Empatia no SUS: médico pernambucano cria receitas ilustradas para quem não sabe ler
O médico pernambucano, Lucas Cardim ganhou projeção nacional ao cria receitas ilustradas para quem não sabe ler. Uma demonstração de empatia e cuidado na atenção básica de saúde.
Na zona rural de Petrolina, no Sertão pernambucano, o médico Lucas Cardim se deparou com um problema que vai muito além da falta de consulta ou de remédio: a dificuldade de leitura de parte dos pacientes, que impedia o entendimento das receitas e comprometia o tratamento.
Em uma região distante dos grandes centros e marcada por desigualdades sociais, ele percebeu que, mesmo com atendimento garantido, muita gente continuava doente por não conseguir decifrar as orientações escritas no papel.
Adaptação
Foi diante dessa realidade que surgiu a ideia de adaptar as prescrições médicas. No início, Lucas passou a desenhar manualmente símbolos simples nas receitas, como uma xícara para indicar a medicação pela manhã e uma lua para o horário da noite. Também usava círculos para marcar a quantidade de comprimidos, numa tentativa de transformar a consulta em algo mais compreensível para quem não domina a leitura. Embora funcional, o processo tomava tempo e, em alguns casos, deixava pacientes constrangidos.
Unindo forças
A solução ganhou força quando o médico pediu ajuda ao amigo Davi, engenheiro de software que hoje trabalha no Google, na Suíça. Juntos, eles criaram a plataforma Cuidado para Todos, um sistema gratuito com os remédios mais usados na atenção primária e uma biblioteca de ícones pré-definidos que podem ser inseridos na receita de forma rápida e prática. Além de imprimir a prescrição, o profissional também pode gerar figuras para colar nas caixas dos medicamentos, o que amplia o entendimento do paciente.
A plataforma foi pensada para atender principalmente pessoas com analfabetismo funcional, baixa escolaridade ou dificuldade de compreensão de textos médicos. Em alguns casos, ela também incorpora QR codes e recursos audiovisuais, permitindo que o tratamento seja explicado de forma mais completa e acessível. A proposta vem sendo implementada gratuitamente em unidades básicas de saúde e já alcançou mais de 10 municípios e três distritos indígenas, segundo os idealizadores.
Desenhando mais saúde
Um dos exemplos citados por Lucas foi o de Maria das Dores, paciente diabética que enfrentava internações frequentes porque não conseguia seguir o tratamento sozinha. Com orientação visual e acompanhamento mais próximo, ela aprendeu a usar a caneta de insulina, trocar as agulhas e fazer o controle da glicemia, apresentando melhora significativa. Para o médico, o caso mostra que oferecer consulta e remédio não basta quando o paciente não entende o que fazer depois que sai da unidade de saúde.
Inclusão
Lucas e Davi defendem que o Sistema Único de Saúde precisa reconhecer as desigualdades regionais e linguísticas do país para ser realmente inclusivo. O Ministério da Saúde, por sua vez, já disponibiliza ferramentas de apoio para profissionais que atendem pessoas com baixo nível de letramento, incluindo pictogramas e materiais padronizados. Ainda assim, a iniciativa pernambucana chama atenção por transformar empatia em solução prática, com potencial de ser incorporada de forma permanente ao SUS.
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