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Lei que libera compra de vacina por empresas é pouco viável

Projeto aprovado pela Câmara dos Deputados é visto como enfraquecimento da Anvisa, por permitir liberação de imunizantes sem aval nacional

8 abr 2021
10h10
atualizado às 10h26
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Especialistas ouvidos pelo Estadão dizem que o projeto de lei que libera a compra de vacinas contra a covid-19 pelo setor privado pode ser considerado inconstitucional. Eles também afirmam que a proposta é pouco viável na prática, uma vez que as principais farmacêuticas priorizam a negociação com o poder público, e dá margem para enfraquecer a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por permitir a liberação de imunizantes aprovados fora do País mesmo sem aval do órgão regulador.

Frascos rotulados como de vacina contra covid-19 em foto de ilustração
04/12/2020 REUTERS/Dado Ruvic
Frascos rotulados como de vacina contra covid-19 em foto de ilustração 04/12/2020 REUTERS/Dado Ruvic
Foto: Reuters

Ex-presidente da Anvisa e professor da USP e da FGVSaúde, Gonzalo Vecina diz que a população pode correr risco ao tomar doses de imunizantes sem aprovação da agência. "É um risco sanitário grave", diz. "Uma vacina aprovada na agência de vigilância sanitária da Índia é ruim, frágil (se não tiver aprovação no Brasil). Tanto que a Anvisa foi fazer inspeção na fábrica (da vacina Covaxin) e viu que não tinha condições (negou a Certificação de Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos)."

Vecina também classifica o projeto como "imoral" e "antiético". Segundo ele, "o grupo prioritário deve ser vacinado antes, porque tem chance maior de morrer". De acordo com ele, a lei Programa Nacional de Imunização (PNI), de 1975, aponta que as ações nacionais devem ser coordenadas pelo Ministério da Saúde, inclusive na compra e distribuição. O projeto ainda precisa passar pelo Senado antes de seguir para a sanção presidencial.

Um dos diretores da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o infectologista Renato Kfouri defende que a Anvisa possa até agilizar a aprovação de imunizantes, mas precisa seguir com a possibilidade de veto. "Precisa reiterar qualquer parecer internacional, atestar boas práticas de pesquisa e de fabricação. Disso, não podemos abrir mão, porque está em jogo a segurança da nossa população."

Além disso, ele destaca que a grande maioria dos países têm foco na vacinação conduzida pelo poder público. Para ele, a compra pelo setor privado deveria ser liberada só quando todos os grupos prioritários estiverem imunizados. "Não vejo como ético nenhuma vacina ser distribuída fora de uma hierarquia de risco", comenta ele, que ainda aponta a baixa chance de os laboratórios fecharem negócio com grupos particulares.

Diretor do Instituto Questão de Ciência (IQC), o advogado Paulo Almeida acredita que o projeto de lei deve sofrer alterações durante a tramitação. Mas, caso siga com o formato atual, poderá ser questionado judicialmente por inconstitucionalidade. "Por conta do princípio de que, no acesso à saúde, não poderia haver ordem de priorização que não a definida pelo Ministério da Saúde, dentro do Plano Nacional de Imunização", aponta. "Qualquer solução sanitária que subverta a ordem definida no PNI seria inconstitucional, passível de revogação. Há uma tendência de haver reversão pelo teor atual ser lido como inconstitucional."

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Estadão
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