Depois do Maga, Trump quer tornar privadas e chuveiros "grandiosos de novo"
Republicano vem travando batalha para desmantelar medidas ambientais de uso eficiente da água em chuveiros e privadas, contra o que vê como "guerra da esquerda" à pressão hidráulica.Quando um americano dá descarga num vaso sanitário dos Estados Unidos, ele ouve um som característico de sucção. Um jato de água enche a bacia e depois puxa o conteúdo para baixo com um grande "golpe" final.
Na Europa, por outro lado, o processo é bem diferente. Quase sempre existe a opção de uma descarga mais leve ou mais forte, dependendo do que você precisa. E não há sucção — em vez disso, a água simplesmente empurra os dejetos para baixo.
Para um contraste ainda maior, na Alemanha e na Holanda, às vezes os dejetos caem sobre uma espécie de prateleira de cerâmica que fica diretamente acima de uma poça de água.
O presidente dos EUA, Donald Trump, está infeliz com o modelo americano e, agora, quer desfazer a regulamentação que o sustenta, com base em padrões de uso eficiente da água estabelecidos em 1992.
Há anos, o republicano reclama de vasos sanitários e chuveiros supostamente fracos. Ele adotou, inclusive, o lema "tornar os chuveiros grandiosos de novo" — em inglês, "Make Showers Great Again", que se parece com o slogan trumpista "Make America Great Again" ("tornar os EUA grandiosos de novo", ou Maga, na sigla original).
A expressão deu nome a uma ordem executiva assinada por Trump no ano passado, a fim de "desfazer a guerra da esquerda" contra "a pressão da água", conforme escreveu a Casa Branca. A medida desfazia regulamentações dos últimos dois governos democratas.
"Há muitos lugares onde há água, tanta água que nem sabem o que fazer com ela. Mas as pessoas compram uma casa, abrem a torneira e a água mal sai. Tomam banho e a água mal sai," disse, à época, o presidente.
Problema ambiental
A forma como os vasos sanitários dão descarga tem implicações significativas para o abastecimento de água. Esta é uma questão cada vez mais urgente nos EUA, à medida que as mudanças climáticas agravam as secas e muitas comunidades enfrentam escassez hídrica em todo o país, especialmente nos estados do oeste.
O design de sifão, único nos Estados Unidos, antes exigia vários galões de água a cada descarga para criar o efeito de sucção. Mas, em 1992, a lei de eficiência hídrica, que está agora na mira de Trump, reformulou as normas de encanamento, restringindo o uso de água em vasos sanitários novos.
A legislação economizou cerca de 18,2 trilhões de galões (68,9 trilhões de litros) ao longo de duas décadas. Engenheiros ambientais afirmam que a reversão iria na direção oposta do que é necessário para reforçar a segurança do abastecimento de água dos EUA.
"Levou muito tempo para conseguirmos, de fato, causar um pequeno impacto na mentalidade americana de economizar água", disse à DW Samuel Sandoval Solis, especialista em recursos hídricos da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele vê a proposta como um "passo para trás".
O presidente quer revogar "padrões inúteis de pressão da água" que ele considera "onerosos". Metin Duran, engenheiro ambiental da Universidade de Villanova, na Pensilvânia, vê a medida como parte de uma longa tradição americana de oposição à regulação ambiental.
"Culturalmente, as pessoas nos EUA simplesmente não gostam de regulamentações", afirma. "Na Europa, as pessoas são mais abertas a esse tipo de regra se for para o bem maior."
"Não Mexa com Meus Eletrodomésticos"
Em maio de 2025, o governo Trump publicou uma diretriz suspendendo a aplicação dos limites de água para descargas previstos na lei de eficiência hídrica de 1992. Ele também recomendou que o Congresso tentasse revogar a lei, o que criaria uma mudança mais permanente, sobrevivendo a qualquer presidente.
Os republicanos na Câmara abraçaram a causa, aprovando a lei de nome pitoresco "Não Mexa com Meus Eletrodomésticos" ("Don't Mess With My Home Appliances Act", em inglês), que tornaria mais fácil para o Departamento de Energia enfraquecer os padrões de conservação de energia. É improvável que ela passe no Senado.
"As pessoas estão dando descarga 10 vezes, 15 vezes, em vez de uma só", disse Trump em 2019. "Você entra em um prédio novo ou em uma casa nova e não sai água, você praticamente não consegue lavar as mãos, é tão pouca água (que) sai da torneira."
Especialistas em engenharia dizem que a reclamação é ultrapassada. Embora o redesenho dos vasos sanitários nos anos 1990 tenha gerado indignação pública por causa do chamado "baixo fluxo", muita coisa mudou desde então.
"Quando o presidente reclama que os vasos sanitários dele não dão descarga direito, isso é coisa do passado. Talvez houvesse alguns vasos antigos que realmente não funcionavam bem muito tempo atrás. É possível. Mas os vasos de hoje passam por testes rigorosos", disse Ron Burke, que dirige a organização sem fins lucrativos Aliança para Eficiência da Água (Alliance for Water Efficiency), sediada em Chicago.
Vasos ainda defasados
Ainda assim, os vasos sanitários nos EUA continuam usando muita água. A lei de 1992 determinou que qualquer vaso sanitário novo utilizasse apenas 1,6 galão por descarga.
Na Europa, esse é o padrão para uma descarga mais forte, mas muitos vasos no continente também oferecem a opção de descarga dupla, com menos de um galão por descarga para resíduos líquidos. A descarga dupla nunca realmente se popularizou nos EUA, apesar de ser uma opção eficiente em termos de água.
Além disso, modelos antigos, que desperdiçam mais, ainda são comuns em todo o país. Mais de um em cada cinco vasos sanitários ainda usa 3,5 galões por descarga ou mais, segundo um estudo de 2019 da Associação Internacional de Fabricantes de Produtos Hidráulicos (PMI, na sigla em inglês). Alguns usam 5 galões ou mais, se tiverem sido fabricados antes de 1980.
Na Califórnia, castigada pela seca, o PMI estima que cerca de 2,4 milhões desses chamados vasos ainda estejam em uso. "O que o governo Trump está propondo entra realmente em conflito direto com os desafios que muitas comunidades nos Estados Unidos enfrentam para manter um abastecimento de água confiável e acessível", disse Burke.
Os californianos se veem diante da perspectiva de futuras grandes secas, enquanto sofre com escassez no rio Colorado. Os dois maiores reservatórios do país, localizados no estado, operam com cerca de um terço de sua capacidade normal, e o estado busca economizar água onde for possível.
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