Encontro entre Xi Jinping e Trump reduz tensões, mas disputas continuam - inclusive pela América Latina
Disputa segue sendo por recursos naturais, mas países como o Brasil podem e devem agregar valor às suas commodities e negociar com mais autonomia, para romper posição histórica de meros fornecedores de matéria-prima e compradores de tecnologia
A recente cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping prorrogou a trégua comercial bilateral até janeiro de 2027, aliviando tensões imediatas sem frear a disputa por influência global. Esse embate geoeconômico atinge diretamente o Brasil e a América Latina, visados por seus recursos estratégicos para a transição energética. O desafio regional é superar a dependência externa e a reprimarização econômica, agregando valor às commodities e investindo em tecnologia própria em vez de apenas exportar matéria-prima.
A cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, realizada em 24 de setembro na Casa Branca, em Washington, reduziu o risco de uma crise imediata entre China e Estados Unidos, mas não encerrou a disputa pela entre as duas maiores economias do mundo.
A trégua comercial firmada pelos dois países após a reunião de Trump e Xi na Coreia do Sul, em outubro de 2025, estava prevista para expirar em 10 de novembro de 2026, e foi prorrogada por mais dois meses, até 10 de janeiro de 2027. Para o Brasil e a América Latina, o desafio é lidar com os desdobramentos dessa rivalidade sem ter que ampliar a dependência externa que têm tanto de um, quanto de outro.
Essa disputa ente EUA e China aparece em tarifas, restrições à venda de tecnologias avançadas, crédito, investimentos e regras para o ambiente digital. Isso é chamado de geoeconomics: o uso da economia para ampliar influência política.
Na América Latina, a competição entre as duas potências acontece porque a região oferece alimentos, energia, minerais, consumidores e obras de infraestrutura. A transição energética sul-americana reforça ainda mais o valor estratégico desses recursos.
Brasil ocupa posição muito importante nesse cenário
Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial brasileiro em bens, com a compra de grandes volumes de soja, minério de ferro e petróleo. O Comex Stat detalha o intercâmbio comercial brasileiro, e as estatísticas do MDIC mostram a relevância atual da China na pauta exportadora do país.
Em 2025, o Brasil teve superávit comercial total de US$ 68,3 bilhões e saldo positivo de US$ 29,1 bilhões com a China. De janeiro a agosto de 2026, o superávit total brasileiro chegou a US$ 55,3 bilhões, enquanto o saldo bilateral com a China alcançou US$ 25,5 bilhões.
América Latina segue vendendo produtos básicos baratos e comprando tecnologia cara
A expansão chinesa abriu mercados e trouxe receitas para a América Latina. O economista argentino Daniel E. Perrotti mostrou, em estudo para a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a rapidez com que a China ganhou espaço nas exportações latino-americanas. Porém, vender muito por si só não estimula o desenvolvimento da região. Tudo depende muito mais da relação entre o tipo de produto exportado e o tipo de produto importado.
Pesquisas sobre comércio e investimento chineses na América Latina mostram um padrão recorrente: a região vende produtos básicos e compra máquinas, equipamentos e bens tecnológicos. O problema é que a dependência das exportações latino-americanas em relação à China cresceu em muitos países e setores nos últimos anos.
Esse padrão favorece a chamada reprimarização, isto é, o estímulo ao retorno de um cenário de comércio exterior concentrado demais na venda de produtos básicos. Exportar soja, petróleo e minério faz parte da força econômica brasileira. A dificuldade surge quando a renda gerada por esses setores não se transforma em mais indústria, pesquisa, infraestrutura, educação e empregos qualificados. No caso brasileiro, análises sobre investimentos chineses no país mostram a convivência entre expectativa de crescimento e preocupação com assimetrias econômicas.
Brasil segue dependente também dos EUA
A dependência, porém, não passa apenas pela China. Os Estados Unidos continuam importantes para o Brasil por outros caminhos, como investimento, tecnologia, serviços financeiros, pesquisa e presença empresarial. É por isso que o país não pode tratar a relação com China e Estados Unidos como uma simples escolha entre dois lados.
As relações Brasil-China desde 2016 mostram como comércio, diplomacia e estratégia se misturam. Na prática, a rivalidade entre as duas grandes impacta o Brasil de formas bem concretas: tarifas mudam o destino das compras, bloqueios tecnológicos encarecem o desenvolvimento de equipamentos, e o grande capital gerado pela corrida por minerais e energia limpa mantêm a região presa à condição de mera fornecedora de matérias-primas.
Os efeitos dessa dinâmica variam dentro da América Latina. O México está mais ligado às cadeias industriais dos Estados Unidos. Chile e Peru dependem mais do cobre e de outros minerais. A Argentina combina agricultura, energia e necessidade de financiamento. O Brasil tem mercado interno grande, muitos recursos naturais e uma indústria mais diversificada, mas segue fortemente ligado à exportação de suas commodities.
Mas há caminhos para mudar esse cenário. A integração regional amplia a capacidade de negociação dos países sul-americanos com as grandes potências. A transição energética é um exemplo de oportunidade relevante. Baterias, carros elétricos, painéis solares e redes de transmissão exigem lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras, que temos em abundância. A própria International Energy Agency alerta que a produção e o processamento desses minerais estão concentrados em poucos lugares.
A América Latina, portanto, ganha espaço como fornecedora de matéria-prima fundamental para o desenvolvimento tecnológico mundial. Mas precisa aproveitar essa oportunidade para avançar também no processamento, na fabricação de componentes e na formação de trabalhadores qualificados. Assim, as condições dos investimentos chineses importam tanto quanto os valores anunciados.
Portos, ferrovias, redes elétricas, centros de dados e telecomunicações precisam ser avaliados além do volume de dinheiro investido. A CEPAL chama atenção para os efeitos setoriais dos investimentos. A UNCTAD destaca a necessidade de políticas claras e coerentes. A OCDE relaciona produtividade a educação, inovação e capacidade do Estado. Dados do Banco Mundial, da OMC, da UN Comtrade e do BID ajudam a acompanhar comércio, investimentos e integração regional.
A reunião de cúpula entre Xi e Trump reduziu tensões imediatas, mas a disputa continua. O Brasil ganha mais quando transforma sua inserção internacional em estratégia de desenvolvimento, diversifica mercados, agrega valor aos recursos naturais e negocia com mais autonomia.
Porque, no fim, a dinâmica segue a mesma: países que apenas fornecem recursos acompanham de longe a história do desenvolvimento tecnológico. Já os que constroem capacidade produtiva a partir dele ajudam a escrevê-la.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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