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Brasil possui cerca de um professor jovem para cada três docentes com 60 anos ou mais

Pesquisa feita pelo Instituto Semesp com base em dados do Censo Escolar e do Censo da Educação Superior revela dificuldade de reposição do quadro docente

16 set 2026 - 20h14
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Resumo
O Brasil corre risco de enfrentar um "apagão" de professores devido ao envelhecimento da categoria e ao desinteresse dos jovens, aponta o Semesp. De 2015 a 2025, docentes de até 24 anos caíram 31,1%, enquanto os com mais de 60 anos dobraram, resultando na proporção de um jovem para cada três idosos. O quadro é agravado pela queda de 13,5% nos concluintes de licenciatura, desvalorização social, baixos salários e avanço da precarização via contratos temporários na rede pública.

Em meio ao baixo interesse dos jovens pela carreira de professor e ao envelhecimento dos profissionais, o País enfrenta um risco de passar por um "apagão" de profissionais da educação nos próximos anos, aponta uma pesquisa feita pelo Instituto Semesp com base em dados do Censo Escolar e do Censo da Educação Superior.

O estudo mostra que entre 2015 e 2025, o volume de professores do ensino médio com até 24 anos de idade diminuiu 31,1%, para 11,9 mil profissionais. No mesmo período, o contingente de docentes com 60 anos ou mais aumentou 104,5%, passando de 18,2 mil para 37,3 mil.

Com isso, a Taxa de Renovação Docente, calculada pelo Semesp pela relação entre professores de até 24 anos e aqueles com 60 anos ou mais, caiu de 0,95 em 2015 para 0,32 em 2025. Na prática, há atualmente cerca de um professor jovem para cada três docentes com 60 anos ou mais. Mas, apesar desse cenário, houve um aumento de 6,6% na quantidade de profissionais dessa categoria no País na última década.

Pesquisa indica envelhecimento do quadro de professores e dificuldade de formar e atrair novos profissionais.
Pesquisa indica envelhecimento do quadro de professores e dificuldade de formar e atrair novos profissionais.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Segundo a presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), Lúcia Teixeira, essa dificuldade de reposição do quadro docente pode se agravar porque os jovens que vão para as licenciaturas muitas vezes são aqueles que não têm uma trajetória acadêmica anterior. Além disso, ela destaca que entre os mais jovens há maior risco de "abandono da profissão em relação àqueles docentes já estabelecidos".

A ampliação das contratações temporárias ajudou a sustentar o número de professores em atividade, mas não solucionou o problema de renovação. Na rede pública, o número de docentes concursados, efetivos ou estáveis caiu de 305 mil em 2015 para 255 mil em 2025, enquanto os temporários passaram de 146 mil para 205 mil. Com isso, a participação dos contratos temporários no ensino médio público subiu de 32,2% para 43,4% do total no período. A estratégia atende à necessidade de curto prazo, mas traz questões relacionadas à estabilidade, continuidade e capacidade de retenção dos profissionais.

A formação de novos docentes também apresenta sinais de fragilidade. O número de concluintes de cursos de licenciatura caiu 13,5% entre 2015 e 2024. A redução foi puxada pelos cursos presenciais, que passaram de 152 mil para 71,7 mil concluintes, queda de 52,9%. O ensino a distância, por outro lado, registrou alta de 56,8% no período, para 134 mil concluintes, equivalentes a 65,1% do total em 2024. Mesmo no EAD, porém, houve queda de 29,4% no número de concluintes entre 2021 e 2024.

O problema é mais acentuado entre os jovens em algumas áreas. Entre 2015 e 2024, o número de concluintes de licenciaturas com até 24 anos caiu 64,6% em Educação Física, 39,1% em Biologia, 28,1% em Química e 23,4% em Filosofia. Em 2023, nenhuma das áreas analisadas pelo estudo apresentava Taxa de Renovação Docente igual ou superior a 1. Entre os menores índices estavam Geografia, com 0,216; História, com 0,234; Língua Portuguesa, com 0,240; Sociologia, com 0,263; e Filosofia, com 0,274.

O levantamento também aponta dificuldades relacionadas à atratividade da profissão. Dados da TALIS 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), citados pelo Semesp, mostram que apenas 14% dos professores brasileiros consideram a profissão socialmente valorizada, ante 22% na média dos países participantes. A satisfação com a remuneração também é menor: 22% dos docentes brasileiros se dizem satisfeitos, contra 39% na média da OCDE. Além disso, 16% dos professores brasileiros afirmam que o trabalho tem impacto muito negativo sobre sua saúde mental.

Mantidas as tendências atuais, a projeção do Semesp indica que a Taxa de Renovação Docente do Ensino Médio pode cair para 0,25 em 2031, 0,22 em 2035 e 0,17 em 2040. Nesse último cenário, haveria aproximadamente um professor com até 24 anos para cada seis com 60 anos ou mais. Em números absolutos, a estimativa aponta para cerca de 10,7 mil docentes jovens e 61,9 mil professores com 60 anos ou mais em 2040.

Para o Instituto Semesp, o cenário atualiza o alerta feito em 2022, quando o estudo projetava um déficit de aproximadamente 235 mil professores na Educação Básica até 2040. A nova pesquisa indica que a questão pode se manifestar de forma diferente, com o envelhecimento do quadro e a dificuldade de formar e atrair novos profissionais. Segundo o levantamento, a recuperação da atratividade da carreira passa por remuneração competitiva, melhores condições de trabalho, estabilidade, reconhecimento profissional, perspectivas de desenvolvimento e estímulos específicos para a formação nas áreas mais vulneráveis.

Estadão
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