Enfraquecimento de corrente no Atlântico, uma das maiores ameaças climáticas do mundo, tem um problema de imagem
A Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC) pode estar diminuindo sua velocidade, mas mudanças nas profundezas do oceano não geram imagens fáceis de transmitir ao público
Nas profundezas do Atlântico, uma vasta corrente marinha transporta calor dos trópicos em direção à Groenlândia. Trata-se da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Atlantic Meridional Overturning Circulation, ou AMOC, em inglês). Esse processo ocorre em grande parte fora de nossa vista, por isso não tem a mesma posição no imaginário público das florestas tropicais, das calotas polares ou de outros enormes sistemas reguladores do clima.
Estudos recentes sugerem que a AMOC está enfraquecendo. Se ela desacelerar ainda mais, o norte da Europa poderá enfrentar invernos muito mais frios, mesmo com o aquecimento global, enquanto as monções tropicais poderão se deslocar e o nível do mar poderá subir repentinamente ao longo da costa leste dos EUA.
Mas apesar dos repetidos alertas dos cientistas, a AMOC raramente fica nas manchetes por muito tempo. Uma explicação envolve que são os donos das mídias e restrições editoriais, mas há outra. A AMOC apresenta um problema específico para o jornalismo moderno: é extremamente difícil para muitos sequer imaginá-la, já que ela existe em um mundo muito abaixo do nosso — movendo-se lenta e silenciosamente pelo Oceano Atlântico.
Imagens ajudam a moldar a forma como as pessoas compreendem as questões climáticas. No jornalismo, ao longo de décadas, desenvolveu-se uma cultura visual: florestas em chamas, icebergs se fragmentando, plataformas de petróleo ao pôr do Sol, furacões giratórios, praias repletas de garrafas plásticas. Essas imagens funcionam como representações de sistemas que são difíceis ou impossíveis de observar diretamente. O jornalismo climático não criou esse filtro visual, mas precisa operar dentro dele.
A Grande Mancha de Lixo do Pacífico ilustra como esse filtro funciona. Muitas vezes imaginada como uma ilha flutuante de lixo, na realidade é uma sopa difusa de microplásticos espalhados por milhões de quilômetros quadrados de oceano, praticamente invisível ao nível do mar.
Mas a mancha de lixo ganha destaque na cobertura jornalística em parte porque imagens representativas lhe conferem uma forma reconhecível - garrafas descartadas e redes retiradas do oceano, um nadador de maratonas aquáticas coletando dados durante uma longa jornada. Essas imagens permitem que a mancha de lixo permaneça continuamente no noticiário convencional, mesmo que isso simplifique e distorça o que está acontecendo no oceano.
É lixo no Pacífico - mas não é a Grande Mancha de Lixo do Pacífico.Naja Bertolt Jensen / unsplash, CC BY-SAQuando os sistemas não têm imagem
A AMOC opera em uma escala lenta, mas imensa. Águas superficiais quentes se deslocam para o norte, partindo dos trópicos em direção à Groenlândia, onde se resfriam, tornam-se mais densas, afundam cerca de 5.000 metros e retornam para o sul em profundidade. Com centenas de quilômetros de largura em alguns pontos, ela redistribui calor e salinidade pelo Atlântico em escala maciça.
Muitos processos dinâmicos moldam essa corrente oceânica, por isso ainda não sabemos exatamente com que rapidez a circulação mudará ou mesmo qual será sua trajetória futura. Os resultados previstos permanecem incertos e alguns cientistas estão mais otimistas do que outros, mas vários estudos indicam uma tendência de enfraquecimento da corrente.
A AMOC, porém, gera poucos indícios visuais. Os pesquisadores podem observar seus vestígios: corais mortos há muito tempo que carregam ecos químicos das águas do passado, camadas de sedimentos que acumulam lentamente um registro das correntes ou, por meio de instrumentos que registram a data e a hora dos movimentos mais sutis nas profundezas do mar. Esses fragmentos são reunidos em padrões por meio de modelos computacionais que reconstroem a circulação e podem animá-la em três dimensões. Os satélites oferecem algumas pistas superficiais sobre temperatura, profundidade e salinidade. Mas os resultados desse trabalho são geralmente destinados à análise científica, não à cobertura jornalística ou à compreensão do público.
Como ilustrar o invisível
A solução, então, seria encontrar imagens mais impactantes - mas será que elas realmente existem? O Met Office - o instituto nacional de meteorologia do Reino Unido - e a Nasa costumam recorrer a diagramas em vermelho e azul com setas circulando pelo Atlântico. Para algumas pessoas, isso funciona: Vicky Allan, uma jornalista ambiental que mora na Escócia e que já fez reportagens sobre a AMOC em detalhes, me contou que o que finalmente a fez entender o assunto foi um slide de palestra mostrando uma "bolha azul" fria sobre a Escócia, um cenário de colapso que projeta invernos com temperaturas de -30°C.
Meteorologista do Met Office, Aidan McGivern explica a AMOC com setas vermelhas e azuis.Met Office / Youtube, CC BY-SAMas estas imagens não têm um significado universal. Interpretamos o mundo por meio da experiência direta, do conhecimento e da memória cultural. Allan mora na região retratada. Para outras pessoas, a mesma imagem pode não ter o mesmo impacto.
Além desses diagramas, a AMOC quase não oferece representações visuais. Às vezes, ela é ilustrada com imagens de uma "Europa congelada", mas a maioria dos cientistas afirma que tal cenário apocalíptico é improvável. Se os jornalistas se apoiarem demais na ideia da Europa congelada, a própria ciência corre o risco de ser adaptada para se adequar a uma convenção visual que atraia o público.
Quando sistemas complexos e invisíveis aparecem nas notícias da grande mídia, imagens dramáticas costumam ter mais repercussão do que a própria matéria. Constatei isso em meu próprio trabalho sobre satélites se queimando na atmosfera: imagens impactantes chamam a atenção e ajudam os leitores a imaginar como as naves espaciais chegam ao fim de sua vida útil. Mas minha mensagem principal sobre o efeito ainda incerto das partículas microscópicas nas nuvens polares que destroem a camada de ozônio foi muito mais difícil de transmitir.
Das profundezas do oceano à alta atmosfera, alguns dos processos ambientais mais significativos se desenrolam além da percepção humana, em escalas de tempo que vão de décadas a milênios. Eles pertencem a um planeta muito mais complexo do que podemos compreender plenamente, onde a incerteza não é uma falha, mas parte de como aprendemos sobre o sistema climático.
O jornalismo climático, no entanto, depende de um filtro visual restrito: imagens que são urgentes, dramáticas e centradas no ser humano, reduzindo vastos e lentos processos ambientais a eventos que podem ser vistos e sentidos. Ao fazer isso, corremos o risco de confundir atenção com compreensão. A AMOC e sistemas críticos semelhantes revelam a lacuna entre o que importa e o que se torna visível. O desafio não é a complexidade científica, mas os limites das convenções visuais por meio das quais contamos histórias ambientais.
Fionagh Thomson não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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