Migração de votos para Flávio e comparecimento nas urnas: os desafios de Lula no 2º turno
Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) disputam o segundo turno das eleições pela Presidência da República
Um resultado inesperado. É o que falou Lula (PT) em seu primeiro discurso após a apuração dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo, 4, onde Flávio Bolsonaro (PL) o superou numericamente. Agora, para conseguir emplacar o ‘tetra’ como Presidente da República, o petista enfrentará duros desafios durante as próximas três semanas em um cenário mais favorável de migração de votos de outros candidatos para Flávio. Para especialistas ouvidos pelo Terra, Lula terá que focar em virar votos, persuadir indecisos e garantir o comparecimento de seus eleitores na nova votação.
Flávio teve 47,03% (56.104.422) dos votos neste domingo, enquanto o presidente Lula (PT) recebeu 45,16% (53.878.385). Para Guilherme Mazieiro, consultor executivo da Oficina Consultoria, politicamente será difícil para Lula reverter esse quadro. “Impossível não é, porque a gente sabe que na política acontece de tudo. Serão três semanas de campanha intensa, possivelmente muito agressiva das duas partes”, aponta.
Na avaliação de Mazieiro, essa não deixa de ser uma eleição para validar, ou não, o que foi feito até aqui no governo Lula. “E o recado que está sendo dado é que o eleitor quer trocar. Claro que ainda temos um segundo turno, mas a gente não consegue projetar um caminho muito fácil para o presidente Lula”, comenta.
Entre os principais desafios, ele elenca o do petista manter a militância ativa enquanto disputa os eleitores dos concorrentes do “andar de baixo” que são mais próximos de Flávio – como Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). Em paralelo, ele também considera o movimento de desgaste da imagem do Flávio, visto que virar votos da oposição será ainda mais difícil.
Flávia Bozza, cientista política da ESPM, também entende que o cenário é mais favorável para Flávio no segundo turno justamente pela possibilidade de maior migração de votos dos candidatos alinhados ideologicamente com a direita ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Não é possível acreditar que todos esses votos serão transferidos, porque não serão. A gente sabe que a gente tem ali dois candidatos com uma rejeição muito alta. Mas a tendência é que a gente consiga ali identificar um número maior de migração para o Flávio do que para o Lula”, pontua.
Além disso, ela pondera que não é só a questão ideológica que conta – e que, considerando as últimas movimentações com relação ao escândalo do banco Master, Flávio tem um teto de vidro que não pode ser ignorado.
Persuadir os indecisos
Nesse primeiro turno, as pessoas que não foram votar, ou votaram em branco ou nulo, somaram 24,63% do eleitorado na disputa presidencial. Foram 39,4 milhões de votos “perdidos” e que, agora, os candidatos terão que batalhar para que sejam revertidos para os seus lados.
Para Flávia Bozza, um dos principais movimentos que Lula terá que fazer nesse segundo turno é persuadir justamente esses indecisos enquanto ativa a importância do voto no eleitorado.
“É você convencer os eleitores de que as vontades deles, os desejos deles para o país, para a sociedade, para a sua vida, podem ser traduzidos em um voto. E que pode ter um candidato que efetivamente vai fazer com que a sua vida chegue mais próximo do que ele deseja, enquanto outro candidato vai fazer com que a sua vida se distancie mais daquilo que você deseja”, explica.
Depois, com o eleitor convencido de que vale a pena votar, a persuasão vem no ponto de mostrar ser o candidato que efetivamente é capaz de traduzir a sua demanda em ação política, em políticas públicas: “A gente sabe que vai aumentar o número de indecisos ao final do primeiro turno, vai ter lá um eleitorado que vai precisar tomar uma segunda decisão, já que a sua primeira decisão não foi contemplada”.
Em paralelo, Sérgio Simoni Jr., professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), aponta também o desafio que Lula terá em garantir o comparecimento de eleitores no segundo turno. “Particularmente, pessoas de baixa renda ou que têm uma dificuldade de transporte para votar na eleição, com dificuldade financeira, que é um grupo inclinado para o Lula para o PT, esse grupo de pessoas tende a abster-se, a não comparecer. No segundo turno geralmente a abstenção cresce”, explica.
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