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Presidenciáveis usam diversidade de 'muleta', mas propostas são fracas e vazias, dizem especialistas

Análises apontam propostas genéricas, pouco detalhadas e sem mecanismos claros de execução

17 set 2026 - 04h58
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Lula, Flavio, Augusto e Renan
Lula, Flavio, Augusto e Renan
Foto: Imagens divulgadas no site do TSE

Ao todo, 13 candidatos concorrem à Presidência da República nas eleições de 2026. A diversidade aparece, em maior ou menor grau, dependendo de cada projeto de governo. Mulheres, população negra, povos indígenas e população LGBT+ são os grupos mais contemplados. Porém, para especialistas ouvidos pelo Terra, a presença dos temas nos planos não necessariamente significa um compromisso real. Pelo contrário, as análises apontam propostas genéricas, pouco detalhadas e sem mecanismos claros de execução.

  • Essa reportagem faz parte da série O Brasil Que Eles Querem, que vai destrinchar os planos de governo dos candidatos à Presidência sobre TecnologiaEducaçãoEconomia, Saúde, Cultura, Meio Ambiente, Segurança, Relações Internacionais, Esporte e Diversidade

Em alguns casos, segundo os especialistas, a diversidade aparece até como uma espécie de "pauta de acessório", um tema que precisa constar no plano de governo para dialogar com determinadas parcelas do eleitorado. Os especialistas avaliaram as propostas apresentadas pelos candidatos e discutiram o espaço destinado à Diversidade nos documentos. Confira a seguir, as principais reflexões:

População feminina

Foto:

A minoria social que mais recebeu menções nos planos de governo foi a população feminina. De 13 candidatos, apenas um não reservou espaço específico para ela: Renan Santos (Missão). De forma geral e ampla, o restante firmou compromisso contra o feminicídio e contra a violência doméstica. Alguns sugeriram endurecimento de pena para agressores e celeridade no processo, outros sugeriram apoio via drones e app para pedir socorro.

Para Marcos José Zablonsky, especialista em opinião pública e professor da Escola de Belas Artes e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), o comprometimento da esquerda e da direita com a pauta é notável, mas falta detalhamento de como todas as propostas sairão do campo das ideias. “Quando você olha lá no papel, está lindinho, bonito, maravilhoso, mas não tem explicação, não tem detalhamento, não tem nada”, disse ele. “E a maioria é um tal de cheio de intenção e pouca execução”, complementou Marcos.

População negra

Imagem mostra punho de uma pessoa negra levantado, com a mão fechada. Atrás, uma multidão.
Imagem mostra punho de uma pessoa negra levantado, com a mão fechada. Atrás, uma multidão.
Foto: Freepik

Com relação à população negra, as propostas são diversas: ações de incentivo cultural, estudantil, ampliação das cotas e até reeducação do aparato policial para abordagens dignas. Conforme Zablonsky, a maioria das propostas para essa parcela do eleitorado se concentra na esquerda, principalmente nos partidos nanicos, como PCO, PSTU e UP. Segundo ele, as siglas e seus respectivos candidatos podem prometer mais, pois nem sempre figuram bem nas pesquisas, logo não possuem chances expressivas de vitória na corrida. “Quem tem mais chances de assumir a cadeira, teme a cobrança”, comentou ele.

“Os nanicos, basicamente estão ali investindo no cargo para cumprir uma função de dar visibilidade aos candidatos a deputados e deputadas do que qualquer outra coisa. O compromisso deles é mais ideológico e de posicionamento do que propriamente de uma busca pelo poder. Tem que separar o joio do trigo, porque essa turma só tem um compromisso, que é o ideológico. Essa coisa de serem cobrados depois da promessa não vai acontecer, eles sabem que as chances deles são menores”.

O professor deu um exemplo prático. “Você vai perceber que naquelas candidaturas em que têm mais estofo, vamos pegar o caso de Lula, Flávio Dino, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que estão em partidos maiores e que já têm uma história na política, é algo mais superficial, [mas porque há mais chances de vencer nas urnas]”, continuou ele.

População LGBT+

Abertura da 30ª Parada LGBT+ de São Paulo
Abertura da 30ª Parada LGBT+ de São Paulo
Foto: Tomzé Fonseca/ Agnews

Dos 13 candidatos na corrida presidencial, só quatro citaram a população LGBT+ de forma específica. Segundo Nelson Matias Pereira, atual presidente da Associação da Parada LGBT de São Paulo, mesmo os partidos que fizeram menção ao grupo apresentaram “propostas genéricas e vazias”. Entre os destaques estão, além da reafirmação do compromisso com a equidade de direitos, medidas de endurecimento do combate à LGBTfobia e a criação de casas-abrigo para pessoas que foram expulsas de casa.

“O primeiro dado que me chama atenção é que tem pouquíssimas candidaturas apresentando compromisso específico com a comunidade LGBT. É realmente muito preocupante porque a gente está falando de milhões de brasileiros e brasileiras que enfrentam problemas concretos, de violência, de discriminação, de acesso ao trabalho, de saúde e de educação. Não dá para tratar LGBT como uma pauta de acessório, que é o que está acontecendo. A gente acaba sendo um [cabide] obrigatório… e me assusta que dos 13 só tenham quatro que apresentaram alguma coisa. É alarmante do meu ponto de vista”, refletiu.

Nelson ainda comparou os planos de governo. “Dentro das propostas, o atual governo, inclusive, fica em terceiro lugar se ranquearmos, sendo que o PSTU e o UP têm muito mais propostas, programas detalhados e planos de ação ao enfrentamento à LGBTfobia, educação sem discriminação, saúde integral, trabalho, emprego, renda e moradia”.

Para Nelson, muitas pautas do UP e do PSTU, como casas-abrigo para LGBTs expulsos de suas respectivas casas e atendimento de saúde integral, podem parecer distantes, mas são possíveis desde que o governo submeta esses tópicos a programas sociais já existentes.

O fato de o atual governo apenas reafirmar seu compromisso com o público LGBT+ e não detalhar planos é motivo de lamento para o presidente da APOLGBT+, porém, ele reconhece que, apesar de ser pouco diante do que a comunidade reivindica, pelo menos, o PT reconhece a existência e o direito ao respeito mútuo, diferente de partidos da direita.

“Os demais estão um pouco se lixando para nossa existência, estão pouco se lixando para nossas problemáticas. É como se a gente não existisse, digo isso literalmente porque, a partir do momento que você não põe isso dentro de um programa de governo, se você for eleito, como que você vai priorizar a pauta dessa comunidade se você sequer previu ou teve a atenção de colocá-los dentro do seu governo? Não tem como, é até assustador, sabe?”.

População deficiente e neurodivergente

De fim de vestibulares a bolsas de mérito em vez de cotas: o que os candidatos a presidente propõem para a educação no Brasil
De fim de vestibulares a bolsas de mérito em vez de cotas: o que os candidatos a presidente propõem para a educação no Brasil
Foto: Pixabay

Com relação a pessoas neurodivergentes e/ou com deficiência, direita e esquerda se alinham. Candidatos de ambos os lados políticos trazem propostas ou ao menos citam essa parcela da população. Alguns, como Romeu Zema e Augusto Cury, propõem a inclusão de pessoas do Transtorno do Espectro Autista no ambiente escolar, bem como reforço em domicílio e a capacitação de profissionais da educação para melhor lidar com estes alunos.

Outros, como Samara Martins e Edmilson Costa, focam na viabilidade de materiais em Braille para alunos cegos e fortalecimento do SUS para melhor atendimento de PCDs. Para José Zablonsky, as propostas são boas, mas não têm ‘pés’ na realidade. “Tem duas questões aí, falta de profissionais e de qualificação. Em algumas instituições colocam até uma professora a mais, mas ela não pode ocupar o local de uma babá. Há necessidade de formação, só que, de acordo com as pesquisas, há um déficit de profissionais no Brasil inteiro, porque ninguém quer ser mais professor, ninguém tem mais interesse, há uma redução significativa de pessoas interessadas em seguir na educação”, analisou ele.

“A intenção é boa, está colocada, mas a execução é bem mais complexa e não está aprofundada em nenhum deles”, complementou o professor.

População idosa

Monitoramento em casa ganha espaço na segurança de idosos que vivem sozinhos
Monitoramento em casa ganha espaço na segurança de idosos que vivem sozinhos
Foto: Imagem ilustrativa/Freepik

A população idosa, igualmente aos PCDs e pessoas dentro do espectro TEA, é outro tópico no qual esquerda e direita se encontram, teoricamente, alinhados. Flávio Bolsonaro e Lula, por exemplo, têm projetos para esta parcela do eleitorado que se assemelham: aumentar o número de casas de longa permanência, aumentar o número de vagas públicas em instituições, medicina multidisciplinar a domicílio, além de providenciar itens de necessidade como bengalas, cadeira de rodas, entre outros itens para as pessoas vulneráveis.

Para o especialista em opinião pública, o detalhamento dos favoritos, bem como dos candidatos nanicos em tal faixa da população, não tem relação com luta, mas sim com o envelhecimento populacional. “A pirâmide está mudando e vai exigir um investimento mais significativo do Estado, tanto que já se discute a questão da Previdência, de mudanças, porque a Previdência já começa a ter dificuldade de se autogerir. E, ao mesmo tempo, mais pessoas estão entrando nesse circuito e menos pessoas estão indo para o mercado”.

População indígena

Turista fazendo pintura indígena tradicional com Jenipapo durante turnê em tribo brasileira
Turista fazendo pintura indígena tradicional com Jenipapo durante turnê em tribo brasileira
Foto: FG Trade / Getty Images

Os povos originários, bem como a preservação de suas terras, também têm representação na pasta da diversidade. Na corrida eleitoral, o tema é polarizado, alguns mencionam o assunto, outros sequer reconhecem sua existência. Enquanto alguns defendem a demarcação de terras indígenas e expulsão imediata de latifundiários, outros, como William Grassi, chegam a cogitar a legalização da mineração.

Dentre os candidatos à Presidência da República nas Eleições de 2026, o Observatório do Clima considerou que apenas Lula apresentou um plano de ação robusto com relação à pauta. Os demais candidatos deixaram a desejar, com destaque negativo para Renan Santos e Clariana Brandão, que sequer citam a temática em seus respectivos projetos.

“A análise, realizada pelo Observatório do Clima, mostra que os temas referentes a clima e meio ambiente de forma mais ampla têm uma atenção muito aquém do necessário. A exceção é o plano de governo do atual presidente, no qual o ponto de preocupação fica apenas na área de energia, o que era até esperado. Os planos dos demais candidatos são todos muito mais fracos em relação à agenda, alguns absolutamente inaceitáveis”, disse Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

Fonte: Portal Terra
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