Entenda o conflito na Etiópia que ameaça o Nordeste da África
Novos combates no Tigré violaram o acordo de paz de 2022 e ameaçam desestabilizar o Nordeste da África. Rebeldes formaram alianças contra o governo da Etiópia e tomaram aeroportos estratégicos. Especialistas e a União Africana temem que a crise ultrapasse fronteiras, conectando-se à guerra no Sudão e a rivalidades com a Eritreia. O envolvimento de potências externas e a proximidade com o Mar Vermelho ampliam o risco de um conflito armado generalizado e de nova catástrofe humanitária na região.
Novos confrontos na região do Tigré ameaçam acordo de paz firmado em 2022 entre governo e grupo armado. Conflito pode se espalhar e conectar outras guerras que ocorrem em países do Nordeste da África.A região do Tigré, no norte da Etiópia, viveu uma das guerras mais sangrentas do século 21. Os combates entre as tropas do governo federal e forças rebeldes mataram centenas de milhares de pessoas e deslocaram milhões entre 2020 e 2022, segundo estimativas. Um acordo de paz encerrou formalmente a guerra, mas conflitos voltaram a eclodir na região etíope nos últimos dias.
Nesta quarta-feira (23/09), as forças rebeldes tomaram três aeroportos controlados pelo governo federal, e outros combates aconteceram nas regiões de Amhara e Afar. A escalada ameaça a frágil paz estabelecida pelo Acordo de Pretória de 2022, firmado entre o governo federal e a Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF, na sigla em inglês).
Mas a questão central vai além da volta da guerra a Tigré: o conflito pode se conectar às guerras e rivalidades que já desestabilizam o Nordeste da África e o Mar Vermelho?
Martin Plaut, jornalista britânico e especialista sobre a região, acredita que o conflito pode ultrapassar as fronteiras da Etiópia. "Se um conflito transbordasse, é bem possível que uma guerra envolvendo Eritreia e Etiópia também passasse a envolver forças sudanesas, o que poderia arrastar toda a região para uma guerra", avalia.
Jalale Getachew Birru, analista sênior para a África Oriental no Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), também ressaltou que o conflito não pode ser visto de forma isolada. "O caso da Etiópia não é um caso isolado no Nordeste da África. Ele envolve também os países vizinhos e está se manifestando em toda a região", pontua o especialista, da organização independente de monitoramento e pesquisa de conflitos que coleta e analisa dados sobre violência política e conflitos armados em todo o mundo.
Sua avaliação aponta para uma dinâmica regional mais ampla: o conflito na Etiópia se desenvolve em paralelo a mudanças de alianças e interesses concorrentes no Sudão e na Somália. A análise atual do ACLED também situa a retomada do conflito em Tigré dentro de um padrão mais amplo de instabilidade na região.
O risco não se baseia em uma única aliança regional. Ele decorre do fato de que diversos conflitos já estão conectados geográfica e politicamente, observa Birru.
União Africana pede contenção
A União Africana (UA) também manifestou profunda preocupação com a possibilidade de um retorno do conflito. Em comunicado divulgado em 23 de setembro, o presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, alertou que novas alianças políticas e militares correm o risco de reverter os avanços obtidos desde 2020.
A organização pediu o fim imediato de ações que possam aumentar as tensões, a retomada de negociações diretas com base no Acordo de Pretória e contenção por parte dos países vizinhos da Etiópia. Também encarregou o ex-presidente da Nigéria Olusegun Obasanjo, representante especial da UA para a região, de apoiar os esforços diplomáticos.
A intervenção da UA reflete a preocupação de que a crise possa ter implicações regionais mais amplas, inclusive pela possibilidade de interagir com conflitos além das fronteiras etíopes.
Velhos inimigos, novas alianças
O grupo rebelde TPLF juntou-se recentemente a outros seis grupos armados etíopes em uma aliança que busca derrubar o primeiro-ministro Abiy Ahmed. Entre eles está o movimento Fano, de Amhara, que combateu a TPLF durante a guerra anterior.
A aliança não constitui uma força militar unificada, e seus integrantes têm objetivos políticos e interesses territoriais distintos. Ainda assim, sua formação impõe ao governo etíope várias frentes de combate simultâneas.
Os confrontos em Afar, região do nordeste da Etiópia que faz fronteira com a Eritreia e Djibuti, são particularmente significativos. A área abriga o principal corredor de transporte que liga a Etiópia, país sem saída para o mar, a Djibuti, por onde passa grande parte do comércio exterior etíope. Combates prolongados ali poderiam, portanto, ameaçar uma rota vital para a economia do país.
O possível papel da Eritreia
Durante a guerra de Tigré, entre 2020 e 2022, tropas eritreias lutaram ao lado das forças federais etíopes contra a TPLF. Desde então, as relações entre Adis Abeba e Asmara, capital da Eritreia, se deterioraram. As ambições da Etiópia de obter acesso ao mar Vermelho aumentaram as preocupações de segurança da Eritreia.
"A guerra certamente pode se agravar, e a Eritreia pode se envolver", avalia Plaut.
A Etiópia acusa a Eritreia de apoiar grupos armados que se opõem ao governo, enquanto Asmara nega as acusações. O nível de envolvimento direto da Eritreia continua difícil de ser verificado de forma independente.
Sudão: onde os conflitos podem colidir
O Sudão está em guerra desde 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF), lideradas pelo general Abdel Fattah Burhan, e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF), liderado pelo general Mohammed Hamdan Dagalo. O conflito atraiu potências regionais e gerou uma das maiores crises humanitárias do mundo.
Plaut argumenta que Etiópia e Eritreia já estão indiretamente envolvidas, em lados opostos. "Os etíopes estão do lado das RSF. Há fortes evidências de que existe uma base no oeste da Etiópia que fornece apoio e treinamento a combatentes das RSF", acrescenta. A DW não verificou a alegação de forma independente.
Os Emirados Árabes Unidos (EAU) enfrentam acusações de apoiar as RSF, o que negam. Plaut identifica Eritreia, Egito e Arábia Saudita como apoiadores das Forças Armadas do Sudão. "Portanto, tanto a Eritreia quanto a Etiópia já desempenham um papel indireto na guerra", afirma.
Segundo Plaut, se Etiópia e Eritreia entrarem em confronto direto, as forças rivais do Sudão poderão ter incentivos para explorar a nova situação. Os combates poderiam aumentar a pressão sobre a fronteira oriental sudanesa e alterar rotas de abastecimento e cálculos militares.
Plaut vê o risco de uma reação em cadeia. "Como os Emirados Árabes Unidos apoiam as RSF e os sauditas apoiam os eritreus e as Forças Armadas do Sudão, tudo isso pode se multiplicar e um conflito pode levar a outro. Assim, tudo se transforma em um conflito generalizado na região."
A conexão com o Mar Vermelho
O estreito de Bab el-Mandeb, um principais gargalos do transporte marítimo mundial, liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e ao oceano Índico. Eritreia e Djibuti ficam em sua margem ocidental; o Iêmen, na oriental. A guerra no Iêmen já demonstrou como a insegurança na região pode interromper o transporte marítimo internacional e atrair potências externas.
A localização da Eritreia e seu controle sobre o porto de Assab lhe conferem importância estratégica muito além de Tigré. Assim, qualquer deterioração significativa das relações entre Etiópia e Eritreia pode afetar a arquitetura de segurança de toda a região do Mar Vermelho.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também desenvolveram amplos interesses políticos, econômicos e de segurança em todo o Nordeste da África. Seus interesses coincidem em algumas áreas, mas divergem em outras, especialmente em relação ao Sudão.
O perigo de uma escalada
Nada disso significa que uma guerra regional seja inevitável. Não há evidências de uma única aliança militar que se estenda de Tigré ao golfo Pérsico. Os grupos armados da Etiópia têm interesses concorrentes, a Eritreia pode evitar uma intervenção direta e as facções em guerra no Sudão possuem suas próprias prioridades.
Mas os conflitos não precisam de uma estrutura de comando comum para se tornarem interligados. O Acordo de Pretória interrompeu os combates em larga escala, mas muitas das disputas políticas e territoriais que deram origem ao conflito permaneceram sem solução.
Hoje, Tigré voltou à guerra, enquanto a Etiópia enfrenta diversos movimentos armados, a Eritreia surge como potencial ator militar e o Sudão já está mergulhado em uma guerra civil.
Plaut alerta que as consequências humanitárias podem ser trágicas. "Certamente há o perigo de que isso se transforme em um conflito extremamente sangrento. Afinal, 600 mil pessoas morreram no último conflito em Tigré. Esperamos que isso não siga nessa direção", conclui.
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