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Dissidente belarusso desaparece em águas sob controle da Rússia

27 jun 2026 - 13h25
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Ex-dirigente esportivo de Belarus foi visto pela última vez embarcando em iate particular na Turquia em 2025. A DW e parceiros investigam desaparecimento em águas da "zona cinzenta" controladas por Moscou no Mar Negro.Por volta das 18h do dia 21 de agosto de 2025, o ex-diplomata e dirigente esportivo de Belarus Anatol Kotau embarcou em um iate particular no nordeste da Turquia. Ele disse que voltaria para casa em alguns dias.

O iate estava oficialmente a caminho da Rússia- um dos dois países com mandados de prisão contra ele - mas não está claro se Kotau sabia qual era o destino final. O que se sabe é que, três horas após o início da viagem, ele parou de responder a mensagens.

Ele nunca voltou para casa.

Informações de fontes, documentos, imagens de satélite e bancos de dados vazados revelam que Kotau foi retirado do iate pela Guarda Costeira Russa, uma divisão da agência de inteligência interna FSB, provavelmente atuando em cooperação com Belarus. E pode ter sido emboscado por pessoas que conhecia.

A conclusão é fruto de uma investigação da DW em parceria com o Centro Belarusso de Investigação (BIC) e o Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção (OCCRP), que durou meses.

Procurado em Belarus

Kotau passou grande parte do início de sua carreira política como diplomata na embaixada de Belarus na vizinha Polônia. Em 2015, foi nomeado secretário-geral do Comitê Olímpico Belarusso, servindo sob o presidente Alexander Lukashenko. Conhecido como o "último ditador da Europa", ele é o autocrata que governa há mais tempo um país no continente.

Kotau também foi vice-diretor do comitê organizador dos Jogos Europeus multiesportivos de 2019 em Minsk, um projeto de prestígio para Lukashenko.

Ele deixou o cargo quando as forças do governo reprimiram os protestos que se seguiram às contestadas eleições presidenciais de 2020, após Lukashenko se declarar vitorioso. Kotau fugiu para a Polônia, onde se registrou como refugiado e, de Varsóvia, começou a pressionar por reformas em Belarus.

Kotau era um crítico ferrenho de Minsk e amplamente considerado por outros dissidentes como um dos responsáveis pelo canal do Telegram "Nick e Mike", que expunha os segredos do regime.

Ele foi uma peça-chave da Fundação Belarussa de Solidariedade Esportiva, um movimento de atletas que pressionou ativamente para que Minsk perdesse a honra de coorganizar o Campeonato Mundial de Hóquei no Gelo de 2021 - em parte porque Lukashenko poderia usar os holofotes globais sobre seu esporte favorito para reabilitar sua imagem após a sangrenta repressão de 2020.

"Ele trabalhou por muitos anos no sistema estatal", disse Ales Mikhalevich, advogado belarusso de direitos humanos e ex-candidato à Presidência. "Pessoas como eu, por exemplo, são simplesmente inimigas do regime, enquanto pessoas como ele são traidoras. Isso é muito mais grave."

Em 2024, um tribunal belarusso condenou Kotau à revelia a 12 anos de prisão após considerá-lo culpado de conspiração para tomar o poder de forma inconstitucional e de promover atividades extremistas. Mandados de prisão foram emitidos pelos governos em Minsk e Moscou.

"Sem dúvida, era uma pessoa que as autoridades belarussas queriam recuperar, legal ou ilegalmente", disse Mikhalevich.

As viagens de Kotau

Seus amigos disseram que Kotau costumava ser reservado sobre seus planos de viagem. Em abril de 2025, ele viajou para Dubai, onde realizou pelo menos duas reuniões. A DW e seus parceiros não conseguiram identificar todas as pessoas com quem ele se encontrou nessa viagem.

Kotau tinha outra visita a Dubai agendada para julho de 2025, um mês antes de desaparecer, mas cancelou a viagem quando teve apendicite, de acordo com sua esposa.

"Ele geralmente não dizia com antecedência para onde ia ou por quê", disse Ruslan Khazin, amigo e também ativista da oposição. "Mas sempre soubemos que, depois que ele fosse a algum lugar para encontrar alguém, haveria alguma notícia interessante."

Antes de Kotau desaparecer em agosto, ele disse à esposa que viajaria para a Turquia a negócios; seu chefe em uma agência de eventos polonesa acreditava que ele estava indo por motivos pessoais.

Várias pessoas que mantiveram contato com Kotau relatam ter ouvido dele, pouco antes da viagem à Turquia, que as coisas estavam prestes a mudar em Belarus e que "em breve todos voltaremos para casa".

"Eu simplesmente não entendi", lembrou Khazin. "Eu disse: 'O que você quer dizer?' Ele, com aquele jeito de sempre, sorriu e disse: 'Bem, você vai descobrir depois.' Só isso."

Um compatriota belarusso

Após desembarcar em Istambul em 21 de agosto, Kotau voou para a cidade portuária de Trabzon, no nordeste da Turquia, onde um iate o aguardava. A embarcação havia partido de Istambul anteriormente, levando uma pequena tripulação, dois passageiros russos e Yuryy P., um juiz e instrutor de caratê belarusso com ligações com o serviço secreto de seu país, que ainda utiliza a sigla soviética KGB.

Fotos nas redes sociais indicam que Kotau pode ter conhecido Yuryy P. no clube esportivo Vozrozhdenie (Renascimento), que pode ter sido associado à KGB durante seus quatro anos de existência, de 2017 a 2021, de acordo com informações fornecidas pelo grupo da sociedade civil belarussa Rabochy Ruch.

Yuryy P. também era funcionário de uma empresa chamada Tres International, cuja sede está localizada próximo a Dubai, mas que possui um escritório de representação em Minsk, segundo dados vazados do Cyber Partisans, um coletivo dissidente de hackers formado após as eleições de 2020 em Belarus. Várias pessoas da Tres International foram identificadas como afiliadas à KGB, de acordo com documentos vazados. Yuryy P. não respondeu às perguntas da DW e seus parceiros.

Muitos funcionários da empresa também trabalham para a BTS Global, que atua na área de consultoria empresarial e de gestão, segundo a Câmara de Comércio e Indústria de Belarus, mas também comercializa armas, de acordo com documentos militares fornecidos por Rabochy Ruch. A Tres International e a BTS Global estão registradas no mesmo endereço na Rua Smolenskaya, em Minsk.

Não está claro se Kotau e Yuryy P. se encontraram em Trabzon. No entanto, quando o iate deixou a cidade portuária com Kotau, Yuryy P. não estava a bordo.

O que se sabe sobre o iate

O último registro conhecido de Kotau, então com 45 anos, é uma captura de imagem do circuito interno de TV do porto de Trabzon, em que ele exibe a barba por fazer e uma camiseta escura. Ele teria subido a bordo do iate de 30 metros de comprimento chamado Shells, uma embarcação particular de 2,8 milhões de dólares (R$ 14 milhões) com duas áreas de jantar, um bar e uma jacuzzi no convés superior.

De acordo com a lista de passageiros, obtida pela DW, o iate tinha como destino Sochi, na costa russa do Mar Negro, embora não esteja claro se Kotau sabia disso. Ele pode ter sido informado de um destino diferente ou ter pensado que o navio entraria em águas internacionais e depois retornaria à Turquia.

Os movimentos do iate são difíceis de rastrear. Não há registro de sua localização no banco de dados de tráfego marítimo em agosto de 2025 ou em imagens de satélite de sua rota. O iate foi registrado pela última vez meses antes, em março de 2025, em Istambul.

A empresa proprietária da embarcação em agosto de 2025, a MGA Yachting Ltd., insiste que a vendeu no final de 2024 e que nada sabe sobre o desaparecimento de Kotau. A DW e seus parceiros confirmaram que o barco ainda estava à venda no início de 2025.

Em janeiro de 2026, o iate foi renomeado para YS Legacy e registrado em nome da SSL Yachting Group Ltd. Em março de 2026, a BTS Global comprou a marca registrada com o mesmo nome: YSLegacy.

O empresário belarusso Yuryy S. figura como chefe de duas empresas da BTS Global - uma registrada em Belarus e outra no Reino Unido - e reside nos Emirados Árabes Unidos, onde o iate apareceu pela última vez no banco de dados Marine Traffic, em março de 2026.

Ele conhecia Kotau pessoalmente. Há fotos dos dois no clube esportivo Vozrozhdenie em 2019, no que parece ser um evento relacionado aos Jogos Europeus de Minsk 2019. Yuryy S. é identificado em vazamentos como tendo trabalhado para o Centro Analítico Operacional da KGB e no Comitê Olímpico Belarusso durante o mandato de Kotau como secretário-geral. Ele tem ligações com a Tres International, com sede em Dubai. O empresário não respondeu às perguntas da DW e seus parceiros, assim como a BTS Global e a Tres International.

Os misteriosos companheiros de viagem

Quando Kotau embarcou no Shells, ele estava acompanhado por uma mulher chamada Qahira E., cuja nacionalidade na lista de passageiros consta como jordaniana. Ela mora em Dubai e é originária do Azerbaijão. Ela e Kotau se conheciam desde pelo menos 2023, de acordo com informações obtidas pelo BIC. Os dois trocaram mensagens sobre um possível encontro e aparecem juntos em uma foto que parece ter sido tirada em um bar.

Ela não respondeu às perguntas enviadas pela DW e seus parceiros.

Os outros passageiros eram dois russos que entraram na Turquia no mesmo voo vindo de Moscou em 5 de agosto, de acordo com dados de passaportes vazados, e viajaram no iate a partir de Istambul.

De acordo com bancos de dados vazados, um dos homens, Pyotr G., é ex-militar e trabalha atualmente como especialista em segurança privada. A DW e seus parceiros reuniram poucas informações sobre o outro homem, Yuriy G., mas puderam confirmar que os dois viajaram juntos pouco antes e depois da viagem de iate. Nenhum dos dois respondeu às perguntas da DW e seus parceiros.

De acordo com os registros, as únicas outras pessoas a bordo eram os quatro tripulantes — nenhum dos quais falava russo.

Iate interceptado em região ocupada pela Rússia

A DW e seus parceiros apuraram, por meio de fontes e de uma carta obtida junto às autoridades portuárias de Sochi, que o iate nunca chegou ao local.

Fontes familiarizadas com a operação afirmam que o iate, em vez disso, seguiu em direção a Sukhumi, capital da Abecásia, uma região separatista da Geórgia. O governo da Geórgia — assim como os EUA, a UE e diversos outros governos - considera a região como ocupada pela Rússia, que mantém uma forte presença militar no local.

A Abecásia é uma "zona cinzenta bem conhecida", onde "há falta de controle do ponto de vista internacional", afirma o analista político georgiano Mamuka Komakhia. "A região é ideal para realizar qualquer atividade ilegal, pois é mar aberto. Não é preciso registrar nada."

Ali, por volta das 13h30, em águas onde não aparecem sinais de rastreamento de embarcações, o iate foi interceptado pela Guarda Costeira da Rússia, uma divisão do FSB. Fontes familiarizadas com a operação dizem que agentes embarcaram e realizaram uma busca no iate, momento em que Kotau teria sido retirado.

Embora não haja imagens que cubram a área no momento em que o iate foi provavelmente interceptado, existem imagens do porto próximo de Ochamchire, um centro de transporte de carvão onde a Rússia mantém uma base do FSB desde 2009.

De acordo com a Fundação Georgiana para Estudos Estratégicos e Internacionais, também conhecida como Fundação Rondeli, o FSB estacionou até dez lanchas de patrulha das classes Sobol e Mangust no porto de Ochamchire. Armadas com metralhadoras e mísseis terra-ar, essas embarcações têm a tarefa de proteger as fronteiras costeiras da Rússia.

Imagens de satélite mostram um barco com o tamanho e formato de uma dessas lanchas de patrulha. Navios da guarda foram vistos saindo do porto de Ochamchire e virando para oeste em direção a Sukhumi cerca de uma hora antes de, segundo fontes, Kotau ser retirado do iate.

"É bastante estranho que ativistas da oposição belarussa visitem a Abecásia", diz Komakhia. "É bastante claro que a Abecásia mantém uma cooperação muito boa e estreita com as forças de segurança russas. Definitivamente não é um lugar seguro para esse tipo de gente."

Nem o FSB russo nem a KGB belarussa responderam aos pedidos de comentários.

Cerca de uma hora depois do horário em que, segundo fontes, Kotau foi retirado do iate em 22 de agosto, Pyotr G. e Yuriy G. também desembarcaram.

Embora não esteja claro exatamente onde e quando eles deixaram o iate, os dados vazados do passaporte indicam que Pyotr G. cruzou a fronteira do porto de Sukhumi às 14h42 e Yuriy G. quatro minutos depois.

O barco retornou à Turquia apenas com Qahira E. e a tripulação a bordo.

Rússia e Belarus atuaram juntas?

Não seria inédito que Belarus, que possui recursos limitados, pedisse ajuda ao seu principal aliado para garantir o retorno de Kotau.

"A inteligência belarussa não é tão desenvolvida, não é tão qualificada", diz Kamil Klysinski, pesquisador sênior do Centro de Estudos Orientais na Polônia. "Eles não têm tantas pessoas, dinheiro [ou] outros recursos para realizar tais operações fora da região."

As agências de segurança belarussas e russas cooperam estreitamente no compartilhamento de informações, segurança de fronteiras e operações conjuntas - incluindo a entrega de opositores políticos.

"Em caso de operações mais ambiciosas, como a de Kotau, é claro que o apoio russo era necessário, pelo menos o apoio do FSB", diz Klysinski.

O que disseram as autoridades

A família e os amigos de Kotau buscam respostas há quase dez meses.

As autoridades turcas disseram à DW apenas que Kotau chegou e saiu do país em 21 de agosto de 2025, e não responderam a perguntas sobre uma investigação.

As autoridades polonesas afirmaram que não estavam investigando o desaparecimento de Kotau. "Se o crime foi cometido na Polônia, então o Ministério Público polonês teria jurisdição", escreveu um porta-voz em um e-mail.

Mikhalevich, porém, discorda dessa avaliação. "O crime relacionado ao desaparecimento começou em território polonês."

"O sistema estatal funciona da forma como funciona", diz Mikhalevich. "Nenhum promotor, nenhum funcionário público quer trabalho adicional. Se houvesse vontade política, seria bastante fácil iniciar um processo criminal sobre o desaparecimento de Anatol Kotau."

Por sua vez, o amigo de Kotau, Khazin, diz acreditar que ele ainda está vivo.

"Se quisessem eliminá-lo, teria sido muito mais fácil fazer isso aqui, em Varsóvia, e simular um acidente", disse Khazin. "As circunstâncias de seu desaparecimento e quem poderia ter realizado essa operação [...] indicam que as forças que o capturaram precisavam dele vivo e bem."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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