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De Apollo a Artemis: a história, a tecnologia e os próximos passos do programa que levará a humanidade de volta à Lua

Herdeiras do legado do programa Apollo, as missões Artemis incorporam avanços tecnológicos, cooperação internacional e novos objetivos científicos para promover a expansão da presença humana no espaço

4 jun 2026 - 13h16
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A atividade humana na Lua - Selene, para os gregos - constitui um dos capítulos mais significativos da história científica.

Entre 1968 e 1972, o programa Apollo, conduzido pela NASA, levou doze astronautas à superfície lunar. As missões Apollo não apenas demonstraram a capacidade tecnológica da Humanidade, mas também forneceram dados científicos cruciais sobre a geologia lunar, a formação do sistema Terra-Lua e a própria história do Sistema Solar.

Contudo, após 1972, a atividade humana na Lua foi interrompida, marcando o início de um hiato de mais de cinco décadas até o presente momento.

Esse intervalo prolongado refletiu mudanças geopolíticas, prioridades econômicas e desafios tecnológicos. Ainda assim, o fascínio por Selene permaneceu vivo, tanto como objeto científico quanto como plataforma estratégica para futuras missões interplanetárias.

No século XXI, com o avanço de novas tecnologias e a cooperação internacional, a NASA lançou o programa Artemis - já executadas as etapas I e II -, cujo objetivo é não apenas retornar à Lua, mas estabelecer uma presença humana sustentável.

A missão Artemis I: o passado

Concebida como o alicerce do Programa Artemis, a missão Artemis I representou o primeiro grande teste integrado dos sistemas destinados a levar novamente seres humanos à Lua.

Lançada em 16 de novembro de 2022, a bordo do foguete Space Launch System (SLS), a missão não transportou tripulantes, mas carregou a cápsula Orion equipada com manequins instrumentados - "Manikin "Commander Moonikin Campos", "Helga" e "Zohar" - dotados de sensores capazes de registrar as condições de radiação e aceleração a que astronautas reais estariam expostos no ambiente espacial.

Durante uma jornada de aproximadamente 25,5 dias, a Orion percorreu mais de 2,25 milhões de quilômetros, inserindo-se em uma órbita retrógrada ao redor da Lua e atingindo a distância máxima de 432.210 quilômetros da Terra - a maior já alcançada por uma nave projetada para o transporte humano -, antes de retornar e amerissar no Oceano Pacífico em 11 de dezembro de 2022.

Ao longo da missão, foram verificados e validados o escudo térmico da Orion, os sistemas de suporte à vida, a propulsão do Módulo de Serviço Europeu (ESM) desenvolvido pela Agência Espacial Europeia (ESA) e os sistemas de comunicação de longo alcance.

A fase crítica de reentrada - na qual a cápsula atingiu velocidades próximas de 40.000 km/h e temperaturas de até 2.760 °C na superfície do escudo térmico - foi executada com sucesso, confirmando a robustez do revestimento ablativo AVCOAT, um dos elementos mais críticos para a segurança das tripulações futuras.

Embora análises pós-missão tenham identificado erosões levemente acima do esperado, em algumas regiões do escudo, esses dados se revelaram preciosos para o aprimoramento do sistema antes do primeiro voo tripulado.

Do ponto de vista científico, Artemis I proporcionou um valioso conjunto de dados sobre o ambiente de radiação no espaço, essenciais para a proteção das futuras tripulações. Os dosímetros instalados nos manequins evidenciaram que os astronautas estarão sujeitos a doses de radiação significativamente maiores do que em missões na órbita terrestre baixa, reforçando a necessidade de estratégias de mitigação já incorporadas ao planejamento das missões seguintes.

Mais do que uma demonstração tecnológica, Artemis I estabeleceu o padrão a partir do qual todo o programa seria avaliado, comprovando que o retorno humano à Lua era não apenas desejável, mas tecnicamente viável - e lançando, assim, as bases para o primeiro voo tripulado que se seguiria.

A missão Artemis II: o presente

Assentada sobre os fundamentos estabelecidos pela Artemis I, a missão Artemis II constituiu o segundo grande passo do programa e o primeiro com tripulantes humanos a bordo. Realizada recentemente, em abril de 2026, com duração de aproximadamente dez dias, teve como propósito central validar, em condições reais de voo, sistemas até então testados apenas em ambiente simulado ou não tripulado: suporte à vida, navegação, comunicação, propulsão e desempenho humano no espaço além da atmosfera.

Mais do que uma viagem ao redor da Lua, Artemis II foi uma prova decisiva - e bem-sucedida - da viabilidade do novo paradigma da atividade humana no espaço, entregando um rico conjunto de dados fisiológicos e operacionais fundamentais para o planejamento das missões seguintes.

A missão utilizou o poderoso foguete Space Launch System (SLS) para inserir a cápsula Orion em trajetória translunar.

Batizada de Integrity pela própria tripulação - nome que encarna os valores de confiança, respeito e humildade que uniram os quatro astronautas e os milhares de profissionais de diversas nações envolvidos no projeto -, a espaçonave é propulsionada pelo Módulo de Serviço Europeu (ESM), desenvolvido pela ESA com destacada participação da Airbus Defence and Space.

Esse módulo europeu, dotado de 33 motores e quatro grandes painéis solares, funcionou como o "coração" da nave, garantindo propulsão, energia e suporte à vida ao longo de toda a jornada - exemplo concreto da cooperação internacional que distingue o programa Artemis.

Aos controles da Integrity esteve a tripulação composta por Reid Wiseman (comandante), Victor Glover (piloto), Christina Koch e Jeremy Hansen (especialistas de missão) - um grupo histórico que reuniu, pela primeira vez, uma mulher e um astronauta afro-americano em voo além da órbita terrestre baixa, além de um representante canadense.

A trajetória adotada seguiu o perfil denominado free-return trajectory, no qual a dinâmica orbital da Lua garante o retorno seguro à Terra mesmo em caso de falha propulsiva - a mesma estratégia que salvaguardou as missões Apollo mais críticas.

Após o lançamento do Centro Espacial Kennedy em 1º de abril de 2026, a Orion completou a injeção translunar no segundo dia e seguiu em direção à Lua, atingindo, em 6 de abril, a distância recorde de 248.655 milhas da Terra - superando a marca histórica da Apollo 13 -, data em que a tripulação também observou um eclipse solar cujas imagens são formidáveis.

Durante o sobrevoo da face oculta, os astronautas viveram cerca de três horas de silêncio de comunicações, período aproveitado para observações autônomas, registros fotográficos inéditos da Bacia Orientale e da Cratera Pierazzo e a descrição de tonalidades inesperadas de verde e marrom que indicam variações mineralógicas na crosta lunar.

Paralelamente, a tripulação conduziu experimentos pioneiros de saúde humana - o ARCHeR, o protocolo de biomarcadores imunes, o Standard Measures e o AVATAR (chips de órgãos derivados dos próprios tripulantes) -, coletando dados sobre sono, estresse, imunidade, microbioma e efeitos da radiação cósmica nos tecidos humanos vivos, cruciais para o planejamento de missões a Marte.

A missão culminou com a amerissagem no Oceano Pacífico em 10 de abril de 2026, aproximadamente 200 quilômetros ao largo da costa de San Diego. A reentrada atmosférica, realizada a mais de 11 km/s sob temperaturas de até 3.000 °C, confirmou a robustez do escudo térmico da Integrity. Equipes especializadas da Marinha dos Estados Unidos, a partir do navio de recuperação USS John P. Murtha, resgataram em segurança os quatro astronautas, que emergiram emocionados e em excelente estado de saúde. Horas depois, transferidos ao Centro Espacial Johnson em Houston, iniciaram o protocolo de readaptação à gravidade terrestre e o debriefing técnico-científico, encerrando, com êxito absoluto, o primeiro voo humano além da órbita terrestre baixa em mais de cinco décadas.

As missões Artemis III e IV: o futuro

A Artemis II comprovou que humanos podem voar com segurança no espaço para além da atmosfera, ao passo que a Artemis III terá uma missão igualmente crucial, porém distinta: prevista para meados de 2027 em órbita terrestre baixa, ela será o primeiro ensaio real de atracamento entre a cápsula Orion e os lançadores lunares comerciais - o Starship da SpaceX e o Blue Moon da Blue Origin.

Trata-se de uma missão de demonstração de altíssima complexidade operacional: o SLS (Space Launch System) lançará a Orion com quatro tripulantes usando um "espaçador" estrutural no lugar do estágio superior propulsivo, enquanto os lançadores comerciais chegarão à órbita em lançamentos independentes.

Os astronautas passarão mais tempo a bordo da Orion do que na Artemis II, validarão pela primeira vez o sistema de atracamento da Orion e poderão potencialmente adentrar em um dos sistemas de aborto de lançamento.

Nas palavras do administrador-adjunto interino do programa Moon to Mars da Diretoria de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da NASA, Jeremy Parsons, "a Artemis III será uma das missões mais complexas já empreendidas pela NASA" - porque é justamente dela que depende o sucesso do pouso que virá a seguir.

Com os sistemas de atracamento validados pela Artemis III, abre-se o caminho para o momento mais aguardado do programa: a Artemis IV, prevista para o início de 2028, que representará o primeiro pouso humano na superfície lunar desde a Apollo 17, em 1972.

Quatro astronautas viajarão até a órbita lunar a bordo da Orion; lá, dois deles transbordarão para o HLS (The Human Landing System) comercial e descenderão às proximidades do polo sul lunar - região nunca explorada in loco, onde sondas não tripuladas identificaram evidências de água em forma de em crateras de sombra permanente.

Ao longo de aproximadamente uma semana, a tripulação realizará caminhadas espaciais com os trajes avançados da Axiom Space (AxEMU), coletará amostras geológicas inéditas, implantará na superfície instrumentos científicos - entre eles o DUSTER (DUst and plaSma environmenT survEyoR), que caracterizará a poeira e o plasma do ambiente nas imediações em uma das nove regiões candidatas ao pouso identificadas pela NASA próximas ao polo sul - e marcará a presença histórica da primeira mulher e do primeiro astronauta não branco a tocar o solo da Lua.

Mais do que um retorno, a Artemis IV será o lançamento das bases de uma presença humana sustentável na Lua - e o primeiro degrau concreto de uma jornada que, eventualmente, levará seres humanos até Marte.

Sínteses

O Programa Artemis - missões Artemis I, II, III, IV e aquelas que virão na sequência - inaugura uma nova era da atuação humana no espaço, demonstrando a viabilidade de missões tripuladas além da órbita terrestre após mais de cinquenta anos.

Seus resultados serão determinantes para o sucesso das próximas etapas do programa Artemis, especialmente a missão Artemis III, que pretende viabilizar o pouso humano na Lua. Além disso, a missão estabelece fundamentos tecnológicos e operacionais para a construção de uma presença sustentável no ambiente lunar e, futuramente, para missões a Marte.

O impacto midiático e inspiracional das missões - sobretudo da Artemis II - também foi sem precedentes: milhões de pessoas ao redor do mundo acompanharam ao vivo, pela televisão, internet e redes sociais, o primeiro voo tripulado além da órbita terrestre baixa em mais de 50 anos, reacendendo o fascínio coletivo pelo espaço e inspirando especialmente jovens estudantes de ciências e engenharia.

A síntese perfeita entre tradição e inovação na aventura humana pelo cosmos são pontos muito importantes do Programa Artemis. Herdeira do legado do programa Apollo, transcende a mera repetição histórica ao incorporar avanços tecnológicos, cooperação internacional e novos objetivos científicos.

Mais do que os voos ao redor de Selene, as etapas ora realizadas constituem um ensaio geral para a expansão da presença humana no espaço. Que os deuses representados nas missões - Apollo, Artemis e Selene - sejam o prelúdio de novos capítulos da experiência humana, mas, sobretudo, da tomada de consciência da centralidade do cuidado à Terra, casa comum, que em seus tons de azul permanece como lar de todas as formas conhecidas de vida.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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