Deputada muçulmana crítica a Trump tem casa revistada por agentes federais
Agentes federais dos EUA realizaram buscas na casa da deputada democrata Ilhan Omar, crítica ferrenha de Donald Trump, devido a uma investigação sobre suposta fraude imigratória ligada à sua infância. A ação, autorizada judicialmente a poucas semanas das eleições de meio de mandato, gerou fortes críticas dos democratas e da parlamentar, que denunciaram abuso de poder e uso político das forças federais para intimidar adversários, violando a praxe de neutralidade eleitoral do órgão.
Ilhan Omar, que nasceu na Somália e é muçulmana, seria suspeita de fraude migratória. Democrata acusa o presidente dos EUA de abuso de poder e de instrumentalização das forças federais.Agentes federais dos Estados Unidos realizaram nesta segunda-feira (12/10) uma operação de busca na residência da deputada democrata Ilhan Omar , uma crítica declarada do presidente Donald Trump.
O Departamento de Justiça informou que a ação faz parte de uma investigação em andamento e que um mandado de busca foi cumprido pela divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI), sem fornecer maiores detalhes. O HSI é uma divisão do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). A ação, acrescentou, foi autorizada judicialmente.
As buscas ocorreram justamente em um momento em que ela está nas semanas finais de sua campanha para a reeleição. Omar, de 44 anos, busca um quinto mandato de dois anos na Câmara dos Representantes dos EUA nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro.
Autoridades do governo Trump haviam sugerido diversas vezes a existência de uma investigação contra a deputada de Minnesota.
Uma fonte próxima à investigação afirmou à agência de notícias Associated Press que o caso estaria relacionado a uma suposta fraude imigratória, e parte da apuração diria respeito à documentação de imigração da parlamentar, nascida na Somália, que foi preenchida por seu pai quando ela ainda era criança.
As buscas na residência da deputada democrata representam uma escalada surpreendente em uma investigação criminal em torno da parlamentar, alvo frequente de ataques e de deboche por parte de membros do governo Trump.
Omar é muçulmana e costuma usar o véu islâmico em público. Suas atitudes e postura combativa a tornaram um alvo do movimento Maga ("Make America Great Again", ou "Torne a América grande novamente"), que tem em Trump seu maior líder.
"Não serei silenciada", diz Omar
Omar classificou a busca como uma "tentativa de atacar adversários políticos e instrumentalizar as forças de segurança federais".
"Essa operação do DHS [Departamento de Segurança Interna] de Trump é um abuso de poder ultrajante e uma escalada sem precedentes na instrumentalização das forças de segurança federais para atacar adversários políticos", afirmou Jacklyn Rogers, porta-voz de Omar, em comunicado.
"Há uma década, Donald Trump ataca implacavelmente a deputada Ilhan Omar com retórica incendiária, colocando repetidamente um alvo em suas costas. Agora, esses ataques evoluíram para uma operação federal sem sentido. A deputada não cometeu nenhuma irregularidade. Nenhum presidente deveria estar apto a usar o poder do governo federal para intimidar seus adversários políticos", sublinhou Rogers.
"Há dez anos, Trump me ataca com mentiras infundadas e campanhas difamatórias", afirmou Omar. "Esta é apenas a mais recente escalada em sua campanha de intimidação política. Não serei silenciada."
Trump disse em comício que Omar é investigada
Trump e outros membros do alto escalão do Partido Republicano atacam repetidamente Omar por sua condição de imigrante e por suas opiniões progressistas. No último fim de semana, o presidente mencionou a deputada em um comício no Tennessee, onde atacou sua origem e insinuou que o vice-presidente J.D. Vance "e nosso pessoal" a estavam investigando.
O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, nomeado por Trump, disse no mês passado que "algo vai acontecer" em relação à investigação sobre a entrada da família de Omar nos EUA. "Se conseguirmos provar que você não deveria estar aqui desde o início, nós a deportaremos", disse Mullin em entrevista a um podcast conservador.
Líderes democratas da Câmara condenaram a operação de busca na casa da deputada como abuso de poder.
"Durante anos, Donald Trump e extremistas de direita têm visado implacavelmente a deputada Omar com ataques pessoais vis e acusações infundadas", afirmaram líderes democratas da Câmara em um comunicado. "Agora, a menos de 30 dias das eleições de meio de mandato, sua violenta máquina de deportação em massa se voltou contra a casa de uma integrante do Congresso devidamente eleita e de sua família."
A busca na residência da deputada, realizada a poucas semanas das eleições parlamentares - que definirão o controle da Câmara dos Representantes e do Senado -, levantou questionamentos sobre o momento da ação.
A política do Departamento de Justiça proíbe que promotores e agentes federais programem qualquer ação que possa influenciar o resultado de uma eleição ou beneficiar um candidato ou partido político. Historicamente, o departamento evita tomar medidas investigativas contra candidatos durante os 60 dias que antecedem uma eleição.
"Obsessão doentia e assustadora"
Omar vem enfrentando uma série de insultos políticos de Trump, que retratou a comunidade somali-americana como uma ameaça ao estado de Minnesota em uma onda de retórica antimuçulmana.
A deputada descreveu o foco de Trump em sua pessoa como uma "obsessão doentia e assustadora".
Defensores dos direitos civis criticaram a retórica de Trump em relação a minorias e imigrantes, inclusive quando ele anteriormente chamou os somalis de "lixo".
Em fevereiro, Trump disse que Omar e a deputada democrata Rashida Tlaib, de Michigan - também muçulmana - , deveriam ser "internadas" e enviadas "de volta para de onde vieram".
Ambas as parlamentares haviam criticado Trump durante seu discurso sobre o Estado da União no Congresso americano, no momento em que ele exaltava a política de linha dura de seu governo contra a imigração e as ações de fiscalização migratória.
Omar afirmou que ela e sua família sofreram ameaças de morte, as quais ela atribui a uma "retórica política de ódio", especialmente vinda de Trump.
No mês passado, um homem de Minnesota que espirrou vinagre em Omar foi condenado a um ano e dois meses de prisão após se declarar culpado de agredir uma autoridade federal. Anthony James Kazmierczak admitiu ter atacado Omar por discordar de suas opiniões políticas progressistas.
Críticos de Trump na mira das autoridades
Durante o segundo mandato de Trump, o Departamento de Justiça investigou e apresentou acusações contra vários daqueles considerados inimigos políticos de Trump.
O órgão apresentou acusações contra o ex-diretor do FBI James Comey, a procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James; e o ex-assessor de segurança nacional de Trump que se tornou seu crítico, John Bolton.
Também foram investigados legisladores democratas que instaram as Forças Armadas dos EUA a não cumprir ordens ilegais e autoridades do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, como Jerome Powell e Lisa Cook.
O caso contra James e um dos dois processos movidos contra Comey foram arquivados por um juiz federal. Bolton se declarou culpado e deve receber a sentença ainda este mês. Juízes federais e decisões de juris já travaram várias outras investigações.
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