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Como se preparar para a aprendizagem contínua? 'Escola tem de ser um lugar para sempre'

Profissionais dizem que manter estudos é um diferencial, mas escolas e currículos ainda devem avançar em lifelong learning

23 fev 2024 - 03h10
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Pessoas de diferentes formações e gerações incorporaram o conceito de lifelong learning a seus cotidianos. Em comum, elas têm o desejo contínuo de aprendizagem e aprimoramento profissional.

Fernando Murad Loli, gerente regional de vendas na Mccain, é graduado em Administração de Empresas pelo Mackenzie e iniciou sua carreira em consultoria, área que demandava atualização frequente. "Quando saí da consultoria e fui para a indústria, resolvi fazer um MBA em Gestão Estratégica de Varejo, na USP (Universidade de São Paulo), que me ajudou bastante a entender a nova área profissional e adquirir uma visão estratégica do mercado de vendas."

Isso foi há dez anos. Hoje, Loli se vê ainda como um profissional de vendas, mas que precisa sempre se reciclar. "Aquele modelo de vendedor tradicional vai ficar para trás. Muito coisa atualmente é feita no digital."

Por causa disso, ele buscou um MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais e percebeu uma diferença grande do momento atual para o de sua especialização anterior. "Mudou bastante tudo, desde a forma de atuação dos professores até o perfil dos alunos", diz.

De acordo com ele, o curso tem ajudado muito, especialmente para lidar com clientes que já estão nesse nicho digital, como as plataformas de entrega de alimentação. "É preciso conhecer e disseminar o conhecimento para a equipe que você comanda."

Guinada na carreira

A executiva de Comunicação Fabiana Fragiacomo é um exemplo de como o lifelong learning pode influenciar mudanças de rumo na trajetória profissional.

Formada em Comunicação Social pela ESPM, ela fez especialização em Marketing e iniciou uma carreira no mercado financeiro. Como gostava muito de inovação, fez uma imersão no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Quando retornou ao Brasil, foi trabalhar no Instituto Ayrton Senna como head de inovação.

Recentemente, criou uma empresa própria, a Gloppies, especializada em trabalhar com adolescentes.

"Desde a infância, eu tenho natureza de educação continuada. É a criação de um portfólio de conhecimento, por gosto e necessidade", afirma ela.

Aos 53 anos, Fabiana vê a constante atualização como uma necessidade para as pessoas da sua geração que desejam ainda se manter muito ativas. "Precisamos alinhar essa questão de relacionamento com a nova geração. Vivemos em um mundo muito disruptivo."

Para ela, os currículos que parte das instituições de ensino aplicam hoje estão formando desempregados. "A escola tem de ser um lugar para sempre. Todo lugar pode ser de aprendizagem. Precisa ter a mente aberta e entender que aprendizagem é ampla."

Sempre em sala de aula

Com formação original em Contabilidade, Regina Lee, de 51 anos, nunca deixou de estudar. Fez pós-graduação em Mercado Financeiro pelo Mackenzie e uma nova graduação, desta vez em Direito. "Menos de um ano depois de formada fui fazer pós-graduação em Direito Penal e agora vou começar outra, em Direito Militar na Escola Paulista de Direito", destaca.

Por fim, um exemplo de que a idade não é limite para o aprendizado é o do psicanalista Wilson Cerqueira.

Aos 76 anos, ele cursou a Academia Militar das Agulhas Negras, de onde saiu como capitão, trabalhou na indústria automobilística, fez pós-graduação em Desenvolvimento de Recursos Humanos na FGV e hoje é proprietário de uma escola de formação de psicanalistas clínicos e consultor em Recursos Humanos.

"Existe um problema estrutural na educação brasileira. Educação continuada é fundamental, precisava ser uma mentalidade. Devemos educar para a educação continuada. Mas as instituições de ensino têm a responsabilidade social com a qualidade dos profissionais que colocam no mercado."

Como se preparar para o que ainda está por vir

  • Soft skills para o futuro

Publicado pelo Fórum Econômico Mundial, o relatório "The Future of Jobs 2020?? apresenta as perspectivas para o mundo do trabalho até 2025.

O material, como mostrou o Estadão no ano passado, indica que a lacuna entre as aptidões exigidas pelo mercado e as habilidades daqueles que buscam emprego tem sido um problema e continuará sendo um ponto de atenção nos próximos anos. Por isso, a velocidade com que o profissional volta a aprender é importante no processo.

O documento aponta que os empregadores procuram um conjunto de conhecimentos que vão além da técnica, envolvendo, também, o comportamento. São as famosas soft skills, fundamentais para o sucesso profissional. Inteligência emocional, flexibilidade, autogestão e criatividade são algumas das capacidades consideradas essenciais no momento.

  • Visão dos especialistas

De acordo com Caroline Petian, gerente acadêmica da Harven Agribusiness School, em um mundo corporativo cada vez mais proativo e sistêmico, é preciso olhar para todos os lados, se relacionar e resolver conflitos cotidianamente.

"Propor desafios para serem resolvidos de forma coletiva, a partir de metodologias ativas. Criar microuniversos para entender macrouniversos."

Para João Luis Barroso, diretor de Educação Executiva dos Núcleos da FGV, o mundo está tão dinâmico, os conceitos e as ferramentas se atualizam tão rápido, que quem não se qualificar "dificilmente se encaixará no mercado".

Como indicam os especialistas, é isso que tem ampliado o mercado de educação corporativa, ou In Company, e mesmo a adoção de escolas próprias por hospitais, por exemplo.

  • Sem limitação de idade

Essa nova realidade prevê uma vida mais longa de estudos, que acompanha também uma vida mais longa no mercado de trabalho.

"Ao contrário do que havia no passado, hoje temos muitas pessoas com mais de 70 anos ainda ativas profissionalmente. E as instituições de ensino precisam estar estruturadas para essa situação. Investir em cursos curtos, de imersão, em mentorias", destaca Caroline.

  • Sem limitação de renda

E, além de opções não presenciais, não faltam modelos que não trazem custo para o interessado desenvolver o lifelong learning.

É o caso da plataforma Coursera, voltada para a capacitação de profissionais da área de tecnologia. A iniciativa possui parceria com empresas como Google e IBM e mais de 200 universidades, entre elas, Harvard.

A própria universidade norte-americana também tem um portal disponível com cursos online gratuitos: a Harvard Online Courses, com mais de 100 opções.

Negócios e gestão, desenvolvimento educacional e organizacional, artes, programação, análise de dados e humanidades estão entre os assuntos abordados. Embora a maioria dos cursos esteja em inglês, alguns têm legendas em português.

Estadão
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