácia a me deixar ir.
Cheguei em casa e cai direto no banho. Isso já eram 19h30min. As 20h começava o movimento no Bar do Beto, a penúltima despedida. Fui voando para lá. A noite com os amigos compensou o dia desgraçado que eu tive. Saí de lá pelas 2h30min. Claro que não consegui dormir antes das 4h. Hoje, só tenho de fechar minha mala - sim, pela enésima vez, vou fazer a mala - e ajeitar as últimas coisas: dinheiro, porta-documentos, bagagem de mão, casaco, consulta à previsão do tempo...
Enfim, fim.
Daniel Vidor
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