IA, redes neurais e big data: como 'medicina do amanhã' deve ser aprendida pelos futuros médicos
Diretrizes da graduação no Brasil e estudo internacional apontam saúde digital como competência necessária para exercício da profissão; tecnologia avança no currículo de instituições nacionais
Uma declaração de consenso assinada por 211 especialistas na renomada revista científica JAMA apontou que todo médico em formação deveria desenvolver 19 competências distintas em saúde digital. O artigo, de 2025, confirma uma necessidade que, aos poucos, é percebida por instituições de ensino, com a introdução de inteligência artificial, bioestatística, wearables, internet das coisas e outras ferramentas e plataformas nos cursos de graduação.
No Brasil, em setembro, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina incluíram as tecnologias digitais como competências essenciais. Os futuros médicos devem, por exemplo, "promover inovações tecnológicas relacionadas à assistência e à gestão em saúde de forma crítica, ética e eficiente".
Pela primeira vez, diversas ferramentas e plataformas digitais foram citadas nas diretrizes. Entre elas, estão telemedicina, aprendizado de máquina, big data (análise de dados em larga escala) e redes neurais artificiais (modelos computacionais que identificam padrões a partir de grande volume de dados).
Além disso, fala-se no uso desses recursos "na otimização do cuidado, integralidade da atenção e ampliação do acesso aos serviços". As novas normativas foram homologadas pelos Ministérios da Educação e da Saúde e, portanto, devem orientar os cursos de graduação da área no Brasil.
Também coordenadora do Núcleo de Telessaúde da UFPE, a professora classifica a pandemia como uma "divisora de águas" na saúde digital. Para ela, há uma maior incorporação da tecnologia nos cursos de medicina e com transformação mais profunda após as novas diretrizes curriculares, mas considera ainda "insipiente" no geral.
"O perfil desse médico que vai chegar no mercado de trabalho é totalmente de alguns anos atrás", avalia. Nesse cenário, aponta também a necessidade de uma formação digital forte dos próprios docentes, visto que muitos não viveram essa transformação da saúde. "É um desafio grande", resume.
Ela aponta que os médicos precisam passar a olhar softwares como dispositivos aplicados a seu campo de atuação, seja na reabilitação, seja no prognóstico, seja em hospitais, seja em consultórios, seja para cirurgias, seja para exames. "Pode usar uma ferramenta de IA que vai correlacionar os sintomas com o estado clínico do paciente, e ter uma hipótese diagnóstica formada", exemplifica.
Outra aplicação que menciona é na prescrição de medicamentos. "Pode utilizar ferramentas que vão apoiar melhor na seleção do tipo de droga, até com informações de interações medicamentosas", conta. Há, ainda, na UFPE, a possibilidade de fazer uma parte do internato dos últimos anos de curso em saúde digital.
Nos últimos anos, a professora percebe uma procura muito maior no curso eletivo da UFPE. Além disso, as aulas, que eram inicialmente mais básicas, hoje envolvem discussões mais profundas de terapias digitais.
Ela conta que estudantes que veem a área até como uma oportunidade de empreender, alguns depois envolvidos na criação de startups ou inseridos em empresas de desenvolvimento de tecnologias médicas. "Os alunos mudaram muito de perfil. Tem aluno que entra em medicina hoje com nível muito mais elevado no uso das tecnologias."