Oligarquia, familismo e patrimonialismo: como os Sarney perderam espaço na política após sete décadas de poder no MA
Derrota de Roseana na disputa pelo Senado deixará família sem representantes em mandatos eletivos a partir de 2027
A derrota de Roseana Sarney (MDB-MA) na disputa pelo Senado marca um novo capítulo no declínio de uma das famílias mais tradicionais da política brasileira. A partir de 2027, os Sarney ficarão sem representantes em mandatos eletivos pela primeira vez em 72 anos, encerrando um ciclo iniciado na década de 1950, quando José Sarney, pai de Roseana e ex-presidente da República, chegou à Câmara dos Deputados.
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Para cientistas políticos ouvidos pelo Terra, entre os fatores apontados para a derrocada dos Sarney estão o desgaste político, a dificuldade de renovar os quadros familiares e as mudanças nas alianças estaduais. A avaliação, porém, é que o fim da presença da família em cargos eletivos não significa necessariamente o desaparecimento das práticas políticas que marcaram sua trajetória.
“Considero que a derrota de Roseana Sarney na eleição para o Senado, agora em 2026, representa uma espécie de último ato, a derrocada simbólica do domínio do grupo Sarney aqui no Estado, que foi bastante longevo”, afirma Arleth Borges, cientista política e professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Segundo a especialista, o grupo consolidou sua influência a partir da chegada de José Sarney ao governo estadual, em 1966, durante a ditadura militar, e manteve vínculos entre as esferas estadual e federal. Para ela, a derrota da ex-governadora representa o encerramento de um ciclo.
“Esse grupo não existe mais, não controla mais a política no Estado”, avalia Borges, ao apontar que o declínio ocorreu gradualmente, em um processo que teve um momento importante com a reeleição de Flávio Dino, que atualmente é ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ao governo do Maranhão, em 2018.
A trajetória política da família Sarney
José Sarney iniciou sua trajetória como deputado federal na década de 1950. Em 1966, foi eleito governador do Maranhão e, posteriormente, chegou ao Senado, onde permaneceu até 1985. Naquele ano, assumiu a Presidência da República, cargo que ocupou até 1990. Depois, voltou ao Senado, onde cumpriu mais três mandatos consecutivos, até 2015.
Roseana seguiu os passos do pai. Eleita deputada federal pela primeira vez em 1990, chegou ao governo do Maranhão em 1995 e foi reeleita em 1998. Em 2002, elegeu-se senadora, cargo que ocupou até 2009, quando retornou ao governo estadual. Ela permaneceu à frente do Executivo maranhense até 2014 e voltou à Câmara dos Deputados em 2023, após ser eleita em 2022.
Na disputa de 2026, Roseana terminou na terceira colocação na corrida pelas duas vagas ao Senado. André Fufuca (PP) recebeu 21,43% dos votos, enquanto Lahesio Bonfim (Novo) obteve 20,65%, garantindo as cadeiras em disputa.
Outros integrantes da família também ocuparam cargos públicos. José Sarney Filho, conhecido como Zequinha Sarney (PV), foi deputado estadual e federal pelo Maranhão, além de ministro do Meio Ambiente nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Já Adriano Sarney, neto do ex-presidente, exerceu dois mandatos como deputado estadual, entre 2015 e 2023.
Falta de renovação e desgaste eleitoral
Para Luiz Guterres, cientista político maranhense, a dificuldade de formar novas lideranças dentro da própria família contribuiu para a perda de espaço político. Na avaliação dele, os sucessores de José Sarney não conseguiram reproduzir a trajetória eleitoral de Roseana.
“A família Sarney perdeu espaço nos últimos anos, muito por causa talvez da falta de preparo, de renovar membros da própria família na área política. Então, assim, depois que você tira o José Sarney e tira a Roseana Sarney, claro, a gente teve o Sarney Filho, como ministro, como deputado federal, teve o próprio Adriano Sarney, que é filho do Sarney Filho, que é sobrinho da Roseana e neto do Sarney como deputado estadual, mas não tiveram o mesmo preparo que a Roseana teve, o mesmo know-how que a Roseana teve.”
Guterres também destaca o desgaste da imagem da família entre parte do eleitorado, especialmente entre os mais jovens. Segundo ele, a derrota de Roseana reflete uma mudança na percepção dos maranhenses sobre os antigos grupos políticos do Estado.
“A família Sarney foi considerada uma oligarquia de anos e anos. Saiu do poder porque o Flávio Dino, que hoje é ministro do STF, ganhou. E o ministro teve um rompimento com o atual governador Carlos Brandão, eles eram do mesmo grupo, e a família Sarney veio para o lado do governador e perdeu”, diz Guterres.
Práticas políticas sobrevivem à perda de poder
A saída da família dos mandatos eletivos não significa, entretanto, que o modelo de organização política associado ao grupo tenha sido superado. Arleth Borges descreve esse modelo como oligárquico, patrimonial e familístico, marcado pela concentração de poder e pela influência das relações familiares na estrutura política. Segundo ela, essas práticas não se restringiram à família Sarney.
“Se você me pergunta, se o modus operandi com que o grupo Sarney moldou a política maranhense, o que se deu em moldes oligárquicos, patrimoniais, familísticos, enfim, se isso foi superado, se está erradicado junto com o poderio eleitoral do grupo? Aí eu respondo que não. Em larga medida, esse modus operandi, ele continua, essas lógicas, inclusive, continuam vivas e acredito, inclusive, que não seja só no Maranhão”, afirma Borges.
A cientista política também pondera que as mudanças promovidas durante os governos de Flávio Dino, que rompeu com estruturas políticas tradicionais, tiveram limitações. Segundo ela, a formação de alianças amplas e heterogêneas incorporou atores que já haviam participado do grupo Sarney, o que contribuiu para a permanência de determinadas práticas nas estruturas do Estado.
Alianças estaduais também pesaram na derrota
Os especialistas ressaltam ainda que o resultado de Roseana não pode ser explicado apenas pelo desgaste histórico da família. A composição das alianças eleitorais e a influência da candidatura ao governo sobre a disputa para o Senado também tiveram peso no resultado.
“A regra é que a candidatura majoritária ao governo puxe os senadores, isso é que é o comum, digamos assim, e é o que aconteceu aqui no Maranhão. O governador que se elegeu, elegeu também os dois senadores que ele estava apoiando”, ressalta Arleth Borges.
Guterres, por sua vez, destaca a necessidade de renovação das lideranças políticas no Maranhão. Para ele, a alternância de nomes é importante para a formação de novas referências eleitorais no Estado.
“Ter novas lideranças, é algo muito interessante. Não só para o Estado, né? Eu, como cientista político, sempre falo que é necessário renovar, atualizar, ter novos nomes”, finaliza.

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