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Professor não pode ter celular pessoal em sala, diz Rosely Sayão

Para psicóloga, mesmo situações menos graves do que aconteceram na St. Nicholas School podem acabar violando a privacidade das crianças

20 fev 2020 - 09h31
(atualizado às 15h58)
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A psicóloga e colunista do Estado, Rosely Sayão, defende que professores não possam manter seus celulares pessoais em sala de aula. Ao comentar o caso do docente da St. Nicholas School, preso ontem por filmar suas alunas por baixo da saia, ela argumenta que ao lidar com crianças e adolescentes é preciso ter cuidado extremo. "Nem estou pensando no pior, às vezes uma brincadeira entre eles e se tira uma foto do grupo todo no celular do professor. Isso já é uma violação de privacidade e adolescentes e crianças não sabem defender a sua privacidade", diz. Na entrevista a seguir, ela fala da importância justamente da discussão sobre privacidade entre pais e filhos.

Como os pais da St. Nicholas devem proceder?

Os pais devem pedir reuniões com a direção para entender se eles ainda mantêm a confiança na escola. Se perderem a confiança, é melhor transferir o filho para outro lugar porque a confiança é essencial nessa relação. E os pais precisam perguntar como os professores são contratados, se é permitido usar celular em sala de aula, mas isso raramente se pergunta. Pais sempre querem saber de Enem, vestibular, e esses outros detalhes hoje são muito importantes. A regra tem que ser a mesma para todos, se aluno não pode usar celular, professor também não pode.

Por que essa questão do celular é importante?

A escola até pode disponibilizar celulares para um trabalho em sala, mas o celular pessoal do professor não pode estar com ele porque ninguém tem controle a não ser a própria pessoa. E como se lida com crianças e adolescentes, precisamos de muito cuidado. Eu nem estou pensando no pior, às vezes uma brincadeira entre eles, sem segundas intenções, uma foto do grupo todo no celular do professor, isso já é uma violação de privacidade. Adolescente e criança não sabe defender a sua privacidade

A discussão da privacidade se torna crucial em casos como esse?

Sim, mas o que tem sido difícil é ensinar o limite entre privacidade e convívio social, tudo colabora para destruir isso, reality shows, redes sociais. E os pais muitas vezes nem pensam, publicam fotos dos filhos sem perguntar o que eles acham, isso também é invasão de privacidade. É difícil praticar invasão de privacidade com os filhos e depois ensinar proteger privacidade. Não se deve beijar e abraçar o filho, se ele já entende, sem falar antes: estou com vontade de te dar um beijo, posso? Para a criança aprender que, para beijá-la, é preciso pedir. Isso ajuda a criança a saber que há limite e é preciso conquistar a privacidade.

Há o questionamento se é possível ninguém ter percebido nada na escola já que o professor dava aulas havia 20 anos lá. O que acha disso?

Talvez a escola não tenha admitido que isso poderia existir. Você só ouve aquilo que sabe que existe, o que você não conhece você não vê. Não dá pra a escola fechar os olhos e achar que isso não existe, muitas falam 'drogas aqui não têm', mas sempre tem. Mas eu acho importante não crucificar a escola, a escola representa o mundo para os mais novos, tudo que tem no mundo terá lá. Claro que em um menor grau, de maneira mais controlada, mas nem tudo é controlado.

Acha que faltou um monitoramento maior do professor?

Não se trata de ficar perseguindo professor, controlando a vida totalmente. Do mesmo jeito que os pais precisam ter confiança na escola, a escola precisa confiar nos seus representantes. Mas é uma confiança tutelada, não é confiar cegamente e deixá-los soltos, de vez em quando alguém vê as aulas, como está acontecendo.

Os pais, em geral, devem conversar sobre o que aconteceu na St. Nicholas com os filhos?

Muitos deles estão ouvindo essas notícias e têm as versões deles. É preciso uma boa conversa, sempre começar pela escuta, do ponto de vista de quem está sendo ouvido. Não adianta fazer discurso moralizante, isso não é educativo, conversar é debater com o pensamento do outro.

Estadão
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