A Amazônia inconquistável

18 set 2019
15h18
atualizado em 26/9/2019 às 17h39
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Já se observou que enquanto a Natureza tornava-se dócil e benigna para o europeu - fazendo com que Rousseau e Goethe enaltecessem-na num culto literário -, aqui entre nós, que nos deparávamos com ela crua e bruta, mantinha-se a visão e a percepção de ela ser terrível, ameaçadora. É “o inferno verde” amazônico, um monstro florestal de mais de 5 milhões de km2, sobrevivência das eras primitivas da Terra. Seu corpo é de troncos, folhagens, cipós e ramagens,  no interior do qual, em suas artérias,  deslizam , caudalosos, rios diluvianos - o “Mar dulce” de Pinzón - , onde vive  uma fauna paleozoica. Nada tem, pois, do tranquilo Jardim de Hespérides. Sábios de todo o mundo, de Alexandre von Humboldt a Martius, de Wallace a Agassiz, fixaram-se sobre ela, a Amazônia, sem jamais entendê-la em seu todo.

Foto: Reprodução

Na sua direção, nos tempos da Conquista, atrás da mítica riqueza do El Dorado, velejou Francisco Orellana, que, entre 1541-2,  nas margens do Solimões, viu, com seu olho de fantasista medieval, as mitológicas guerreiras, as amazonas. Lá, em 1561, o doido do Lope de Aguirre, feito rei pelos seus seguidores, los marañones, por primeiro imaginaram ali um estado independente da Espanha. Entre tiros de bacamarte, espadaços, flechaços e bordunaços, em lutas que se arrastaram por mais de século, a Amazônia - pelos tratados de Lisboa de 1701 e de Madri de 1750 -, restou portuguesa.

Em 1751 chega o irmão de Pombal, Mendonça Furtado. Expulsa os jesuítas em nome da “liberdade dos silvícolas”, lusitaniza o nome das aldeias, traz açoritas e os espalha de Macapá a Belém, estimula a extração das “drogas do sertão” e faz os caboclos plantarem algodão, café, cana-de-açucar e arroz. Mas até o despotismo ilustrado, aos poucos,  recuou frente ao Ciclope selvagem. Com o tempo, o chuá das águas e a mesmice da paisagem afeta a todos. Uma patetice sensual, lânguida, que desmilingue o povo e as autoridades, avilta-lhe as qualidades, transforma-os em deploráveis felás, em servos da natureza. A Amazônia não se atrela a nada nem a ninguém.

Euclides da Cunha que andou por lá em 1905 em missão, viu no caudal do Amazonas um antipátria, um devora-pátria. Pareceu-lhe,  o rio e seus afluentes, jibóias fabulosas  que, em seu amplexo tropical, abocanhavam as terras do solo nacional a razão de 3 milhões de metros cúbicos de sedimentos/dia, afundando-as no oceano.

Sua vastidão, por sua vez, quase que ilimitada, provoca sentimentos confusos e contraditórios. Excita a conquista. Não há regime, governo ou  homem poderoso que não a queira submissa, especialmente depois que o decreto de 1867 - tão celebrado por Tavares Bastos -,  abriu-a à navegação do mundo e, em seguida, à extração do “ouro negro”, a borracha.

Gigantes capitalistas, como Henry Ford e Daniel Ludwig, tentaram domá-la. Um pela Forlândia e o outro pelo Projeto Jari. O pode-tudo regime militar, por sua vez, na década dos anos 70 tratou de cortá-la com a Transamazônica com pouco retorno. Agora é uma multidão de gente miúda - colonos, criadores, garimpeiros, seringueiros, madereiros, mineradores, contrabandistas, aventureiros de todas as procedências - que assediam-na de todos os quadrantes. São formigas ferindo um mamute pré-histórico. Desesperados com a resistência, Neros broncos atearam-lhe fogo, tendo a viola sertaneja como lira. Recorrendo às queimadas incineraram não muito tempo atrás, em Roraima, em apenas três meses, mais de 37 mil km2 - um Sergipe inteiro. Mas a Amazônia, como nas vezes anteriores, irá se refazer para voltar a ser um jardim paleozoico a margem da História onde o homem continuará a ser um incômodo.

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Fonte: Especial para Terra
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