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81 entidades científicas defendem banimento do 'kit covid'

Uso dos remédios do falso 'tratamento precoce' levou cinco pacientes à fila do transplante de fígado

23 mar 2021 16h47
| atualizado às 16h51
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Oitenta e uma entidades médicas e científicas brasileiras divulgaram nesta terça-feira, 23, documento no qual alertam sobre a gravidade da situação da pandemia de covid-19 no País e defendem, entre outras medidas, o banimento da prescrição e uso dos medicamentos do chamado 'kit covid', que inclui drogas sem eficácia contra a doença, como hidroxicloroquina e ivermectina, mas que segue sendo indicado por alguns médicos e defendido pelo presidente Jair Bolsonaro.

81 entidades científicas defendem banimento do 'kit covid'
81 entidades científicas defendem banimento do 'kit covid'
Foto: Edu Andrade/Fatopress / Estadão Conteúdo

Nesta terça, o Estadão revelou que a utilização das drogas já levou cinco pacientes à fila do transplante de fígado em São Paulo e está sendo apontado como causa de ao menos três mortes por hepatite causada por remédios.

Em boletim do Comitê Extraordinário de Monitoramento da Covid-19, grupo liderado pela Associação Médica Brasileira (AMB) e que reúne diversas sociedades científicas e associações médicas de todo o País, as entidades alertam para a falta de estrutura, insumos e profissionais neste momento da pandemia e ressaltam que as fake news "desorientam os pacientes". Reafirmam ainda que não existe tratamento precoce comprovado contra a doença.

"Reafirmamos que, infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida", diz texto do boletim, assinado por 54 sociedades científicas das mais diferentes especialidades e as 27 associações médicas estaduais.

O documento ressalta ainda o risco do uso indevido dos corticoides e anticoagulantes na fase inicial da doença. Os dois tipos de medicamentos podem ajudar no tratamento da fase mais grave da covid, em pacientes hospitalizados. Quando usados no início dos sintomas, ele pode levar ao agravamento do quadro.

"Aos médicos, reafirmamos que o uso de corticoides e anticoagulantes devem ser reservados exclusivamente para pacientes hospitalizados e que precisem de oxigênio suplementar, não devendo ser prescritos na covid leve, conforme diversas diretrizes científicas nacionais e internacionais", orienta as entidades aos profissionais.

O presidente da AMB, César Eduardo Fernandes, reafirma que os melhores estudos sobre o tema, "feitos com metodologia adequada", não mostraram eficácia do uso dessas drogas na redução da mortalidade pela doença.

"Elas não têm eficácia e, em casos raros, podem levar a efeitos colaterais graves. Esse risco só deveria ser aceito se eles fossem extremamente eficazes, o que não é o caso", disse ele ao Estadão.

O especialista ressalta que os médicos não podem se valer de sua autonomia para indicar medicamentos que não funcionam.

"A autonomia do médico não confere a ele o direito de receitar medicações que não têm comprovação. Muitos fazem isso porque acreditam que a sua experiência sustenta o uso desses fármacos. Pensam que, como tiveram pacientes que usaram esses remédios e melhoraram, isso justifica. Mas a maioria dos pacientes melhoraria mesmo se não tivesse sido tratada. É uma visão muito equivocada", afirma Fernandes.

A autonomia médica é o principal argumento do Conselho Federal de Medicina para permitir a prescrição desses remédios. O órgão tem sido duramente criticado por não se posicionar e punir médicos que têm insistido em tratamentos comprovadamente ineficazes.

O Código de Ética Médica prevê que é vedado ao médico "causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência". Em casos de efeitos colaterais de medicações ineficazes contra uma doença, o médico pode ser denunciado no conselho regional de medicina do Estado onde atua.

O Estadão também mostrou em reportagem publicada nesta terça relatos de efeitos colaterais como hemorragias causadas pelo uso indevido dessas drogas.

As entidades recomendam que os pacientes não se automediquem, em especial com corticoides, como dexametasona e predinisona. "Estes fármacos utilizados fora do período correto, especialmente no início dos sintomas, podem piorar a evolução da doença", diz a nota.

A orientação das entidades é procurar atendimento médico em um posto de saúde ou por telemedicina no caso de sintomas leves, como dor de garganta, tosse, dor no corpo, náuseas, perda de apetite, perda do olfato ou paladar. Se houver falta de ar, a orientação é buscar uma UPA ou pronto-socorro.

No boletim, as instituições defendem ainda a vacinação rápida, o isolamento social, o uso correto de máscaras e a higiene das mãos. Solicitam ainda "esforços políticos e diplomáticos" para a compra de medicamentos usados na intubação, já escassos em vários hospitais.

"São urgentes esforços políticos, diplomáticos e a utilização de normativas/leis de excepcionalidade, para solucionar a falta de medicamentos ao atendimento emergencial de pacientes hospitalares acometidos pela COVID-19, em especial de bloqueadores neuromusculares, opioides e hipnóticos - indispensáveis ao processo de intubação de doentes em fase crítica. Por compromisso ético e zelando pela transparência, informamos que, na ausência destes fármacos, não é possível oferecer atendimento adequado para salvar vidas", dizem.

Veja abaixo as entidades signatárias do documento:

SOCIEDADES DE ESPECIALIDADES

  • Academia Brasileira de Neurologia
  • Associação Brasileira de Alergia e Imunologia
  • Associação Brasileira de Cirurgia Pediátrica
  • Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular
  • Associação Brasileira de Medicina de Emergência
  • Associação Brasileira de Medicina de Tráfego
  • Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação
  • Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas
  • Associação Brasileira de Medicina Preventiva e Administração em Saúde
  • Associação Brasileira de Nutrologia
  • Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico Facial
  • Associação Brasileira de Psiquiatria
  • Associação de Medicina Intensiva Brasileira
  • Associação Médica Homeopática Brasileira
  • Associação Nacional de Medicina do Trabalho
  • Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva
  • Colégio Brasileiro de Cirurgiões
  • Colégio Brasileiro de Radiologia
  • Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura
  • Conselho Brasileiro de Oftalmologia
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
  • Federação Brasileira de Gastroenterologia
  • Sociedade Brasileira de Anestesiologia
  • Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica
  • Sociedade Brasileira de Clínica Médica
  • Sociedade Brasileira de Coloproctologia
  • Sociedade Brasileira de Dermatologia
  • Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  • Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva
  • Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica
  • Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
  • Sociedade Brasileira de Infectologia
  • Sociedade Brasileira de Mastologia
  • Sociedade Brasileira de Medicina de Familia e Comunidade
  • Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte
  • Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear
  • Sociedade Brasileira de Nefrologia
  • Sociedade Brasileira de Neurocirurgia
  • Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica
  • Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia
  • Sociedade Brasileira de Patologia
  • Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial
  • Sociedade Brasileira de Pediatria
  • Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia
  • Sociedade Brasileira de Radioterapia
  • Sociedade Brasileira de Reumatologia
  • Sociedade Brasileira de Urologia

ASSOCIAÇÕES MÉDICAS ESTADUAIS FEDERADAS À AMB

  • Associação Médica do Acre
  • Sociedade de Medicina de Alagoas
  • Associação Médica do Amazonas
  • Associação Médica do Amapá
  • Associação Bahiana de Medicina
  • Associação Médica Cearense
  • Associação Médica de Brasília
  • Associação Médica do Espírito Santo
  • Associação Médica de Goiás
  • Associação Médica do Maranhão
  • Associação Médica de Minas Gerais
  • Associação Médica do Mato Grosso do Sul
  • Associação Médica do Mato Grosso
  • Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará
  • Associação Médica de Pernambuco
  • Associação Piauiense de Medicina
  • Associação Médica da Paraíba
  • Associação Médica do Paraná
  • Sociedade Médica do Estado do Rio de Janeiro
  • Associação Médica do Rio Grande do Norte
  • Associação Médica de Rondônia
  • Associação Médica de Roraima
  • Associação Médica do Rio Grande do Sul
  • Associação Catarinense de Medicina
  • Sociedade Médica de Sergipe
  • Associação Paulista de Medicina
  • Associação Médica de Tocantins
Estadão
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