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Entenda as ligações de Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro

15 mai 2026 - 12h01
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Conversas apontam que senador e pré-candidato à Presidência mantinha contato próximo com banqueiro, apesar de negativas anteriores sobre relação, e que negociou repasses milionários.Conversas reveladas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro - dono do Banco Master, preso acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras - expõem uma relação mais próxima e complexa do que o parlamentar vinha admitindo publicamente, lançando uma sombra sobre a pré-candidatura à Presidência do político de extrema direita.

Com revelação de mensagens, Flávio Bolsonaro passou a dizer que conhece Vorcaro desde dezembro de 2024, mas que não falava de relação por "cláusula de confidencialidade"
Com revelação de mensagens, Flávio Bolsonaro passou a dizer que conhece Vorcaro desde dezembro de 2024, mas que não falava de relação por "cláusula de confidencialidade"
Foto: DW / Deutsche Welle

As mensagens, divulgadas em primeira mão pelo site The Intercept Brasil na quarta-feira (13/05), indicam que o senador Flávio negociou repasses milionários em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal sobre o caso Master. Segundo o senador, esses recursos seriam para financiar uma cinebiografia sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O material, cuja veracidade foi confirmada por fontes ligadas ao caso e pelo próprio senador, lança dúvidas sobre a versão apresentada por Flávio Bolsonaro e amplia o alcance político de um escândalo que envolve várias esferas do poder.

Segundo o Intercept, Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção do filme Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025. Essa seria uma parte de um repasse total combinado de cerca de R$ 134 milhões para o filme, um valor exepcionalmente alto para um longa filmado no Brasil, levantando dúvidas se o dinheiro seria mesmo canalizado para a produção.

Sinais trocados

Os registros mostram que Flávio Bolsonaro manteve contato frequente com Daniel Vorcaro entre setembro e novembro de 2025. O senador chegou a se referir ao empresário como "irmão" e cobrou diretamente repasses financeiros para a produção de Dark Horse.

Em um áudio de setembro, Flávio disse: "Eu fico sem graça de ficar te cobrando", ao mesmo tempo em que pressiona pela liberação de valores.

Poucos dias antes, em 3 de setembro, o Banco Central havia vetado a venda do Banco Master ao BRB — um movimento que já indicava fragilidade na situação do grupo financeiro.

Mesmo diante desse contexto, as conversas prosseguiram. Em 8 de setembro, o senador voltou a cobrar pagamentos. Em 30 de setembro, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar irregularidades envolvendo Vorcaro.

Na última mensagem, em 16 de novembro - um dia antes da segunda prisão de Vorcaro -, Flávio escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente."

Horas antes da divulgação desse material, o senador esteve com o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para se apresentar como pré-candidato à Presidência. Na saída, um repórter do The Intercept perguntou sobre o financiamento de Vorcaro ao filme. Ele respondeu: "De onde você tirou essa informação? É mentira". Ele riu, chamou o repórter de "militante", e se retirou da entrevista coletiva improvisada. Já distante dos jornalistas, disse que era "tudo privado".

Quando os áudios vieram à tona, ele mudou sua versão: "Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", afirmou em vídeo. A mensagem segue na linha de que só há dinheiro privado envolvido. "Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet."

A justificativa de que não há dinheiro privado e que, portanto, não haveria irregularidades, é enganoso ao omitir que há recursos públicos envolvidos na fraude do Master. Entre os maiores rombos, estão R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência, o fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões a servidores do Rio de Janeiro, R$ 400 milhões investidos pela previdência do Amapá em ativos podres no banco, e ao menos R$ 12,2 bilhões em ativos fraudulentos comprados pelo Banco de Brasília (BRB), que tem como acionista majoritário do Governo do Distrito Federal.

Até a divulgação das conversas, Flávio afirmava não conhecer o ex-banqueiro. Em março, a Polícia Federal revelou que o contato do senador e de outros congressistas estava na agenda telefônica do investigado, dentro das investigações da CPI sobre fraudes no INSS. Na ocasião, Flávio Bolsonaro afirmou que nunca teve contato com o dono do Master e que o número do seu telefone "não é propriamente um segredo".

Com a revelação das conversas, Flávio mudou a versão e passou a dizer que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, "quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro". Para se contrapor a esse argumento há, inclusive, uma publicação no X de seu pai, de setembro de 2024, sobre uma reportagem que trata das investigações contra o Master.

Cláusula de confidencialide

Ao admitir ter uma relação com Vorcaro, ele alegou ainda haver uma cláusula de confidencialidade no contrato entre o ex-banqueiro e a produtora do filme: "Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade", disse em entrevista à Globonews.

Flávio Bolsonaro afirmou que não houve doação ou favor, mas sim um investimento com expectativa de retorno financeiro. "Não é banqueiro enrolado, é investidor de filme", se referiu à Vorcaro na época em que o conheceu.

Ele afirmou que a equipe do filme passava por dificuldades para captar recursos no Brasil e atribuiu o cenário a uma suposta perseguição da Polícia Federal a opositores durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dark Horse, que no inglês significa algo como "azarão", é dirigido pelo cineasta americano Cyrus Nowrasteh, conhecido por produções dramáticas de cunho religioso ou político, como O Apedrejamento de Soraya M. (2008) e O Jovem Messias (2016).

A "mega produção hollywoodiana", como definiu Flávio Bolsonaro, retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, do atentado de 2018 à chegada à Presidência. No papel principal está Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em "A Paixão de Cristo"

O projeto envolve figuras próximas ao bolsonarismo. O ator e deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, é responsável pelo roteiro e produção.

Inicialmente, Frias afirmou que "não há um único centavo" de Vorcaro no filme. Depois modulou sua fala na linha de Flávio Bolsonaro, de que "não haveria problema algum" ter dinheiro de Vorcaro, por se tratar de relação "privada".

A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa, também negou ter recebido recursos do ex-banqueiro — o que contrasta com os registros de pagamentos apresentados na investigação, que indicam repasses de ao menos R$ 61 milhões.

O valor total de R$ 134 milhões contrasta com o preço normalmente investido em filmes no Brasil e provocou especulações se o filme não estava sendo para disfarçar recursos que seriam usados para outros fins. O longa O Agente Secreto (2025), por exemplo, custou R$ 28 milhões e a produção recente mais cara do cinema nacional é Ainda Estou Aqui (2024), que teve gastos de R$ 45 milhões.

Polícia Federal investiga Eduardo Bolsonaro

Uma das frentes de investigação da PF envolve o possível uso desses recursos para custear despesas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio, nos Estados Unidos, onde o ex-deputado vive desde fevereiro de 2025.

A Polícia Federal identificou transferências da empresa Entre Investimentos e Participações — associada ao ex-banqueiro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. O fundo é representado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Eduardo negou as acusações de se favorecer desses recursos. Em rede social, afirmou que a suspeita "é tosca" e um "assassinato de reputação". "Meu status migratório não permitiria [receber esses recursos]. Se isso tivesse acontecido, o próprio governo americano me puniria", disse.

Flávio também negou que o dinheiro tenha sido utilizado com essa finalidade, embora tenha confirmado que valores passaram pelo fundo nos Estados Unidos. Segundo o senador, os recursos foram integralmente aplicados no projeto. Ele disse que Calixto atuava como gestor do fundo e é pessoa de sua "confiança".

Entorno político envolvido

Apesar de Flávio tentar se desvincular do caso — chegando a afirmar que "o Banco Master é do Lula" —, a ligação com Vorcaro se espalha pelo entorno político da família Bolsonaro.

O senadorCiro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil e aliado de Jair Bolsonaro, que chegou a ser cotado a vice de Flávio, foi alvo de operação da Polícia Federal relacionada a suposto recebimento de vantagens ao tentar legislar a favor do banco.

A chamada "emenda Master", apresentada por Ciro em 2024, propunha ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra de instituições financeiras.

A proposta beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Master, que captava recursos oferecendo alta rentabilidade com cobertura do fundo. Segundo a PF, no entanto, o texto da emenda teria sido elaborado por assessores do próprio banco e posteriormente apresentado no Senado por Nogueira praticamente sem alterações.

Em mensagens interceptadas, Vorcaro celebra que o texto saiu exatamente como ele mandou. Ciro nega que tenha enviado a versão integral da proposta feita pelo banco. O senador nega irregularidades e afirma que a proposta tinha caráter técnico, voltado à proteção de correntistas.

Enquanto isso, Flávio aposta na criação de uma CPI para investigar o Banco Master como forma de defesa. Nos bastidores do Congresso, no entanto, há ceticismo quanto à instalação da comissão, especialmente pela resistência do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que também está na mira das investigações sobre a fraude do Master.

sf (Agência Brasil, ots)

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