Na Globo, Lula muda de opinião, defende redução da maioridade penal e faz mea-culpa sobre resultados do governo
Petista é sabatinado por Renata Lo Prete nesta quinta-feira, 15; Flávio Bolsonaro será ouvido na sexta
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o primeiro entrevistado por Renata Lo Prete, na TV Globo, na rodada de sabatinas com os candidatos à Presidência da República no segundo turno das eleições. Na busca pelo quarto mandato, o petista fez mea-culpa sobre resultados do governo, citou a 'relação civilizada' com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos para crimes hediondos e se posicionou sobre o escândalo do caso Master. Confira os destaques da entrevista.
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Em ordem definida em sorteio, Flávio Bolsonaro (PL) será entrevistado nesta sexta-feira, 16. Assim como na rodada de sabatinas do primeiro turno, cada entrevista contará com 40 minutos de duração, com dois blocos, e um minuto para considerações finais no encerramento.
Resultados do governo e rejeição
A entrevista começou com a jornalista questionando o candidato sobre a rejeição do eleitorado ao seu governo. Ela citou, também, o comentário de Lula sobre sua campanha ter sido desorganizada no primeiro turno. O petista logo puxou a responsabilidade para ele e admitiu dificuldade em comunicar os resultados de seu mandato à população. "Quando as coisas dão certo sou eu que ganho. Quando não, sou eu que perco", disse.
Lula falou sobre o processo de recuperação que foi necessário no início de seu terceiro mandato, após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixar a presidência. "Lamento que não tenha tido a capacidade de fazer o povo compreender o que eu fiz, porque eu fiz muita coisa."
Ainda sobre o seu terceiro mandato, Lula disse que seu governo foi de ampla participação de outros partidos. Ele afirmou, ainda, que nem em 2006 pediu para que seus ministros fizessem campanha por ele na reeleição -- mas que os mesmos são peças fundamentais para sua governabilidade. "Todos os partidos, com exceção do PL [Partido Liberal], participaram do meu governo. [...] Por isso conseguimos aprovar tudo", comentou, citando a aprovação da reforma tributária.
Relação com os Estados Unidos
O Governo Federal vive sob pressão desde que Donald Trump foi reeleito presidente dos Estados Unidos --o que incluiu duas rodadas de tarifaço e uma clara preferência do governo norte-americano à oposição de Lula, como pontuou Lo Prete. "Se o senhor prevalecer nas urnas, como pretende lidar com essa realidade e com a vizinhança na América do Sul quase toda colocada na órbita dos interesses dos EUA?", questionou a jornalista.
"Acho que a minha relação com o Trump foi a mais civilizada que ele já teve com outro presidente da República. Começou muito tensa. Eu disse ao Trump que era importante que dois homens de 80 anos, sabe, tivessem o juízo e se entendessem, porque não era possível a gente ficar passando desavenças entre as duas maiores democracias do Ocidente. Ele concordou comigo", respondeu.
Lula disse que as negociações entre os países seguem, e que um acordo está se encaminhando. "Agora, o que me deixa tranquilo: embora a gente tenha perdido 9% na relação comercial com os Estados Unidos, nós crescemos 20% com a China, 15% com a Indonésia, 16% com a Alemanha, 13% com o Vietnã, e crescemos em 50 países que nós visitamos em média 10,5% a mais. Então quem deve estar preocupado conosco no momento são os Estados Unidos [...] Eles precisam de mais coisas nossas do que nós deles", complementou.
Facções e segurança pública
Os Estados Unidos classificaram facções criminosas como organizações terroristas --incluindo o PCC e o CV--, e o governo Lula é contra por apontar que isso não resolve o problema e abre caminho para interferência norte-americana no Brasil. Renata Lo Prete confrontou a questão com a opinião do povo brasileiro: em pesquisa Datafolha de junho, aproximadamente dois terços da população afirma concordar parcialmente ou totalmente com a categorização.
Lula disse que quem não entendeu a situação são os Estados Unidos. "Quando os EUA falam de terrorismo, eles falam de terrorismo de Estado. Como quando atentaram contra as duas torres americanas, quanto aquele que quer dar golpe de Estado. Não é o caso das facções e do crime organizado no Brasil, que só querem dinheiro", argumentou o petista.
"O que nós temos consciência é de que, aqui no Brasil, tanto o PCC quanto o Comando Vermelho são terroristas para a comunidade brasileira e para os bairros brasileiros, e para as cidades. Mas não é o terrorismo de Estado que os Estados Unidos querem que seja" -- Lula.
Além disso, ele disse que uma série de outras medidas foram apresentadas para os EUA com relação ao enfrentamento ao crime organizado, assim como a PEC da Segurança Pública segue em tramitação.
Redução da maioridade penal
Na discussão da PEC da Segurança Pública, o senador Camilo Santana apresentou a ideia de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos no caso de crimes hediondos -- o que causou oposição em parte da bancada do PT no Senado, visto que historicamente o partido é contra a questão. A pauta é uma das defendidas por Flávio Bolsonaro (PL) em sua campanha pela Presidência da República, assim como de aliados da direita que fazem oposição a Lula. E qual a posição de Lula?
"Sou favorável a reduzir para 16 [anos]. [...] Eu acho que a sociedade brasileira inteira é favorável à punição de qualquer crime hediondo", declarou.
A questão, como explicou, é que isso não deveria estar sendo discutido nessa PEC da Segurança Pública para acelerar a tramitação.
Supremo, Master e Governo Federal
Sobre a crise que atravessa o Supremo Tribunal Federal (STF) em meio ao escândalo do Banco Master, Lula manteve comentários mais discretos sobre a situação ao longo do primeiro turno. Depois da votação, ele chegou a falar sobre o que chamou de "promiscuidade" na Corte. "O senhor diria que o seu desempenho nas urnas no primeiro turno foi afetado pela crise do Supremo?", questionou a jornalista.
"Eu não tenho uma avaliação disso, sinceramente eu não tenho. Obviamente que a extrema direita tenta jogar a Suprema Corte nas minhas costas, porque eles querem cassar o Alexandre de Moraes não pelo caso do Banco Master apenas. Eles querem cassar o Alexandre de Moraes porque ele prendeu o pai do Flávio Bolsonaro, essa que é a questão que está em jogo", disse.
Renata cita a questão de Flávio Dino, aliado histórico de Lula, ter feito um pedido de vista durante a sessão que impediu que tivesse sequência uma possível investigação sobre a conduta de Moraes em torno do caso Master --"que, de fato, candidato, é o ministro até aqui mais implicado com Daniel Vorcaro", complementou a jornalista.
"Era o mais implicado. Era. O Toffoli também está implicado, o André Mendonça está implicado e o Kassio agora também está implicado. Está todo mundo implicado", respondeu Lula, dizendo que não tem como interferir na decisão dos ministros.
"O dado concreto é que não é possível imaginar que a sociedade brasileira vai aceitar que não seja apurado tudo sobre tudo e que se puna quem precisar ser punido. [...] É muito grave. Inclusive, a partir do que aconteceu, a gente vai ter que discutir a necessidade de uma reforma do Poder Judiciário, que aliás a primeira fui eu que fiz. [...] Nós temos que começar a discutir critérios para escolher pessoas, discutir mandato para as pessoas. Essa questão toda trouxe um debate que será irreversível no próximo ano" -- Lula.
Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal indicado por Lula, esteve em festa do Daniel Vorcaro em Londres quando o ex-banqueiro já era investigado. Questionado se pretende manter Andrei no posto caso reeleito, Lula disse que o diretor não é ligado a ele e que não havia necessidade dele ter ido ao evento. "Ele sabe que eu repreendi ele, alertei o ministro da Justiça. Agora, ele é um extraordinário delegado e tem feito um trabalho excepcional". Respondendo à pergunta inicial, Lula disse que primeiro precisa ganhar as eleições para depois escolher quem vai ficar e quem vai sair do governo.
Lula recebeu Vorcaro no Palácio de Planalto em dezembro de 2024, quando ele já era alvo de investigações. "Não era o caso da PF ter avisado o senhor sobre o que pesava contra Daniel Vorcaro no momento que o senhor o recebeu?", questionou Lo Prete. "Ele foi me procurar como todos que estão com problema irão me procurar", respondeu Lula. Segundo o petista, Vorcaro disse que estava sendo perseguido politicamente e ele teria respondido que a situação seria investigada. "E um mês depois o banco fechou, porque ele tava errado. É assim que as coisas acontecem."
Reajuste e endividamento
Por que o Bolsa Família, principal programa social do governo, só foi reajustado 17 dias antes do primeiro turno? É o que perguntou Lo Prete a Lula.
O atual presidente disse que não sabia que o reajuste não tinha sido incluído na proposta de orçamento do próximo ano, mas que resolveu a situação. "É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas. É impensável. Mas aconteceu e eu tomei a decisão: a gente vai dar e vai dar tudo que a gente não deu", disse.
Depois, citando a alta adesão ao Desenrola e ainda os altos níveis de inadimplência, a jornalista perguntou se a equipe de Lula tem remédio para curar, e não apenas resolver a febre, da problemática do endividamento das famílias brasileiras. Lula citou que agora, no Desenrola 3.0, a União vai comprar dívidas de brasileiros em acordos com bancos, e falou sobre o perdão das dívidas aos MEIs. Além disso, citou a liberação de um crédito para quem zerou as dívidas "recomeçar".
Sobre a dívida pública, Lula reconheceu "estar preocupado", mas não muda sua rota -- e diz que segue apostando na microeconomia para "fazer o dinheiro rodar na mão do povo".
Reta final da eleição
O eleitorado brasileiro irá escolher o próximo Presidente da República no último domingo do mês, dia 25. Há dois candidatos na disputa neste segundo turno: Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT).
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro ficou à frente com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. A taxa de abstenção foi de 21,08%, correspondente a 33,4 milhões de eleitores que não compareceram às urnas.
Nas pesquisas de intenção de voto do segundo turno, os candidatos aparecem em empate técnico. No segundo levantamento Datafolha divulgado nesta quinta-feira, 15, Flávio aparece com 51% dos votos válidos (antes 52%) e Lula com 49% (antes 48%). O levantamento, registrado no TSE sob o protocolo BR-00466/2026, foi realizado entre os dias 13 e 15 de outubro.
Até o momento, Flávio Bolsonaro e Lula ainda não debateram diretamente, com os dois faltando a todos os debates promovidos no primeiro turno e participando apenas de entrevistas únicas. Mas isso deve mudar em breve. Há dois debates marcados para o segundo turno: o primeiro está marcado para domingo, dia 18, promovido pela Band; já o segundo acontecerá na véspera da eleição, no dia 23 de outubro, promovido pela Globo.




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