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Data centers podem fazer de países do Sul Global novas colônias digitais

Os dados processados localmente permanecem sob controle de sistemas proprietários no exterior. Assim, reforça-se um modelo em que países hospedeiros fornecem espaço físico e energia, mas não capturam valor intelectual nem econômico significativo

9 abr 2026 - 18h14
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A corrida global pela infraestrutura da inteligência artificial (IA) está redesenhando o mapa da economia digital. À medida que empresas como Microsoft, Google e Amazon expandem seus gigantescos data centers, países do Sul Global tornam-se peças estratégicas — oferecendo território, energia e incentivos fiscais em troca de promessas de investimento. Argentina e Brasil despontam como novos polos desse movimento, mas o modelo adotado tende a aprofundar dependências tecnológicas e a comprometer a soberania digital da região.

Nos últimos dois anos, anúncios bilionários de novos complexos de computação em nuvem multiplicaram-se. No Brasil, o governo federal e estados como São Paulo e Bahia celebraram a chegada de centros de processamento vinculados a grandes empresas de IA, vistos como símbolos de modernização econômica. Na Argentina, planos semelhantes avançam em zonas industriais próximas de Buenos Aires e Córdoba.

Lógica da inserção periférica, com pouco aprendizado tecnológico

No discurso oficial, trata-se de atrair inovação e posicionar o país na vanguarda tecnológica. Na prática, porém, a lógica predominante é a da inserção periférica: investimentos financiados externamente, com baixa exigência de conteúdo local e poucos efeitos de aprendizado tecnológico.

Essa dinâmica repete padrões conhecidos em setores como mineração e energia. A diferença é que agora o "recurso" a ser explorado inclui dados, eletricidade e infraestrutura digital — e sua gestão definirá as próximas décadas da economia global.

Data centers de IA demandam volumes colossais de energia e resfriamento. Estudos indicam que a operação de um único complexo pode consumir o equivalente ao abastecimento de uma cidade média.

Bolsões de privilégio energético

Em países onde o sistema elétrico já é pressionado, como o Brasil e a Argentina, essa demanda compete com a expansão industrial e o consumo residencial. A combinação de incentivos fiscais e tarifas subsidiadas transforma, em muitos casos, essas instalações em "bolsões de privilégio energético".

Outro risco é a crescente assimetria informacional e contratual. Os acordos firmados com multinacionais de tecnologia raramente vêm acompanhados de cláusulas de transparência ou de compartilhamento de benefícios.

Os dados processados localmente — inclusive dados públicos e de usuários nacionais — permanecem sob controle de sistemas proprietários sediados no exterior. Assim, reforça-se um modelo em que países hospedeiros fornecem espaço físico e energia, mas não capturam valor intelectual nem econômico significativo.

O conceito de soberania digital ajuda a compreender essa armadilha. Ele refere-se à capacidade de um Estado controlar, proteger e direcionar estrategicamente seus dados, infraestruturas e os fluxos de conhecimento que moldam a economia digital.

No Brasil, as políticas de transformação digital avançaram de forma fragmentada, sem uma estratégia articulada entre Estado, empresas e universidades. Falta coordenação para usar a presença de grandes corporações como alavanca de fortalecimento tecnológico nacional — por exemplo, exigindo transferência de conhecimento, parcerias com centros de pesquisa ou adoção de padrões de transparência energética e de dados.

Há caminhos alternativos. Países da Ásia e da Europa vêm adotando condições regulatórias e de investimento mais exigentes, impondo obrigações ambientais, compromissos de inovação local e limites ao controle estrangeiro sobre dados sensíveis. Na América Latina, Chile e Uruguai já incorporam elementos dessa agenda em suas políticas de transformação digital, associando o acesso a incentivos fiscais à comprovação de benefícios tecnológicos e de sustentabilidade.

Para Argentina e Brasil, a janela de oportunidade está aberta, mas não indefinidamente. A atual onda de investimentos em IA ocorre num contexto de reconfiguração geopolítica acelerada — em que a infraestrutura digital se tornou um ativo estratégico comparável às reservas de petróleo ou aos gasodutos do século XX. Quem controla os servidores, a energia e os dados, controla também o ritmo da inovação e a direção do desenvolvimento.

Se a região optar por um modelo de mera recepção de capitais e equipamentos, consolidará sua posição como território de processamento — útil para as cadeias globais de IA, mas marginal nos retornos econômicos e no poder decisório.

Em contrapartida, políticas coordenadas de soberania digital poderiam transformar a presença de data centers em motor de capacitação técnica, integração produtiva e autonomia tecnológica.

Essa escolha, mais do que técnica, é profundamente política: trata-se de decidir se a nova economia digital será construída com ou sobre os países do Sul Global.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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