Conservador pró-UE toma posse na Hungria e encerra era Orbán
Péter Magyar inicia mandato prometendo recuperar a economia e reaproximar o país da Europa, enquanto se esgota o prazo para reaver bilhões de euros em financiamentos congelados pela UE no governo de seu antecessor.O centro-direitista Péter Magyar tomou posse neste sábado (09/05) como primeiro-ministro da Hungria após uma vitória esmagadora nas eleições de 12 de abril, que encerrou um período de 16 anos em que o país foi governado pelo ultradireitista Viktor Orbán.
Na sessão inaugural do novo Parlamento húngaro após as eleições, os deputados votaram a favor da formalização do mandato do conservador pró-europeu, com um placar der 140 votos favoráveis, 54 contra e uma abstenção.
A vitória por ampla margem nas eleições de abril deu ao partido do novo premiê, o Tisza, uma maioria constitucional que lhe permitirá reverter reformas impostas por Orbán que abalaram os alicerces da democracia no país.
Magyar foi alçado ao cargo com promessas de mudanças após anos de estagnação econômica e relações tensas com aliados importantes, como a União Europeia (UE), sob o governo de seu antecessor.
Corrida para desbloquear fundos da UE
Investidores estrangeiros e húngaros comemoraram a vitória de Magyar, com a moeda local, o florim, atingindo a maior cotação em relação ao euro em quatro anos, os rendimentos dos títulos caindo e pesquisas pós-eleitorais mostrando que ainda mais eleitores apoiam o Tisza.
No entanto, o clima de lua de mel para o novo líder de 45 anos pode ser de curta duração, com o tempo se esgotando para garantir a liberação de bilhões de euros em financiamentos congelados pela UEdevido às preocupações de Bruxelas com a erosão democrática no país. Esses fundos são vistos como necessários para impulsionar a economia e fortalecer as finanças públicas que se encontram sob forte pressão.
O centro-direitista, que prometeu uma ampla campanha anticorrupção, pretende selar um acordo com os líderes da UE para desbloquear o financiamento suspenso até 25 de maio.
"O povo húngaro nos deu um mandato para pôr fim a décadas de estagnação", disse Magyar. "Eles nos deram um mandato para abrir um novo capítulo na história da Hungria. Não apenas para mudar o governo, mas também para mudar o sistema. Para recomeçar."
Crise econômica e déficit orçamentário
Magyar herda uma economia que mal saiu da estagnação no primeiro trimestre e enfrenta agora novos desafios devido ao aumento dos custos de energia associados ao conflito no Oriente Médio. A crise gerada pela guerra no Irã pode pesar muito sobre a economia da Europa como um todo, dependente de importações.
Dados divulgados nesta sexta-feira mostraram que o déficit orçamentário da Hungria atingiu 71% da meta anual em abril, impulsionado pelos gastos pré-eleitorais de Orbán. Magyar afirmou que o déficit pode chegar a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano.
O novo primeiro-ministro prometeu reafirmar a orientação ocidental da Hungria. O país, membro da Otan, era visto sob o governo de Orbán como muito próximo ao Kremlin. O populista de direita impôs uma série de obstáculos aos esforços da UE para apoiar a Ucrânia contra a invasão russa.
Magyar também afirmou que suspenderia as transmissões de notícias da imprensa pública após assumir o poder, acusando a mídia estatal e os veículos pró-Orbán de ajudarem o ex-líder a se manter no poder, enquanto concediam pouco espaço a críticos.
Quem é Péter Magyar
Até o início de 2024, Magyar era um nome pouco conhecido do grande público húngaro, apesar de ter circulado nas últimas duas décadas pelo núcleo do poder de Viktor Orbán.
Advogado de 45 anos e ex-integrante do partido governista Fidesz, ele se tornou o principal rosto da oposição de direita e conseguiu o feito de desbancar seu antigo aliado, que há 16 anos liderava o país.
Magyar filiou-se ao Fidesz em 2002, ocupou cargos em instituições estatais, atuou como diplomata na União Europeia e manteve relações próximas com figuras importantes do governo.
Foi casado com Judit Varga, ex-ministra da Justiça e apontada no passado como possível sucessora de Orbán. Para parte de seus apoiadores, essa trajetória interna foi justamente o que lhe deu credibilidade para desmontar o sistema "por dentro".
O ponto de virada política de Magyar veio após um escândalo envolvendo a então presidente do país, Katalin Novák, e Varga, que já era sua ex-esposa. Elas renunciaram aos cargos em fevereiro de 2024, após vir à tona que o governo de Orbán, que se dizia defensor das famílias cristãs, ajudou a encobrir um escândalo de abuso sexual em um abrigo para crianças.
Magyar agiu rapidamente e rompeu com o Fidesz. Denunciou a corrupção sistêmica no governo e o domínio de uma pequena elite político econômica, em entrevista que viralizou e o alçou a líder nacional.
A rápida ascensão do Tisza
Nas semanas seguintes, ele intensificou suas críticas ao governo e começou a organizar eventos públicos. Lançou um novo movimento político, que mais tarde se tornaria o partido Tisza, que obteve 30% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, em junho daquele ano. Magyar tornou-se então eurodeputado.
Com um discurso voltado a problemas cotidianos, como inflação, baixos salários, precarização da saúde e corrupção, o político atraiu eleitores cansados de uma oposição fragmentada.
Evitando posições definidas em temas que ainda enfrentam resistência no país, como a garantia de direitos à população LGBTQIA+, Magyar conseguiu unir um espectro amplo de críticos de Orbán. O resultado veio nas urnas, com uma vitória que marcou uma virada histórica na política da Hungria.
rc (Reuters, AFP)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.