Copa tem credibilidade questionada após Fifa suspender punição de jogador americano a pedido de Trump
A decisão de ignorar as regras devido à pressão da Casa Branca destruirá toda a confiança no órgão que rege o futebol
Depois de quatro semanas de ação em campo, talvez seja um escândalo fora de campo que venha a marcar a Copa do Mundo de 2026. A decisão da Fifa de permitir que o americano Folarin Balogun jogue a partida das oitavas de final contra a Bélgica, apesar de ter sido expulso na partida anterior contra a Bósnia e Herzegovina, constitui uma clara violação das próprias regras da entidade. A medida foi recebida com indignação praticamente por todos.
Surpreendentemente, a Fifa, que rege o futebol internacional, não apenas se recusou até o momento de apresentar qualquer justificativa detalhada para sua decisão de suspender o que seria uma punição padrão de um jogo após o cartão vermelho recebido por Balogun, como a revogação da punição parece resultar de pressão direta da Casa Branca.Reportagens sugerem que Donald Trump fez três ligações para a Fifa desde a quarta-feira para garantir que o cartão vermelho fosse anulado. A Casa Branca afirmou que as ligações foram feitas para entender por que Balogun foi expulso e o motivo da suspensão.
Se Balogun merecia ser expulso é discutível. Isso também é de importância secundária quando comparado às possíveis repercussões dessa intervenção bombástica da Fifa.
Naturalmente, a decisão foi recebida com raiva e perplexidade pela comunidade futebolística fora dos EUA, principalmente pelos belgas, que agora precisam se preparar para enfrentar o jogador mais perigoso da seleção masculina de futebol dos EUA com apenas 24 horas de antecedência. A declaração da Federação Belga de Futebol, prometendo explorar "todas as opções possíveis" em nome de "[salvaguardar] os direitos legítimos de todas as seleções participantes e proteger os princípios fundamentais do fair play em nosso esporte", sugere que eles não têm intenção de aceitar isso passivamente.
A UEFA, órgão regulador do futebol na Europa, divulgou um comunicado expressando "nossa incredulidade diante de uma decisão tão sem precedentes, incompreensível e injustificável".
O comunicado afirma que a regra de suspensão de uma partida após um cartão vermelho "não é uma opção discricionária". "Trata-se de um princípio consagrado nos regulamentos, que não pode estar sujeito a exceções, muito menos no meio de um torneio em que vários outros jogadores passaram pela mesma situação e cumpriram regularmente suas suspensões".
Olhando além das repercussões imediatas, esse episódio parece ser um microcosmo da saúde do futebol mundial de maneira mais ampla. Em termos simples, este parece ser um caso em que uma decisão disciplinar aparentemente já definida foi revertida devido a pressões políticas.
Nesse contexto, a suposta intervenção da Casa Branca suscitou questões já conhecidas e incômodas sobre a autoridade disciplinar da Fifa, chamando cada vez mais atenção para a opacidade dos processos da organização.
O escrutínio deve recair especialmente sobre Gianni Infantino. Observadores atentos estão cientes do histórico do presidente da Fifa quando se trata de bajular o regime de Trump. Apesar de manter uma postura oficial de neutralidade política, a preparação para esta Copa do Mundo foi marcada por imagens de Infantino bajulando o ego de Donald Trump, desfilando com bonés do MAGA e concedendo-lhe prêmios de paz inventados.
Mas esse último ato pode finalmente ser a gota d'água. Infantino agora parece estar minando ativamente a integridade esportiva do próprio esporte que lidera, apenas para manter boas relações com o presidente dos EUA.
Uma questão de confiança
Em última análise, essa história se resume a uma questão de confiança e integridade esportiva, dois temas que estão no cerne da minha própria pesquisa sobre torcida no futebol como uma forma de patrimônio vivo. Ao contrário de monumentos ou edifícios históricos, o patrimônio vivo sobrevive porque as comunidades transmitem continuamente valores e experiências específicas de geração em geração.
A Copa do Mundo é um dos exemplos mais claros desse fenômeno. Seu significado cultural não decorre apenas de partidas, momentos e atuações inesquecíveis. Ele surge dos rituais e das experiências compartilhadas que cercam o torneio: torcedores viajando por todos os continentes, famílias se reunindo para assistir às partidas juntas, histórias transmitidas de geração em geração. E, o mais importante, a crença coletiva de que a competição não representa apenas o prêmio máximo do futebol internacional — mas também um prêmio fundamentalmente justo.
Essa crença na justiça é particularmente vital neste caso. A Copa do Mundo é importante porque bilhões de pessoas aceitam que vitórias e derrotas são conquistadas dentro de um quadro competitivo legítimo. Elas comemoram os triunfos porque confiam amplamente na competição. Aceitam a decepção porque confiam nas regras. Essas premissas compartilhadas sustentam o torneio como uma forma de patrimônio cultural vivo.
Quando a Fifa se afasta de forma tão flagrante dos procedimentos estabelecidos e parece se submeter voluntariamente à influência política, essa base fica fundamentalmente abalada.
Quando os torcedores começam a questionar não apenas o resultado de decisões arbitrais individuais, mas a legitimidade do próprio sistema, isso corrói a confiança implícita e a beleza simples do próprio jogo. Uma vez perdidas, essas coisas são extremamente difíceis de reconstruir.
É por isso que a governança nunca pode ser descartada como uma mera questão administrativa. Procedimentos transparentes, instituições responsáveis e independência genuína são os pilares sobre os quais repousa a legitimidade da Copa do Mundo e do futebol em geral.
O maior torneio do futebol do mundo deriva seu poder da crença de que todas as nações competem de acordo com as mesmas regras. Se a Fifa estiver disposta a abandonar esse princípio diante da pressão política, corre o risco de sacrificar algo muito mais valioso do que sua própria credibilidade. Corre o risco de minar a confiança que fez da Copa o evento esportivo mais importante do planeta.
A disponibilidade de Folarin Balogun para a partida contra a Bélgica pode ser manchete por um ou dois dias. A questão muito mais importante é que a Fifa levou o mundo a questionar se as regras da Copa do Mundo ainda são aplicadas de forma igualitária.
Josh Bland recebe financiamento do Economic and Social Science Research Council.
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