Direita global transforma modernismo em alvo político
Movimentos globais de extrema direita têm atacado a arquitetura modernista, associando-a à feiura e à perda de identidade, enquanto exaltam a estética clássica como símbolo de valores tradicionais. Essa ofensiva, visível em redes sociais e políticas de Estado nos EUA e na Hungria, reflete discursos históricos como o do nazismo contra a Bauhaus. No Brasil, essa guerra cultural antimodernista é impulsionada por influenciadores e grupos conservadores como forma de disputa ideológica.
Movimentos conservadores atacam a arquitetura moderna como símbolo de "globalismo" e ameaça às tradições enquanto idealizam a beleza clássica.Em janeiro de 2025, a arquiteta Rafaela Simonato Citron vislumbrou uma tendência em alta nas redes sociais no Brasil. Publicações acusavam a estética modernista de dizimar a beleza das cidades ao rejeitar cores e ornamentações e impor uma "cara de clínica" às casas.
O movimento artístico, que no início do século 20 ofereceu uma resposta à crise habitacional, à industrialização e à devastação causada pelas guerras, é apresentado como sinônimo de feiura, perda de identidade e desumanização deliberada.
Em uma das trends, imagens de mansões com estilo neoclássico são comparadas a casas contemporâneas minimalistas, acompanhadas da pergunta "Como fomos disso... para isso?".
Citron, que já se dedicava a conteúdos ligados a urbanismo, decidiu então publicar em sua conta no Instagram um vídeo em que alerta para a carga ideológica latente nessas publicações. "Cuidado, você pode estar caindo em um discurso da extrema direita."
Ela segue: "Parece um conteúdo inofensivo, mas saiba que essa comparação entre a beleza perdida da arquitetura clássica e a feiura da arquitetura moderna faz parte de um discurso que vem sendo utilizado pela extrema direita".
Até então, ela não fazia ideia do tamanho da discussão em que se metia. Seu vídeo viralizou, com meio milhão de visualizações e 1.200 comentários em quatro dias, quando Citron decidiu tirar do ar a primeira versão, sob ameaça de ser processada.
"É a mesma coisa que a gente vê em outras áreas, na moda, na música, de passar essa mensagem que alguma coisa tá corrompida", afirmou à DW. "É um negócio meio moralista, não é uma crítica ao capitalismo ou ao neoliberalismo, não é isso. Esses posts não vêm com essa crítica, eles vêm só com essa ideia de que algo está errado com a humanidade."
Cruzada antimodernista
Essa ofensiva a favor de uma estética que remeta à Antiguidade, com profusão de colunas, frontões e ornamentos, tem ganhado espaço no debate político em diferentes países e, em alguns casos, se transformado em política de Estado.
Poucos dias antes de Citron publicar sua crítica, Donald Trump voltava à Casa Branca e incluía em seu canetaço inaugural o compromisso de priorizar estilos considerados "tradicionais", "regionais" e "clássicos" em prédios públicos federais dos Estados Unidos.
Na Hungria sob Viktor Orbán, essa visão passou do discurso para uma transformação concreta da paisagem urbana. O ex-premiê conduziu, a partir de 2010, um amplo programa de reconstrução simbólica de Budapeste, que demoliu estruturas consideradas herança do modernismo socialista em prol do resgate da "identidade nacional" húngara.
Na Alemanha, mais precisamente no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, essa guerra cultural tem ganhado cada vez mais terreno. Lá está a sede da Bauhaus, escola que revolucionou o mundo da arte e da arquitetura entre 1919 e 1933, reconhecida como um dos movimentos culturais mais influentes da história do país.
O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) é o favorito para vencer as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt deste domingo (06/09), em uma votação que pode marcar o maior avanço político da ultradireita no país desde a Segunda Guerra Mundial. Entre as principais linhas de campanha da bancada estadual da legenda está o ataque à Bauhaus como "um desvio da modernidade", com sua arquitetura "globalista".
Em seu programa de governo, o partido declara que não pretende direcionar mais dinheiro público para promover arte "antigermânica". "Se rejeita essa identidade, se se volta contra ela, se fala mal da Alemanha ou retrata o país de forma depreciativa, como infelizmente fazem muitos agentes culturais de esquerda, então não deve receber apoio público. É simples assim", sentenciou Hans-Thomas Tillschneider, porta-voz de política cultural da AfD na Saxônia-Anhalt.
Um século depois, o discurso se repete
Assim como a AfD, os nazistas classificavam a arquitetura moderna da Bauhaus como "não alemã" e "sem alma". "Chama atenção como a linguagem é parecida. Os termos lembram muito o passado, e eu não acredito que isso seja coincidência", aponta Barbara Steiner, diretora da Fundação Bauhaus.
A AfD rejeita qualquer comparação com os nazistas e com Hitler e argumenta que essas alegorias seriam uma "banalização" dos crimes do nazismo. No entanto, no programa de políticas culturais, a sigla de ultradireita minimiza as atrocidades da era nazista e questiona a cultura de memória da Alemanha.
"O discurso de ódio contra o movimento moderno nas artes e na arquitetura e de adoração a estilos neoclássicos, com referências à Antiguidade grega ou romana, têm apelo entre governantes autoritários porque são baseados na monumentalidade", explica Guilherme Wisnik, professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).
A proposta da Bauhaus ia de encontro a essa visão de mundo, em direção a uma sociedade mais igual, em reação ao que pregava o nacionalismo alemão, afirma o professor.
"O projeto da Bauhaus era colocar a arte a serviço da indústria e do design. Então, de alguma maneira, transformar a linguagem artística em linguagem do design e fazer isso virar objetos da vida cotidiana. E, para isso, apostavam numa linguagem completamente abstrata, portanto não mais mimética, não realista."
A busca por uma linguagem universal
Fundada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius, a Bauhaus surgiu em Weimar, apenas um ano após o fim da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha saía derrotada e devastada do conflito e buscava se reconstruir por meio da industrialização e da inovação tecnológica. Nesse contexto, a escola nasceu com a proposta de unir arte, arquitetura, design e produção industrial em um projeto comum de renovação cultural.
A permanência em Weimar, porém, durou pouco. A escola passou a ser alvo de críticas de setores nacionalistas e conservadores, que viam suas propostas artísticas e pedagógicas como excessivamente experimentais e subversivas. Em 1925, a Bauhaus foi obrigada a deixar a cidade e encontrou abrigo em Dessau, então um centro industrial progressista na Saxônia-Anhalt.
Ali, no ano seguinte, foi inaugurada a icônica sede projetada por Gropius, hoje um dos edifícios mais emblemáticos da arquitetura moderna.
Foi em Dessau que a Bauhaus viveu seu período mais fértil. Além do edifício principal, onde hoje funciona um museu, foram construídas as chamadas Casas dos Mestres, residências destinadas aos professores da escola, entre eles Wassily Kandinsky e Paul Klee. O conjunto arquitetônico se tornou um laboratório vivo das ideias da instituição, reunindo arquitetura, urbanismo, design e experimentação artística em um mesmo espaço.
Surgiram da Bauhaus alguns dos objetos mais célebres do design moderno, como as cadeiras tubulares de aço desenvolvidas por Marcel Breuer.
A trajetória da Bauhaus chegou ao fim em 1933. Após deixar Dessau, a escola transferiu-se para Berlim, mas a ascensão de Hitler ao poder e a crescente perseguição nazista tornaram sua sobrevivência impossível.
Hostilidades no Brasil
As ideias de integração entre arte, arquitetura, design e indústria inspiraram arquitetos como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, que buscaram adaptar os princípios modernistas às condições brasileiras.
A construção do Palácio Capanema, então sede do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, na década de 1940, com consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier, tornou-se um marco dessa síntese entre as vanguardas internacionais e a realidade brasileira. Nas décadas seguintes, o país transformou-se em uma das principais vitrines da arquitetura moderna no mundo, culminando com a construção de Brasília.
Os ataques da direita brasileira ao modernismo ganharam força no Brasil sobretudo a partir das ideias difundidas pelo escritor Olavo de Carvalho, falecido em 2022, considerado o principal ideólogo da nova direita radical brasileira e "guru" do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirma Wisnik.
Para Olavo de Carvalho, artistas, intelectuais e instituições culturais faziam parte de uma suposta engrenagem de influência política dominada pela esquerda, com valores considerados contrários à família, à tradição e aos costumes conservadores. Esse pensamento perdurou durante o governo de Jair Bolsonaro , de 2019 a 2023.
Esse discurso também é popularizado pela produtora Brasil Paralelo, alinhada à extrema direita, que lançou, em 2022, uma série com três episódios chamada O Fim da Beleza, na qual aponta o modernismo como ápice da decadência cultural e moral.
"Grupos conservadores e de extrema direita têm instrumentalizado a linguagem estética como estratégia de poder, usando o apreço pelo 'belo tradicional' contra o 'moderno degenerado' para fins antidemocráticos", avalia Rafaela Simonato Citron.
Apesar dessas ofensivas, o Brasil não assistiu à adoção de uma política de Estado explicitamente voltada contra o modernismo, como ocorreu em outros países. No entanto, há uma forte associação de setores conservadores a uma estética com referências neoclássicas, como as emblemáticas lojas Havan, inspiradas na Casa Branca e em monumentos americanos.
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