Enchentes em MG e no RS: perdas humanas e econômicas mostram urgência da prevenção
Estudos globais sobre gestão de risco de desastres indicam que cada real investido em prevenção pode gerar retornos de até quatro vezes o valor em perdas evitadas
O Brasil enfrenta uma sequência crescente de eventos climáticos extremos. Neste preocupante cenário, os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul ocupam lugar de destaque, figurando entre os mais castigados nos últimos anos. Enchentes, deslizamentos e chuvas fora de escala deixam um rastro de mortes, deslocamentos em massa e prejuízos econômicos de proporções históricas.
No RS, entre abril e maio de 2024 as chuvas inundaram mais de 90% dos municípios do estado, mataram centenas de pessoas, deslocaram cerca de 600 mil e causaram perdas estimadas em bilhões de reais.
Em MG, em fevereiro de 2026 novas enchentes e deslizamentos voltaram a cobrar um preço alto, deixando dezenas de mortos e milhares de desabrigados em cidades como Juiz de Fora, uma das regiões mais urbanizadas em terreno de declive do país.
Apesar de terem sido recebidos com surpresa, esses desastres foram, em grande medida, anunciados previamente. Há anos estudos científicos alertam para o risco de colapso nessas regiões. Ainda que enchentes e chuvas intensas sempre tenham feito parte da realidade brasileira, a frequência e a violência desses episódios vêm aumentando drasticamente. A alteração dos padrões climáticos causadas pelo aquecimento global, quando combinada com infraestruturas urbanas frágeis, ocupação desordenada de áreas de risco e ausência de estratégias de prevenção, só podem resultar no que se viu: catástrofe.
A ocupação acelerada de encostas e planícies sujeitas a inundações agrava a vulnerabilidade das populações. Famílias constroem suas vidas em terrenos cujos riscos geológicos poderiam ser mitigados com planejamento urbano adequado. Sem esse planejamento, cada temporada de chuvas carrega o potencial de uma nova tragédia.
Há, no entanto, uma boa notícia. Prevenir custa menos que reconstruir. Estudos globais sobre gestão de risco de desastres indicam que cada real investido em prevenção pode gerar retornos de até quatro vezes o valor em perdas evitadas. Sendo que, no caso específico de enchentes, os números são ainda mais favoráveis. Há evidências na literatura científica de retornos de 100 dólares para cada 1 dólar investido. Ou seja, nesse caso, a austeridade custa mais caro que a prevenção. E isso não é novidade. A Conferência Mundial de Redução de Risco de Desastres em 2015 já apontava esse caminho ao eleger o investimento em prevenção como uma das quatro prioridades globais para as décadas seguintes.
O desafio, portanto, não é apenas climático, mas político. É necessário que prefeituras e governos estaduais assumam o engajamento necessário para transformar alertas científicos em ações concretas, antes que eventos nefastos e perfeitamente evitáveis se tornem realidade.
Mudança do clima intensifica eventos extremos
A ciência climática é clara: a mudança climática está tornando os eventos de precipitação intensa mais frequentes e mais severos. A cada 1°C de aquecimento, a atmosfera retém cerca de 7% mais vapor d'água. Com oceanos mais quentes alimentando tempestades mais energéticas, as chuvas se tornam mais intensas e destrutivas.
A chamada ciência de atribuição climática já conectou diretamente as enchentes do sul do Brasil a esse processo. Um estudo da UFSC concluiu que as alterações no clima tornaram um evento, como o que devastou o Rio Grande do Sul, duas vezes mais provável e até 9% mais intenso do que seria em um planeta sem aquecimento global. O El Niño amplifica esse quadro. O fenômeno, que aquece as águas do Pacífico tropical e altera a circulação de ventos e chuvas em escala global, vem se intensificando com o aquecimento, traduzindo-se no Brasil em mais chuvas no Sul e secas mais severas no Norte e Nordeste.
A isso se soma uma ameaça de prazo mais longo. Segundo o IPCC, o nível do mar pode subir entre 30 e 60 centímetros até 2100 em cenários de aquecimento moderado e ultrapassar 1 metro nos mais graves. Para cidades costeiras como Recife, Santos e Belém, onde grandes parcelas da população vivem em cotas baixas, isso significa a expansão progressiva das zonas de risco. Áreas que hoje sofrem alagamentos pontuais podem se tornar permanentemente inundáveis.
Urbanização sem planejamento
A ocupação de áreas de risco é outra causa central das grandes perdas. Encostas íngremes, margens de rios e várzeas concentram parte expressiva da população urbana brasileira, não por escolha, mas por exclusão. São famílias de baixa renda que, sem acesso à moradia formal em terrenos seguros, constroem suas vidas nos únicos espaços disponíveis, justamente os mais frágeis geologicamente. Em MG, esse padrão contribuiu diretamente para dezenas de mortes em deslizamentos durante as chuvas recentes.
O problema tem escala nacional. Mais de 1,9 mil municípios brasileiros têm áreas classificadas como de risco para inundações e deslizamentos. Quando esses eventos ocorrem, não atingem todos da mesma forma. As maiores perdas se concentram nas populações mais pobres, que vivem em habitações precárias, têm menos acesso a sistemas de alerta e menor capacidade de recuperação. A mudança climática, nesse sentido, não é apenas um problema ambiental. É também um vetor de aprofundamento das desigualdades.
Agravando esse quadro, os sistemas de drenagem e a infraestrutura urbana não acompanharam nem o crescimento das cidades nem as novas demandas climáticas. A ausência de investimento em contenção de encostas e drenagem eficaz transforma chuvas intensas em desastres que, com planejamento, poderiam ser bem menos letais e acarretar menores custos de reconstrução.
Impactos sociais e econômicos
Perder uma casa não é apenas perder um teto, é sofrer uma interrupção abrupta na vida como um todo. As famílias ficam sem acesso a serviços básicos, perdem empregos, são afastadas das redes de apoio construídas ao longo de anos e, muitas vezes, não têm para onde ir. O deslocamento forçado carrega consigo traumas que a reconstrução física de uma cidade não resolve.
Os impactos econômicos reforçam esse ciclo de vulnerabilidade. No RS, o Banco Mundial calculou prejuízos em torno de R$ 87 bilhões com perdas espalhadas pela agricultura, pelo comércio e pela infraestrutura. Em MG, ja se estima que as enchentes de fevereiro de 2026 causaram R$ 204 milhões em prejuízos, com cidades inteiras paralisadas e sistemas de abastecimento, transporte e produção gravemente comprometidos. Esses números têm rostos concretos. O agricultor que perdeu a safra, o pequeno comerciante que viu seu estoque ser levado pela água, o trabalhador autônomo que ficou sem acesso ao trabalho por semanas. Desastres dessa magnitude também derrubam redes de saúde e educação, postos ficam inacessíveis, escolas viram abrigos e crianças ficam meses fora da sala de aula. A reconstrução pode levar anos, e o ciclo de vulnerabilidade tende a ser mais profundo e mais duradouro justamente entre quem já vivia nas margens.
O que a evidência científica recomenda?
Especialistas em clima, riscos e gestão urbana concordam que as políticas públicas precisam mudar de foco, saindo do modo reativo, em que as ações só acontecem depois que a tragédia acontece, para um modo proativo e preventivo, com a adoção de medidas comprovadamente eficientes, como as que seguem.
1. Sistemas de alerta precoce e comunicação
Instalar e manter sistemas de monitoramento de chuva e níveis de rios, integrados com sirenes, aplicativos e SMS para avisar comunidades com antecedência.
Capacitar a população para entender os alertas e saber como agir. Estudos mostram que alertas bem comunicados reduzem significativamente mortes e ferimentos.
2. Conservação e restauração ambiental
Reflorestamento de margens de rios e encostas ajuda a reduzir erosão e diminuir o volume de água das enchentes.
Áreas de retenção natural e zonas verdes urbanas absorvem água da chuva, diminuindo a pressão sobre sistemas de drenagem.
3. Planejamento urbano e regulação de ocupação
Evitar ocupação de áreas de risco ou criar programas de realocação voluntária para moradores dessas regiões.
Normas de construção resistentes a enchentes, como elevação de casas, uso de materiais impermeáveis e fundações reforçadas.
Planejamento urbano integrado com mapas de risco atualizados e modelagem hidrológica.
4. Infraestrutura "verde" e soluções baseadas na natureza
Florestas urbanas e cobertura vegetal retêm volumes significativos de água antes que ela alcance o solo; uma árvore adulta absorve entre 100 e 150 litros por dia.
Jardins de chuva, pavimentos permeáveis e bacias de retenção complementam essa função, captando, infiltrando e acumulando água temporariamente durante picos de chuva, reduzindo o volume que chega aos rios e sistemas de drenagem.
Reduzir a impermeabilização do solo, substituindo asfalto e concreto por superfícies que permitem absorção natural, é o ponto de partida para qualquer estratégia verde eficaz.
Conclusão: prevenir agora é proteger vidas e economizar depois
O padrão é claro: chuvas mais intensas combinadas com planejamento urbano fraco e infraestrutura deficiente resultam em desastres que poderiam causar menos mortes e prejuízos. Num país que gasta bilhões reconstruindo cidades depois de cada temporada de chuvas, a escolha entre prevenir e remediar não é apenas moral. É financeira. A ciência está dizendo isso há anos. É hora de ouvir e agir.
Julia de Freitas Sampaio não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.