Consequência de mais de quatro anos de guerra, distúrbio de estresse pós-traumático afeta um terço dos ucranianos
Um estudo publicado no European Journal of Psychotraumatology revela que quase um terço dos civis ucranianos (31,2%) apresenta sintomas de estresse pós-traumático, índice mais que o triplo da média mundial. Mais de 90% dos entrevistados relataram vivências traumáticas causadas pela guerra com a Rússia, como bombardeios e perdas familiares. Especialistas ressaltam que, apesar do forte impacto na saúde mental, redes de apoio social e a união comunitária têm sido cruciais para mitigar os danos.
Quase um em cada três habitantes no país apresenta sintomas que apontam para distúrbio de estresse pós-traumático. Invasão da Rússia, que ocorre desde 2022, é o principal motivo.A guerra em larga escala da Rússia contra a Ucrânia já dura mais de quatro anos. E o conflito não se limita às linhas de frente. Constantemente, mísseis atingem edifícios residenciais e estruturas civis, como instalações de fornecimento de energia. Mortes, feridos, destruição e fugas também deixam marcas, mesmo que sejam menos visíveis: quase um em cada três civis ucranianos (31,2%) apresenta sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, incluindo sua forma complexa, uma variante ainda mais grave do distúrbio.
Essa é a conclusão de um levantamento conduzido pela rede internacional de pesquisa Cooperação e Conflito no Leste Europeu (KonKoop). Para o estudo, cientistas das áreas de saúde mental e ciências sociais entrevistaram mais de 2,5 mil ucranianos que vivem em regiões que permanecem ou voltaram a ficar sob o controle do governo de Kiev. A pesquisa recebeu financiamento do Ministério da Pesquisa da Alemanha (BMFTR) e foi publicada na revista científica European Journal of Psychotraumatology.
Quando o cotidiano atormenta
O transtorno de estresse pós-traumático ocorre quando uma pessoa passa por uma experiência negativa, como uma ameaça real ou potencial à própria vida, à própria integridade física ou à de outras pessoas, e esse incidente deixa marcas duradouras na saúde mental. Quem sofre desse distúrbio pode reviver repetidamente o episódio traumático por meio dos chamados flashbacks, além de apresentar ansiedade, irritabilidade e problemas no sono. Em geral, os sintomas só aparecem algum tempo depois da experiência que causou o trauma.
Especialistas estimam que menos de 10% da população mundial atenda aos critérios para esse tipo de transtorno. Segundo o novo estudo, entre os ucranianos essa proporção é mais de três vezes maior. O levantamento se baseia em sintomas relatados pelos próprios participantes. Por isso, dizem os pesquisadores, os resultados podem ter sido influenciados pela forma como eles interpretaram as perguntas.
Trauma coletivo
Segundo Deirdre MacManus, coordenadora do estudo e professora de psiquiatria forense do King's College London, o que mais chama a atenção nos resultados é a dimensão dos traumas revelada pela pesquisa.
Mais de 90% dos entrevistados afirmaram ter passado por pelo menos uma experiência traumática na vida adulta. Nem todas estavam relacionadas à guerra, mas muitas delas, sim. Metade dos participantes disse ter um familiar atuando na linha de frente. Mais de 70% relataram ter vivenciado bombardeios na região onde vivem, e 65% presenciaram algum tipo de destruição provocada pela guerra.
"Não há mais nenhuma família na Ucrânia que não tenha sofrido com a guerra, seja porque perdeu alguém ou porque algum familiar permaneceu em uma região ocupada", afirma Ruslana Lutsyk-Andrushko à DW. Ela trabalha como conselheira psicossocial da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras na cidade ucraniana de Vinítsia, a 350 quilômetros de Kiev.
"Não podemos atribuir a causa exclusivamente à invasão, já que outras experiências traumáticas podem ter contribuído para o desenvolvimento do transtorno", ressalta Emma Facer-Irwin, principal autora do estudo. Pesquisadora do King's College, ela também trabalha como psicóloga clínica no sistema público de saúde britânico, com foco em traumas e transtorno de estresse pós-traumático.
Quanto maior o número de experiências traumáticas vividas por uma pessoa ao longo da vida, maior a probabilidade de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, explica Facer-Irwin à DW. "Mas, levando em conta que estamos falando da população civil, e não de militares ou exclusivamente de pessoas que foram deslocadas ou se refugiaram em outros países, podemos supor que a guerra seja um fator importante para o desenvolvimento e a disseminação do distúrbio", afirma.
Comunidade pode amenizar os traumas
A coordenadora do estudo Deirdre MacManus destaca que muitas pessoas na Ucrânia convivem diariamente com a ameaça de bombardeios, deslocamentos forçados, luto e incerteza. "Apesar dessas circunstâncias, muitas conseguem seguir com suas vidas e se adaptar em condições extremamente difíceis", ressalta.
O levantamento também mostra que, embora muitas pessoas relatem experiências traumáticas, nem todas desenvolvem transtornos persistentes relacionados ao trauma, acrescenta Facer-Irwin. "Isso nos mostra que dois terços da população processam as experiências traumáticas de outra forma."
A psicóloga acredita que o forte sentimento de identidade nacional dos ucranianos também possa ter um papel nesse processo. "Esse sentimento de fazer parte de uma sociedade unida, que enfrenta a invasão de forma conjunta", classifica ela. Segundo Facer-Irwin, pesquisas mostram que o apoio social e o sentimento de pertencimento podem auxiliar contra o transtorno de estresse pós-traumático.
"Por isso, proteger a saúde mental também passa pela criação de redes e ambientes de apoio. Muitas pessoas vivem em situações das quais não podem simplesmente escapar por causa da continuidade da guerra. Precisamos, portanto, de terapias voltadas para o tratamento de traumas e do transtorno de estresse pós-traumático, mas também de serviços de apoio social que possam atender a uma parcela maior da população."
Essa é a abordagem adotada pelo centro de reabilitação da organização Médicos Sem Fronteiras na cidade ucraniana de Vinítsia. "Quando as pessoas chegam até nós, o primeiro passo é estabilizar seu estado emocional e ajudá-las a desenvolver recursos para lidar com a situação", explica Ruslana Lutsyk-Andrushko. Apenas quando os pacientes se sentem melhor é que as memórias traumáticas começam a ser trabalhadas. Em uma terceira etapa, eles aprendem a incorporar à vida cotidiana as experiências e estratégias desenvolvidas durante o tratamento.
"Esse plano busca ensinar estratégias para que as pessoas consigam lidar sozinhas com situações de estresse. Depois de passar pelo centro, elas saem com uma espécie de kit de primeiros socorros, que podem usar para ajudar a si mesmas, os filhos e os amigos em momentos difíceis."
Dimensão dos traumas na Ucrânia ainda é incerta
A Rússia intensifica atualmente os ataques contra a Ucrânia, o que tem afetado a saúde mental de muitos ucranianos, afirma Lutsyk-Andrushko. "Quando uma pessoa vive sob estresse e não vê perspectivas de melhora, isso naturalmente acaba provocando um enorme desgaste. As pessoas precisam de esperança e confiança em um futuro melhor", diz.
Por isso, o estudo representa apenas um retrato do momento atual, afirma a psicóloga Facer-Irwin. Ainda não é possível avaliar toda a dimensão dos impactos da guerra sobre a saúde mental da população. "Os efeitos de longo prazo provavelmente só ficarão claros quando as pessoas tiverem a oportunidade de estar em segurança e de se recuperar plenamente da guerra", conclui.
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