Eleições: vitórias no primeiro turno cobram da extrema-direita compromisso que ela ainda não assumiu com a democracia
Uma vez terminadas as eleições, para a manutenção da democracia, será preciso cuidar da solidez das instituições para muito além de garantirem eleições limpas
No primeiro turno de 2026, o PL e a extrema-direita obtiveram ampla vitória, elegendo governadores, as maiores bancadas do Congresso e levando Flávio Bolsonaro à frente de Lula para o segundo turno. Diante do histórico golpista do grupo em 2023, analistas alertam para o risco à solidez institucional. Espera-se da extrema-direita um duplo compromisso democrático: a aceitação do resultado caso seja derrotada ou, em caso de vitória, o respeito irrestrito às regras do jogo e aos poderes constituídos.
O primeiro turno das eleições de 2026 terminou com uma vitória contundente do Partido Liberal (PL), que representa a extrema-direita no Brasil. Flávio Bolsonaro saiu à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, na disputa para o segundo turno, com mais de 47% dos votos válidos, e seu partido fez as maiores bancadas da Câmara e do Senado, além de já ter garantido cinco governos estaduais.
Cientistas políticos já previam um cenário como esse. Mesmo com as pesquisas indicando números melhores para o PT, haveria, nos últimos dias, uma migração de votos movida pelo antipetismo e por um descontentamento nutrido em boa parte por expectativas de consumo não satisfeitas. Isso mesmo em um momento de inflação e desemprego baixos. Ainda assim, a disputa segue aberta para o segundo turno.
Até agora, o processo eleitoral transcorreu sem incidentes graves
Eleições não constroem sozinhas a democracia. Mas, para citar apenas duas referências essenciais da Ciência Política, Joseph Schumpeter e Adam Przeworski, eleições livres são, na concepção mínima de democracia, uma das condições necessárias para que ela exista: um arranjo em que líderes disputam votos periodicamente e os derrotados aceitam perder.
Notadamente, trata-se de uma visão instrumental e, portanto, bastante contestada por quem espera da democracia mais do que eleições. Mas é justamente por isso que vale lembrá-la no dia seguinte ao primeiro turno. Poder escolher governos pelo voto, respeitando o resultado, sem que ninguém pegue em armas ou faça vigília em quartel, não é pouca coisa.
Desde 1989, ano da primeira eleição presidencial direta após o fim da ditadura, o Partido dos Trabalhadores ocupa um dos polos da disputa, sempre entre os dois primeiros colocados. Em sete das dez eleições, o candidato do PT à Presidência foi Luiz Inácio Lula da Silva, vitorioso em três delas e agora de novo no segundo turno. Nas últimas três eleições, incluindo a atual (2018, 2022 e 2026), o outro lado da disputa foi ocupado pela extrema-direita, representada por Jair Bolsonaro nas duas primeiras e, agora, como ele está em prisão domiciliar, por seu filho, Flávio.
Em 2018, Jair Bolsonaro saiu vencedor. Em torno dele, a direita se reorganizou, sobretudo a partir de agendas morais conservadoras, como a defesa de valores cristãos, o apoio à ditadura militar e o combate aos direitos sexuais e reprodutivos, com um forte componente de reforço dos papéis tradicionais de gênero.
Em 2022, Lula, que havia sido preso acusado de envolvimento com escândalos de corrupção, candidatou-se novamente e, dessa vez, saiu vitorioso, derrotando Jair Bolsonaro, que buscava a reeleição. Desrespeitando a democracia mínima, o dia seguinte das eleições seria marcado por estradas e quartéis ocupados por correligionários de extrema-direita, num sinal claro de não aceitação da derrota.
Contidos, voltaram após a posse, num ato orquestrado em 8 de janeiro de 2023, quando grupos organizados de bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes, no Distrito Federal, repetindo o movimento da invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, nos Estados Unidos. Os atos de vandalismo no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no Supremo Tribunal Federal levaram centenas de partidários de Bolsonaro a receberem condenações.
Dada a gravidade do ato, o próprio Bolsonaro foi condenado à prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como líder da organização criminosa que tentou o golpe de Estado, ao lado de militares de alta patente e de um deputado federal.
Pesquisas erráticas
Esta será a terceira eleição em que petistas e bolsonaristas disputarão a presidência de forma acirrada até o segundo turno. Neste 2026, até o dia da eleição e ao longo de toda a campanha, as previsões das pesquisas não se sustentaram de forma contundente por mais de uma semana. Os estudos em Ciência Política trazem algumas pistas.
Sabe-se que o PT tem um núcleo duro que garante cerca de 30% dos votos e outro lado, o antipetismo, carrega mais cerca de 30%. Nem todo esquerdista é petista e nem todo antipetista é bolsonarista, mas os grupos se confundem.
Artigos mais recentes dão conta de que a identificação com a direita também se consolidou entre os eleitores, para além do bolsonarismo. E algumas evidências mostram que as mulheres têm uma preferência mais intensa por Lula, enquanto os evangélicos têm uma preferência ainda mais intensa por Bolsonaro - seja o pai ou o filho.
Segundos turnos são difíceis de alterar o resultado do primeiro (ainda que seja possível). O padrão de que incumbentes tinham mais chance de vitória vem mudando e, na América Latina, a maré rosa vem sendo substituída por uma onda de candidatos vitoriosos de extrema-direita, como ocorreu na Argentina e no Chile.
Uma vez terminadas as eleições, para a manutenção da democracia, será preciso cuidar da solidez das instituições para muito além de garantirem eleições limpas. Em um contexto em que a extrema-direita, que atacou as instituições em diversas ocasiões, além de contumaz negacionista da Ciência (tal como ocorreu na pandemia), terá as maiores bancadas do Congresso e pode somar a elas a Presidência.
Assim, o trabalho dessas instituições, compostas por pessoas com diferentes preferências políticas, torna-se ainda mais decisivo. Cabe a elas garantir regras que valham para todos e que permitam, mesmo que minimamente, a independência dos três poderes, eleições limpas, periódicas e com opositores políticos que possam vencer ou perder.
Zelo pela democracia, na vitória ou na derrota
Atento à América Latina, mas bastante preocupado com a situação dos Estados Unidos, no último mês de maio, em uma conferência em Paris, o mesmo Przeworski da concepção minimalista de democracia chamou a atenção para dois pontos. Segundo o cientista político, não podemos considerar que a democracia deixa de existir quando é eleito um candidato de quem não gostamos; ao contrário, isso evidencia que o sistema está em ordem.
Por outro lado, ele observou que, nos EUA, a erosão democrática no segundo mandato de Trump vem eliminando a possibilidade de eleições limpas, periódicas e com aceitação da derrota. Fica como alerta para o caso brasileiro.
Só no dia 25 de outubro saberemos quem será o próximo presidente do Brasil. Seja quem sair vitorioso, a regra é a mesma: a escolha precisa ser limpa e quem perder precisa aceitar o resultado. Nesse ponto, os dois lados não chegam com o mesmo histórico. Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas e, mesmo assim, petistas não foram a Brasília depredar o Congresso. Não se poder dizer o mesmo da extrema-direita. Na última vez em que perdeu, o desfecho foi o 8 de janeiro de 2023, quando nem a concepção minimalista de democracia foi respeitada.
Por isso, o compromisso que se espera da extrema-direita agora é duplo. Se perder, precisa aceitar a derrota. Se vencer, que governe dentro das regras que permitiram sua vitória, respeitando o Judiciário, a imprensa, a oposição e a possibilidade de ser derrotada daqui a quatro anos. Um governo democrático precisa ir além disso, garantindo que diferentes grupos tenham acesso ao poder e que a desigualdade diminua. Mas, sem esse primeiro passo, nenhum outro é possível, e é ele que a extrema-direita precisa garantir.
Este texto é fruto de uma parceria do The Conversation Brasil com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Débora Thomé terá um de seus trabalhos apresentado no 50º Encontro Anual da ANPOCS, que ocorre entre 7/10 e 9/10. Confira a programação completa aqui.
Débora Thomé não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.