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Tecnologia ajuda a identificar riscos para saúde mental no trabalho

Inteligência artificial e análise de dados atuam na prevenção e auxiliam empresas; estressômetro online ajuda profissional a entender causas do problema

14 ago 2021 05h10
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Se falar de saúde mental na sociedade ainda é um tabu, no ambiente de trabalho é um assunto que pode estar atrelado ao medo. Embora as empresas estejam mais atentas ao assunto, uma reportagem do Estadão mostrou que os funcionários ainda têm receio de comunicar problemas às lideranças com medo de mostrar vulnerabilidade.

"A saúde mental tem chamado a atenção das empresas na pandemia por estar alinhada com objetivos globais. Hoje, tem se falado em sustentabilidade dos negócios atrelada a questões ambientais, mas sustentabilidade também está relacionada à saúde emocional dos colaboradores, que vão garantir o sucesso do negócio", diz a psicóloga Ana Carolina Peuker.

Apesar disso, ela afirma que os riscos psicossociais do trabalho ainda não são muito difundidos. Esses fatores são definidos pela probabilidade de o trabalhador sofrer danos psicológicos, associados ou não a prejuízos físicos, devido à exposição a uma situação de trabalho que represente risco. Pode ser desde a segurança (alguém que exerce atividades perigosas), passando pela saúde, condições do emprego e relações entre colegas.

Se de um lado há líderes e empresas ainda aprendendo a lidar com a saúde mental e, do outro, funcionários que evitam expressar o que sentem, a tecnologia pode ajudar. A startup Bee Touch, fundada por Peuker e pelo cientista da computação Felipe Scuciatto, desenvolve soluções tecnológicas que auxiliam empresas e profissionais a cuidarem do bem-estar.

"A grande vantagem que a tecnologia traz é atuar de maneira preditiva, antecipar potenciais riscos de adoecimento mental e permitir o diagnóstico da raiz dos problemas", ela diz. Uma das inovações da empresa é a plataforma Avax Psi, que realiza avaliações psicológicas a partir da ciência de dados para identificar riscos psicossociais no trabalho.

A psicóloga destaca que o recurso difere das demais inteligências artificiais que identificam sintomas, o que ela considera uma abordagem reativa, de atuar nos casos já adoecidos. O produto foi desenvolvido para empresas e pode ser customizado de acordo com a realidade e a necessidade de cada local, uma vez que alguns riscos e estresses são inerentes a determinadas profissões. Além de indicadores de saúde e segurança ocupacional, a ferramenta aborda questões individuais, história pregressa e atual.

"A gente avalia doença mental, histórico familiar, desempenho cognitivo, como a pessoa está do ponto de vista de atenção. A plataforma tem testes psicológicos e tudo depende da função que ela desempenha", explica Peuker.

A metodologia segue três aspectos preconizados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT): organização, conteúdo e contexto do trabalho. Em cada categoria, há uma série de aspectos a serem analisados, como apoio entre pares, se é um ambiente competitivo, grau de responsabilidade, poder de decisão, se sofre preconceito, entre outros.

Todas as questões são avaliadas por meio de um formulário respondido anonimamente pelos funcionários da empresa. Uma tabela reúne os resultados em gráficos para que o gestor tenha uma visão analítica do cenário. A startup também envia um relatório técnico com a análise dos pontos críticos e um plano de ação para cada um deles. Com isso, é possível trabalhar com ciclos de melhoria contínua dentro do ambiente de trabalho.

Nível de estresse com teste gratuito

Outra ferramenta desenvolvida pela Bee Touch, acessível de forma gratuita pela internet, é o Estressômetro, que avalia o nível de estresse com base em estudos científicos (faça o este aqui). Como as doenças da mente ainda são alvo de estigma social, a ideia foi criar um recurso mais lúdico, necessário para favorecer a adesão.

"Decidimos criar esse termômetro como forma de mostrar a importância da identificação e monitoramento das fontes de estresse para que as pessoas busquem ajuda", explica Peuker. A ferramenta também pode ser usada por empresas com possibilidade de adaptações conforme a realidade de cada uma.

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O teste pede ao usuário que informe a frequência, no último mês, com que se sentiu chateado por algo inesperado, incapaz de controlar coisas importantes ou sentiu confiança para enfrentar problemas. Há também uma lista de fatores para assinalar, que podem ser fonte de estresse: trabalho, saúde, dinheiro, preconceito, sono e clima político. "O estressômetro é para a pessoa ter experiência de automonitorar a sintomatologia de estresse. Não adianta saber que está estressado sem saber a causa."

Gestão do trabalho para saúde mental

Horas extras de trabalho, reuniões consecutivas e tempo subaproveitado em atividades podem ser avaliados, a princípio, para fins de gestão laboral. Entender rotinas e monitorá-las ajuda gestores a evitar riscos trabalhistas, por exemplo. Foi para isso que a Fhinck desenvolveu uma inteligência artificial que, instalada no computador, traduz tempos e movimentos em dados.

Com ela, é possível saber se o funcionário trabalhou a mais, fez pausa de almoço ou se está perdendo tempo em tarefas. Na pandemia, a empresa identificou, na base de 17 clientes, um aumento de 12% na jornada média de trabalho, além de risco de 27% no aumento de casos de burnout em cargos sênior e de liderança. Também cresceu 17% a mistura de rotinas entre trabalho e atividades pessoais. Por outro lado, foi percebido incremento de foco (ouça podcast sobre foco logo abaixo) em 22% no home office.

"Ao longo do tempo, começamos a ver que a ferramenta não só olhava para processos, mas também o quanto os dados eram poderosos no sentido de análise de pessoas. Acabamos evoluindo o olhar e, por meio dos dados, entendendo melhor os hábitos", explica Paulo Castello, fundador da startup.

Mais do que entender habilidades técnicas - como saber quem conhece mais atalhos em determinado programa -, a ferramenta identifica comportamentos que, em excesso, são nocivos para a saúde física e mental, principalmente ao considerar o home office. O programa é adaptado de acordo com a empresa e a função que a pessoa exerce, apontando início da jornada, pausa do almoço e encerramento.

"Você imagina que a pessoa que sai para almoçar para de mexer no computador por pelo menos uma hora, mas às vezes tem ausência de pausa, que também é um indicador. A pessoa pode dizer que está almoçando, mas está trabalhando com o prato na mão", ilustra Castello. O CEO da empresa reconhece que o software é limitado, porque foi desenvolvido para rotinas de escritório, ou seja, pode não identificar riscos em quem trabalha predominantemente fora do computador.

Ele reforça, porém, que os dados são complementares, não substitutos. Uma vez que a ferramenta também entende o perfil de cada grupo de trabalhadores, é possível analisar os detalhes. Na própria Fhinck, a equipe de programadores foi identificada com o perfil 'desenvolvedor'. De uma semana para outra, passaram a ser 'comunicadores', porque estavam passando mais tempo em plataformas de reunião do que programando.

"A inteligência artificial ajuda a trazer uma consistência maior para você poder tomar decisão, vai trazer mais elementos de informação", afirma. Os dados são anônimos para gestores, o que impede a sensação de microgerenciamento e vigilância do trabalho. E mesmo que o computador seja usado para trabalho e atividades pessoais, é possível fazer uma separação, com usuários diferentes.

No entanto, algumas informações nominais podem ser compartilhadas apenas com o setor de recursos humanos da empresa ou de TI para melhoria de processos. Exemplo: saber que um computador está sempre travando com determinado usuário e oferecer estratégias customizadas de acordo com o perfil do funcionário, como treinamentos.

Estadão
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