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Educação

Existe uma diferença imensa entre estudar no exterior e imigrar, diz Andrea Tissenbaum

Para especialista, pós no exterior deve ser vista como uma chance de aliar maturidade profissional a qualificação e mindset internacional

18 jul 2021 05h11
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Por muito tempo, eles foram a geração da moda, vistos como crianças conectadas desde o berço e que priorizavam o bem-estar em vez da corrida por dinheiro, que marcou as gerações dos seus pais e avós. O tempo passou para os millennials, porém, que agora são jovens adultos, com idade entre 27 e 38 anos, e estão angustiados com o futuro.

De acordo com um estudo feito em 2020 pela Deloitte, empresa global de serviços de auditoria, consultoria e assessoria financeira, a principal preocupação de 41% dos millennials brasileiros é não conseguir um trabalho. A pesquisa ouviu 22.928 pessoas em 45 países, abordando os millennials, nascidos entre 1983 e 1994, e a geração Z, que veio ao mundo entre 1995 e 2003.

O estudo mostra um contraste entre as preocupações dos millennials brasileiros e os estrangeiros, que têm como principal motivo de inquietação questões ambientais e relacionadas à sustentabilidade. A apreensão dos millennials brasileiros com o futuro pode ser uma das razões que levam ao aumento da busca por cursos de pós no exterior. Agências de intercâmbio registraram um aumento de 25% a 30% nessa procura por ano desde 2018.

"Quando parte para a pós fora, o aluno está mais maduro, já tem alguma experiência profissional. Essa qualificação se torna um diferencial. Além disso, tem a possibilidade de fazer um estágio em uma empresa ou organização local, ampliar sua rede e ganhar um mindset internacional tão valorizado no mercado de trabalho", diz Andrea Tissenbaum, consultora especialista em educação internacional e autora do Blog da Tissen, do Estadão, sobre estudar no exterior.

Ela faz uma ressalva e um alerta. "Existe uma diferença imensa entre estudar no exterior e imigrar. Infelizmente, muita gente começa seu projeto com a ideia de nunca mais voltar para o Brasil. É importante dizer que o cotidiano em outro país muda muito quando o status de estudante internacional termina. A vida perde o glamour e nem sempre é tão fácil quanto se planejou".

Confira a seguir a entrevista completa com a especialista.

O que é preciso levar em conta ao decidir fazer uma pós fora?

Ter uma graduação bem-feita aqui no Brasil e alguma experiência profissional, pode ser um estágio, se estiver recém-formado, são quesitos importantes. Além disso, a candidatura deve ser feita conforme as possibilidades e levar em conta o custo de vida e a chance de trabalhar durante o curso para ajudar com as despesas.

Quais os erros mais comuns ao escolher uma pós no exterior?

O erro mais recorrente é achar que só as instituições mais famosas agregarão valor à formação. Outro erro é não explorar temas paralelos à área de interesse inicial e, por conseguinte, os currículos dos cursos. Há um número imenso de oportunidades fora do Brasil que precisam ser avaliadas, porque podem oferecer uma capacitação profissional que preencherá exatamente o que ele ou ela precisa para se qualificar bem profissionalmente. Dá trabalho, mas vale a pena fazer uma pesquisa exaustiva.

Como escolher a agência de intercâmbio ideal para auxiliar na inserção em uma pós graduação no exterior? E em que situações elas não são necessárias?

Se o aluno vai trabalhar com uma agência em seu processo, o ideal é que possa orientá-lo academicamente e profissionalmente. Falo de ajudar a analisar o currículo do curso, a conhecer o corpo docente e explorar as possibilidades que o programa escolhido abre para desenvolvimento de carreira.Algumas agências representam grupos de universidades de certos países, como Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Elas se tornam interessantes porque podem facilitar a conversa do aluno com as instituições de ensino. Outras, especializadas em MBAs e no aprimoramento oferecido pelos programas, especificamente a pessoas com experiência profissional, podem ser excelentes apoios na candidatura. No entanto, os estudantes que desejam seguir carreira acadêmica, como mestrados stricto sensu e doutorados, devem manter um diálogo próximo com professores que os conhecem e já os orientaram. É que nesses casos a escolha do programa estará ligada ao tema da pesquisa que o aluno quer fazer e, por isso, relacionada aos docentes das instituições de ensino internacionais que poderão orientá-lo.

Existem áreas nas quais uma pós no exterior não tem equivalência no Brasil? Ou seja, áreas nas quais a excelência só pode ser obtida no exterior?

Nas que envolvem tecnologia, a pós-graduação no exterior tem uma importância indiscutível, não só pelo vasto conhecimento dos pesquisadores, como também pelos equipamentos que o aluno poderá usar. Penso que os mestrados em Biomédicas, Ciências da Computação, Ciências de Dados, Engenharia e Tecnologia da Informação, têm uma excelência incomparável. Nessas áreas, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido são as melhores escolhas de destino por concentrarem uma incrível quantidade de profissionais altamente qualificados nas universidades. Ao mesmo tempo, mestrados internacionais em Economia, Negócios, Animação, Games, Cinema e Produção Cultural também oferecem um diferencial imenso aos alunos brasileiros. Novamente nesses casos a riqueza de conhecimento ou produção acadêmica internacional é imbatível. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Nova Zelândia continuam sendo excelentes destinos e diversas universidades oferecem cursos fabulosos. Nomear os melhores cursos pode levar o aluno a se prender a determinados programas e perder a oportunidade de encontrar qual é o mais adequado a suas necessidades e a seu perfil. Por exemplo, alguns cursos na Europa, como o Master Kinoeyes em Cinema, e alguns mestrados oferecidos pela ESCP Business School levam o aluno a estudar em três ou quatro países. Nessas áreas, a exposição a outras culturas é fundamental para o desenvolvimento profissional.

Quais são as principais vantagens em buscar uma pós Master's Degrees no exterior?

O aluno está mais maduro, já tem alguma experiência profissional e nesse momento vai atrás de se especializar em uma determinada área. Essa qualificação, que já é mais avançada, se torna um diferencial que abre portas profissionalmente. Além disso, tem a possibilidade de fazer um estágio em uma empresa ou organização local (oferecido por vários programas), ampliar sua rede e ganhar um mindset internacional tão valorizado no mercado de trabalho.

Que países vêm despontando como destinos mais procurados para fazer uma pós? A China tem atraído esses estudantes, pela expansão de sua influência?

De um modo geral, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, França, Alemanha e Holanda são os países mais procurados. Vale ressaltar que os custos na Europa para um mestrado são bem mais baixos que no restante do mundo e isso é bem atraente para os alunos. A procura pela China e outros países da Ásia ainda é pequena pelos brasileiros, apesar dos programas serem excelentes e haver uma oferta interessante de bolsas. De um modo geral, quando partem para países mais distantes, a Nova Zelândia e a Austrália seguem sendo as preferências.

Apesar de vários alunos de pós desejarem morar no exterior, você vê situações em que o retorno ao Brasil é recomendado?

Existe uma diferença imensa entre estudar no exterior e imigrar. Infelizmente, muita gente começa seu projeto de estudar fora com a ideia de nunca mais voltar para o Brasil. É importante dizer que o cotidiano em outro país muda muito quando o status de estudante internacional termina. Nesse momento, quando a realidade de ser um estrangeiro realmente assenta, a vida perde o glamour e nem sempre é tão fácil quanto se planejou. Penso que na decisão de permanecer no exterior o estudante deve pesar se as condições oferecidas são boas o suficiente ou melhores do que seriam caso decidisse retornar ao Brasil. Ficar em subcondições, sentindo-se isolado ou mesmo excluído da possibilidade de realmente criar uma vida onde possa prosperar como indivíduo e profissionalmente, não é uma boa ideia. Nessas situações, em que a integridade de alguma forma é ameaçada, voltar para o Brasil é recomendável, especialmente porque essa pessoa terá uma rede de contatos internacional e uma formação diferenciada, que poderá abrir portas e alavancar a carreira.

Estadão
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