Entidades americanas acusam Rússia de produzir drones mediante exploração e tráfico de mão de obra da Coreia do Norte
Entidades americanas denunciam que até 12 mil norte-coreanos sofrem trabalho escravo e tráfico humano em uma fábrica de drones na Rússia para alimentar a guerra contra a Ucrânia. O esquema, que envolve cooperação com China e Irã, viola resoluções da ONU e rende lucros a Pyongyang, que retém até 90% dos salários dos operários. Além de obter milhares de aeronaves ao mês, a parceria expõe o enfraquecimento das sanções internacionais e transfere tecnologia bélica ao regime de Kim Jong-un.
Máquina de guerra de Moscou está sendo alimentada por mão de obra cedida por Kim Jong-un. Entidades americanas denunciam graves violações de direitos humanos dos trabalhadores e tráfico humano.Até 12 mil norte-coreanos que trabalham numa fábrica russa de drones são vítimas de graves violações de direitos humanos e tráfico de pessoas, segundo um relatório divulgado pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) e pelo George W. Bush Institute, dos EUA.
O documento aponta o papel de Rússia, Coreia do Norte, China e Irã na expansão da produção de veículos aéreos não tripulados na fábrica de Yelabuga, na região russa do Tartaristão, e o que cada país tem a ganhar com essa cooperação.
Enquanto a Rússia obtém mais de 5,5 mil drones por mês para sua guerra contra a Ucrânia, a China se beneficia como a principal fornecedora de componentes, incluindo baterias, eletrônicos internos, motores e sistemas de navegação.
O Irã forneceu à Rússia drones Shahed, o que ajudou Moscou a produzir versões próprias aprimoradas, conhecidas como Geran. Já o regime de Kim Jong-un está obtendo lucros ao reter até 90% dos salários dos seus trabalhadores, afirma o relatório.
"A localização geográfica desses quatro países significa que qualquer tipo de proibição internacional é impossível", afirma o professor de relações internacionais Dan Pinkston, da Universidade Troy.
"Essas pessoas estão sendo enviadas para a Rússia como escravos"
O relatório afirma que Rússia e Coreia do Norte estão desrespeitando a Resolução 2397 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de dezembro de 2017, que exige que qualquer Estado-membro da ONU repatrie trabalhadores norte-coreanos em até dois anos.
"O regime norte-coreano está vendendo a força de trabalho de seus cidadãos por meio de um acordo entre Estados, controlando se eles podem sair e recolhendo a maior parte de seus salários", diz o relatório, lembrando que essa é a definição de trabalho forçado.
O acadêmico e ativista de direitos humanos Song Young-Chae, sediado em Seul e integrante da Coalizão Mundial para Acabar com o Genocídio na Coreia do Norte, afirma que o governo em Pyongyang está "efetivamente praticando a escravidão de seu povo em benefício próprio".
"Esta é uma situação terrível, e sabemos que isso não está acontecendo apenas em Yelabuga", afirma. "Sabemos que há trabalhadores da construção civil em territórios ucranianos ocupados, norte-coreanos em campos de exploração madeireira e dezenas de milhares de soldados que foram enviados para lutar e morrer nas linhas de frente da Ucrânia", acrescenta Song.
"A vida na Coreia do Norte já não é fácil, mas essas pessoas estão sendo enviadas para a Rússia como escravos, sem liberdade, e só podem ficar com uma pequena fração do dinheiro que ganham", afirma. O desafio, diz, é encontrar uma forma de interromper esse "comércio de seres humanos".
O que pode ser feito?
Para Song, não há muito a ser feito contra a exploração de norte-coreanos a serviço de Putin e Kim. "Esses países compartilham fronteiras, por isso é fácil transportar trabalhadores, e nenhuma agência pode intervir", diz. "A Rússia e a China são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mas estão ignorando resoluções dele sobre essa questão."
A organização de direitos humanos da qual o ativista faz parte tenta chamar a atenção para a situação dos trabalhadores norte-coreanos e criar uma coalizão de países e agências para protegê-los, mas ele se diz pessimista.
Pinkston compartilha dessas preocupações e denuncia o surgimento de um bloco poderoso que pode estar "rasgando a ordem internacional baseada no Estado de Direito e nos direitos humanos, estabelecida após a Segunda Guerra Mundial," e que tenciona adotar uma abordagem de confronto com outras nações. Segundo ele, as armas produzidas em Yelabuga contribuem para isso.
"As resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre trabalhadores norte-coreanos, proliferação de armas e venda de tecnologias de uso dual estão sendo ignoradas. Portanto, podemos dizer que o regime de sanções da ONU está praticamente morto", acrescenta Pinkston.
Coreia do Norte obtém conhecimento sobre drones
Pinkston afirma que, com a guerra em andamento, tanto a Rússia quanto a Ucrânia adquiriram conhecimentos importantes sobre conflitos atuais, sendo a tecnologia de drones um dos avanços mais significativos.
"E, como todo mundo, a Coreia do Norte vem observando atentamente, aprendendo na prática e desenvolvendo seu próprio conhecimento sobre drones", diz. Ele acrescenta que isso traz sérias implicações para as Forças Armadas sul-coreanas, que precisam manter suas capacidades defensivas diante de uma nova geração de drones do Norte.
Para conter o envio de trabalhadores norte-coreanos à Rússia e a proliferação de armamentos, o relatório conjunto recomenda que o Departamento de Estado dos EUA trabalhe com outros países para desmantelar redes de tráfico humano e sancionar os responsáveis.
O documento também pede que a ONU investigue o complexo de Yelabuga e registre os abusos ocorridos no local. Além disso, exige responsabilização para aqueles que cometeram abusos e proteção para as vítimas.
Por fim, o relatório defende que empresas estrangeiras que operam na zona econômica especial de Yelabuga, incluindo várias firmas europeias e pelo menos uma dos EUA, deveriam ser pressionadas a encerrar suas atividades no local.
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