"Me sinto como no tatame"
Terça-feira, 9 de abril de 2002
Ontem, passei o dia em função na rua. Vou enviar uma série de coisas pelo Correio, por isso precisei comprar as caixas para enviá-las. Cada caixa tem uma lista, detalhando o conteúdo, e um número. Assim, tenho as caixas de prioridade 1 a 10 com o conteúdo descrito. Depois, é só alguém da família largar no Correio. Os formulários já estão preenchidos, e as caixas lacradas.
De tarde, fui tentar atualizar o browser do computador do meu tio. Tarefa ingrata, posso garantir. Linha discada é a antevisão do Inferno. A entrada do submundo deve ser assim: um monte de computadores conectados via linha discada, com um sistema baseado em ASP travando a cada cinco minutos verificando o nome dos infelizes. Resultado: vou pegar um CD do Terra e instalar o navegador, porque por download não dá. Quatro quedas de conexação e um café ali na Padaria Mateus, na Borges de Medeiros - pertinho da Esquina Democrática - voltei para casa. Jantei uma pizza e fui ver TV. Ainda fui ver uma grande amiga no final da noite - excelente conversa e um ótimo chimarrão com ela e com seu marido.
Hoje, pego o pedigree do meu boxer e passo para meu tio, que vai ficar com o cachorro. Depois, é terminar a mala e ir para o último chopp com o pessoal todo no Bar do Beto.
Quando olho oito meses para trás e vejo a virada que dei, me assusto. Mudar os rumos da vida da gente ao longo prazo é como girar o timão de um navio. A princípio, o curso começa a mudar suavemente, com lentidão. As mudanças são imperceptíveis, mas você continua na nova rota. Com o tempo, as coisas vão ganhando velocidade, e o movimento se torna inexorável, adquirindo uma força irresistível. Não posso dizer em que momento minha vida realmente guinou para esse plano de sair do país. Mas sei que tudo e todos colaboraram de alguma forma. Hoje, quando faltam dois dias para o embarque, me sinto como no tatame, segundos antes de começar uma luta: como uma mola comprimida, esperando o sinal para explodir, lutar e vencer.
Daniel Vidor
|