Deepfakes lideram uso irregular de inteligência artificial nas eleições de 2026
Levantamento inédito revela desrespeito às regras do TSE e destaca avanço de conteúdos manipulados por perfis anônimos e candidatos
O projeto VigIA identificou 554 deepfakes no primeiro turno das eleições de 2026, representando 60% das 920 mídias feitas com inteligência artificial monitoradas. A maioria das publicações irregulares e sem a rotulagem exigida pelo TSE partiu de perfis comuns e anônimos, dificultando a fiscalização. A disputa presidencial concentrou as manipulações, tendo Lula e Flávio Bolsonaro como os principais alvos em conteúdos que alternaram entre sátira, promoção de candidaturas e ataques diretos à imagem.
A circulação de deepfakes nas plataformas digitais atingiu marcas expressivas durante a campanha para o primeiro turno das eleições de 2026. Um levantamento realizado pelo projeto VigIA, iniciativa da agência de checagem Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial da Universidade Estadual de Campinas, identificou a publicação de pelo menos 554 conteúdos desse tipo.
A tecnologia de manipulação digital permite alterar vídeos e fotos de pessoas reais para simular declarações e condutas inverídicas. Do total contabilizado pela pesquisa, 29 postagens partiram de perfis mantidos por partidos ou pelos próprios postulantes aos cargos públicos.
A legislação do Tribunal Superior Eleitoral proíbe esse tipo de veiculação quando caracterizada como propaganda capaz de enganar o eleitor, sob pena de cassação do mandato.
Em relatório divulgado nesta quinta-feira (1º), a equipe técnica revelou que essas falsificações representaram 60% das 920 mídias produzidas com inteligência artificial entre os dias 16 de agosto e 28 de setembro. Entre as peças de maior circulação sobressaem-se comunicadores anunciando reportagens inventadas e personalidades simulando apoio político.
Deepfakes e os desafios da fiscalização
A identificação dos responsáveis pelas publicações irregulares representa um grande gargalo para o cumprimento das normas eleitorais vigentes. A imensa maioria das postagens manipuladas, somando 525 casos, teve origem em contas mantidas por cidadãos comuns e perfis sem identificação.
Além do uso de montagens realistas, a ausência de avisos explícitos sobre a aplicação de recursos tecnológicos descumpriu as exigências legais. Das 920 publicações auditadas, apenas 371 traziam o rótulo obrigatório, deixando 549 materiais em situação irregular, dos quais 75 pertenciam a legendas e candidatos.
Monitoramento digital e o impacto nas candidaturas presidenciais
O monitoramento do ecossistema virtual coletou 1.941 postagens suspeitas ao longo do período analisado. Os pesquisadores confirmaram a presença de inteligência artificial em 920 peças após submetê-las a softwares de detecção e checagem humana.
A fundadora da agência, Cristina Tardáguila, avaliou a presença contínua desses recursos na rotina política. "Quando encontramos quase um conteúdo com IA por hora e vemos que a maioria não sinaliza o uso da tecnologia, temos uma dimensão do desafio que esse cenário representa não só para o eleitor como para os órgãos fiscalizadores". Ela acrescentou que "a tecnologia já faz parte da comunicação política cotidiana, e não só de episódios isolados". O levantamento apontou que a promoção de candidaturas motivou 45% das publicações confirmadas, enquanto os ataques diretos a adversários e os conteúdos de tom satírico dividiram o restante das produções.
O debate presidencial concentrou a maior parte das manipulações digitais espalhadas pelas redes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, figurou como a principal personalidade retratada, estando presente em 379 peças monitoradas.
Na sequência, o senador Flávio Bolsonaro, filiado ao PL e seu principal opositor na disputa, apareceu em 190 conteúdos. O perfil das postagens variou entre os dois cotados ao Palácio do Planalto.
No caso do atual mandatário, 39% das mídias possuíam caráter humorístico e 34% tinham como objetivo atacar sua imagem. Já em relação ao congressista do Rio de Janeiro, 40% dos materiais buscavam favorecer sua imagem e 28% apostavam na sátira. Na média global das análises, os usuários comuns responderam por 47% de todas as criações veiculadas.
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